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Lectio Divina
XVII Domingo do Tempo Comum - Ano A PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

17º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A


30 de Julho de 2017

 

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 13, 44-52)

 

Naquele tempo, disse Jesus às multidões: «O Reino do Céu é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem encontra. Volta a escondê-lo e, cheio de alegria, vai, vende tudo o que possui e compra o campo. O Reino do Céu é também semelhante a um negociante que busca boas pérolas. Tendo encontrado uma pérola de grande valor, vende tudo quanto possui e compra a pérola.» «O Reino do Céu é ainda semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes. Logo que ela se enche, os pescadores puxam-na para a praia, sentam-se e escolhem os bons para as canastras, e os ruins, deitam-nos fora. Assim será no fim do mundo: sairão os anjos e separarão os maus do meio dos justos, para os lançarem na fornalha ardente: ali haverá choro e ranger de dentes.»


«Compreendestes tudo isto?» «Sim» – responderam eles. Jesus disse-lhes, então: «Por isso, todo o doutor da Lei instruído acerca do Reino do Céu é semelhante a um pai de família, que tira coisas novas e velhas do seu tesouro.»

 

Mensagem

 

Hoje terminamos a leitura do capítulo 13 de Mateus, com as últimas três parábolas do Reino: a do tesouro escondido, a da pérola preciosa e a da rede lançada ao mar. Nas primeiras duas, podemos pôr em evidência dois aspectos: um sobre o grande valor do achado (simbolizando o Reino) e o outro sobre a atitude de quem o acha. A parábola da rede que é lançada ao mar faz eco da mensagem transmitida pela parábola do campo de trigo e do joio, lida no Domingo passado.


O contexto histórico do tesouro encontrado é o do Oriente Médio Antigo, palco de tantas invasões e guerras. Era prática habitual enterrar os valores diante da ameaça de uma invasão ou de uma guerra. Só que, muitas vezes, o dono morria por causa da violência, e o tesouro ficava escondido por muito tempo, até ser achado por acaso.


Usando este exemplo, Jesus ensina-nos algo sobre o Reino e sobre a atitude do discípulo diante dele. O Reino de Deus é um valor tão incalculável, que uma pessoa sensata daria tudo para possuí-lo. É importante notar que o texto salienta que “cheio de alegria” ele vende todos os seus bens, para poder possuir o valor maior, que é o Reino. A vivência dos valores do Reino, do seguimento de Jesus, deve ser uma alegria e não um peso. Sem dúvida é exigente, pois meias-medidas não servem (ele vende tudo o que tem); mas, o resultado é uma alegria enorme. Não a alegria superficial de alguns programas de televisão, mas uma alegria que brota da profundeza do nosso ser, pois descobrimos a única coisa que não passa e que dá sentido a toda a nossa vida: o Reino de Deus. É pena que, com frequência, o seguimento de Jesus seja vivido por nós como um peso que causa aborrecimento, e de uma forma legalista, que afasta de Deus em lugar de atrair para Ele. É impressionante como se consegue fazer a Palavra de Deus algo tão aborrecido, e irrelevante!...


Mais uma vez, como na parábola do campo de trigo e joio, a última parábola ensina que o Reino, que subsiste na Igreja, congrega santos e pecadores (os bons e maus peixes). A separação final deve ser deixada para a justiça de Deus, enquanto, na vivência diária, devemos mostrar paciência e tolerância, mas, sem indiferença ou comodismo.


Depois do Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI fez esta afirmação categórica: “Só o Reino de Deus é absoluto. Tudo o mais é relativo”. Anos mais tarde, o Papa João Paulo II reafirmou-o dizendo: “A Igreja não é ela o seu próprio fim, pois está orientada para o Reino de Deus do qual é gérmen, sinal e instrumento”. E o Papa Francisco vem repetindo:“O projecto de Jesus é instaurar o Reino de Deus”.


O Papa Francisco diz-nos que “o Reino de Deus chama-nos”. Este grito chega-nos a partir do próprio coração do Evangelho. Temos que escutá-lo. Seguramente, a decisão mais importante que temos de tomar hoje na Igreja e nas nossas comunidades cristãs é a de recuperar o projecto do Reino de Deus com alegria e entusiasmo.


O discurso de Jesus termina com a pergunta: «Entendeste tudo isto?» e com a evocação da obra do escriba. A pergunta é dirigida aos discípulos, àqueles que encontraram o tesouro e a pedra preciosa. O Reino dos Céus que agora possuem foi preparado através do Antigo Testamento (as coisas velhas) e realizado em Cristo (as coisas novas). Os cristãos são convidados a tomar consciência, pelo estudo das Sagradas Escrituras, do dom imenso que receberam de Deus.


Assim, somos ensinados relativamente a algo valioso para o mundo de hoje, tão inconstante e sem raízes, por um lado, e com a tentação de fechamento no fundamentalismo e na intolerância, por outro. Nem tudo o que é antigo é ultrapassado e nem tudo o que é novidade é bom. Igualmente, nem tudo que é antigo tem que ser preservado e nem toda a novidade deve ser rejeitada. É importante ter critérios, para que não percamos os valores, nem da sabedoria antiga, nem da busca de actualização para os dias de hoje.

 

Palavra para o caminho

 

A “boa nova” que Jesus proclama resume-se nestas palavras: “O Reino de Deus - o Reino dos Céus - está próximo” (Mt 4, 17; Mc 1, 15). O que significa esta expressão? Certamente não indica um reino terreno delimitado no espaço e no tempo, mas anuncia que é Deus quem reina, que é Deus o Senhor e o seu senhorio está presente, é actual, está a realizar-se. A novidade da mensagem de Cristo é portanto que Deus n'Ele se fez próximo, já reina entre nós, como demonstram os milagres e as curas que realiza. Deus reina no mundo mediante o seu Filho feito homem e com a força do Espírito Santo, que é chamada “mão de Deus” (cf. Lc 11, 20). Aonde chega Jesus, o Espírito criador leva vida e os homens são curados das doenças do corpo e do espírito. O senhorio de Deus manifesta-se então na cura integral do homem. Com isto Jesus quer revelar o rosto do verdadeiro Deus, o Deus próximo, cheio de misericórdia por todos os seres humanos; o Deus que nos faz o dom da vida em abundância, da sua própria vida. O reino de Deus é portanto a vida que se afirma sobre a morte, a luz da verdade que dissipa as trevas da ignorância e da mentira.

 
XVI Domingo do Tempo Comum - Ano A PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

16º DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)

23 de Julho de 2017

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 Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 13, 24-43) 

24Jesus propôs-lhes outra parábola: «O Reino do Céu é comparável a um homem que semeou boa semente no seu campo. 25Ora, enquanto os seus homens dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e afastou-se. 26Quando a haste cresceu e deu fruto, apareceu também o joio. 27Os servos do dono da casa foram ter com ele e disseram-lhe: 'Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio?' 28'Foi algum inimigo meu que fez isto' - respondeu ele. Disseram-lhe os servos: 'Queres que vamos arrancá-lo?' 29Ele respondeu: 'Não, para que não suceda que, ao apanhardes o joio, arranqueis o trigo ao mesmo tempo. 30Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa; e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em feixes para ser queimado; e recolhei o trigo no meu celeiro.'»

31Jesus propôs-lhes outra parábola: «O Reino do Céu é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. 32É a mais pequena de todas as sementes; mas, depois de crescer, torna-se a maior planta do horto e transforma-se numa árvore, a ponto de virem as aves do céu abrigar-se nos seus ramos.»

33Jesus disse-lhes outra parábola: «O Reino do Céu é semelhante ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até que tudo fique fermentado.»

34Tudo isto disse Jesus, em parábolas, à multidão, e nada lhes dizia sem ser em parábolas. 35Deste modo cumpria-se o que fora anunciado pelo profeta: «Abrirei a minha boca em parábolas e proclamarei coisas ocultas desde a criação do mundo.»

36Afastando-se, então, das multidões, Jesus foi para casa. E os seus discípulos, aproximando-se dele, disseram-lhe: «Explica-nos a parábola do joio no campo.» 37Ele, respondendo, disse-lhes:  «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem; 38o campo é o mundo; a boa semente são os filhos do Reino; o joio são os filhos do maligno; 39o inimigo que a semeou é o diabo; a ceifa é o fim do mundo e os ceifeiros são os anjos. 40Assim, pois, como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será no fim do mundo: 41o Filho do Homem enviará os seus anjos, que hão-de tirar do seu Reino todos os escandalosos e todos quantos praticam a iniquidade, 42e lançá-los na fornalha ardente; ali haverá choro e ranger de dentes. 43Então os justos resplandecerão como o Sol, no Reino de seu Pai. Aquele que tem ouvidos, oiça!» 

Mensagem 

Embora o Evangelho para este 16º Domingo do Tempo Comum – Ano A apresente três parábolas, contudo vamos centrar-nos sobretudo na primeira, propondo como “mensagem” o que o Papa Francisco disse no Angelus de 20 de Julho de 2014. 

Prezados irmãos e irmãs, bom dia! 

Durante estes domingos a liturgia propõe algumas parábolas evangélicas, ou seja, breves narrações que Jesus utilizava para anunciar o Reino dos céus às multidões. Entre aquelas presentes no Evangelho de hoje, há uma bastante complexa, cuja explicação Jesus oferece aos discípulos: é a do trigo e do joio, que enfrenta o problema do mal no mundo, pondo em evidência a paciência de Deus (cf. Mt 13, 24-30.36-43). A cena desenrola-se num campo onde o senhor lança a semente; mas certa noite chega o inimigo e semeia o joio, termo que em hebraico deriva da mesma raiz do nome «Satanás», evocando o conceito de divisão. Todos nós sabemos que o diabo é um «semeador de joio», aquele que procura sempre dividir as pessoas, as famílias, as nações e os povos. Os empregados gostariam de arrancar imediatamente a erva daninha, mas o senhor impede-o com a seguinte motivação: «Ao extirpardes o joio, correis o risco de arrancar também o trigo» (Mt 13, 29). Pois todos nós sabemos que o joio, quando cresce, se assemelha muito ao trigo, e existe o perigo de se confundirem.

O ensinamento da parábola é dúplice. Antes de tudo recorda que o mal existente no mundo não deriva de Deus, mas do seu inimigo, o Maligno. É curioso, o Maligno sai à noite para semear o joio, na escuridão, na confusão; sai para semear o joio onde não há luz. Este inimigo é astuto: semeou o mal no meio do bem, de tal forma que para nós, homens, é impossível separá-lo claramente; mas no final Deus conseguirá fazê-lo!

E aqui chegamos ao segundo tema: a oposição entre a impaciência dos empregados e a espera paciente do dono do campo, que representa Deus. Às vezes temos uma grande pressa de julgar, classificar, pôr de um lado os bons e do outro os maus. Mas recordai-vos da oração daquele homem soberbo: «Graças a Vós ó Deus, eu sou bom, não sou como os outros homens, maus...» (cf. Lc 18, 11-12). Ao contrário, Deus sabe esperar. Ele olha para o «campo» da vida de cada pessoa com paciência e misericórdia: vê muito melhor do que nós a sujeira e o mal, mas vê também os germes do bem e espera com confiança que eles amadureçam. Deus é paciente, sabe esperar. Como isto é bom! O nosso Deus é um Pai paciente que nos espera sempre, que nos aguarda com o coração na mão para nos receber e perdoar. Perdoa-nos sempre se formos ter com Ele.

A atitude do dono do campo é aquela da esperança fundada na certeza de que o mal não é a primeira nem a última palavra. E é graças a esta esperança paciente de Deus que o próprio joio, ou seja, o coração maldoso, com muitos pecados, no final pode tornar-se uma boa semente. Mas atenção: a paciência evangélica não é indiferença diante do mal; não se pode fazer confusão entre o bem e o mal! Perante o joio presente no mundo, o discípulo do Senhor é chamado a imitar a paciência de Deus, a alimentar a esperança com o alento de uma confiança inabalável na vitória final do bem, ou seja, de Deus.

Com efeito, no final o mal será arrancado e eliminado: no tempo da colheita, isto é do juízo, os ceifeiros cumprirão a ordem do senhor, separando o joio para o queimar (cf. Mt 13, 30). Naquele dia da ceifa final o Juiz será Jesus, Aquele que lançou a boa semente no mundo e, tornando-se Ele mesmo «grão de trigo», morreu e ressuscitou. No final, todos nós seremos julgados com a mesma medida com a qual tivermos julgado: a misericórdia que tivermos usado em relação aos outros será utilizada também para connosco. Peçamos a Nossa Senhora, nossa Mãe, que nos ajude a crescer na paciência, na esperança e na misericórdia com todos os irmãos (Papa Francisco, Angelus, 20 de Julho de 2014). 

Palavra para o caminho 

O “Reino” anunciado por Jesus compara-se ao grão de mostarda e ao fermento: parece algo insignificante, que tem inícios muito modestos e humildes, mas contém potencialidades para encher o mundo, para o transformar e renovar. Trata-se de um dinamismo de vida nova que começa como uma pequena semente lançada à terra numa província obscura e insignificante do império romano, mas que vai lançar as suas raízes, invadir história dos homens e potenciar o aparecimento de um mundo novo. O “Reino” é uma realidade irreversível.

 
XV Domingo do Tempo Comum - Ano A PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

15º DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)

16 de Julho de 2017

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 13, 1-23 

1Naquele dia, Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar. 2Reuniu-se a Ele uma tão grande multidão, que teve de subir para um barco, onde se sentou, enquanto toda a multidão se conservava na praia. 3Jesus falou-lhes de muitas coisas em parábolas: «O semeador saiu para semear. 4Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho: e vieram as aves e comeram-nas. 5Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra: e logo brotaram, porque a terra era pouco profunda; 6mas, logo que o sol se ergueu, foram queimadas e, como não tinham raízes, secaram. 7Outras caíram entre espinhos: e os espinhos cresceram e sufocaram-nas. 8Outras caíram em terra boa e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; e outras, trinta. 9Aquele que tiver ouvidos, oiça!» 10Aproximando-se de Jesus, os discípulos disseram-lhe: «Porque lhes falas em parábolas?» 11Respondendo, disse-lhes: «A vós é dado conhecer os mistérios do Reino do Céu, mas a eles não lhes é dado. 12Pois, àquele que tem, ser-lhe-á dado e terá em abundância; mas àquele que não tem, mesmo o que tem lhe será tirado. 13É por isso que lhes falo em parábolas: pois vêem, sem ver, e ouvem, sem ouvir nem compreender. 14Cumpre-se neles a profecia de Isaías, que diz: «Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis; e, vendo, vereis, mas não percebereis. 15Porque o coração deste povo tornou-se duro, e duros também os seus ouvidos; fecharam os olhos, não fossem ver com os olhos, ouvir com os ouvidos, compreender com o coração, e converter-se, para Eu os curar.» 16Quanto a vós, ditosos os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem. 17Em verdade vos digo: Muitos profetas e justos desejaram ver o que estais a ver, e não viram, e ouvir o que estais a ouvir, e não ouviram.»

18«Escutai, pois, a parábola do semeador. 19Quando um homem ouve a palavra do Reino e não compreende, chega o maligno e apodera-se do que foi semeado no seu coração. Este é o que recebeu a semente à beira do caminho. 20Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos é o que ouve a palavra e a acolhe, de momento, com alegria; 21mas não tem raiz em si mesmo, é inconstante: se vier a tribulação ou a perseguição, por causa da palavra, sucumbe logo. 22Aquele que recebeu a semente entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza sufocam a palavra que, por isso, não produz fruto. 23E aquele que recebeu a semente em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende: esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta.» 

Comentário 

Hoje, Jesus introduz o tema teológico mais difícil, o enigma ao qual as mentes mais lúcidas e os espíritos mais nobres da humanidade procuram dar uma resposta: “Porquê o mal?”, “Por que é que o Reino de Deus encontra tanta dificuldade em afirmar-se?”.

O Evangelho deste Domingo está  nitidamente dividido em três partes. A primeira (vv. 1-9) é constituída pela parábola; a segunda (vv. 10-17) contém algumas máximas de Jesus de difícil interpretação, já que parecem insinuar que Ele não quer que os seus ouvintes se convertam; a terceira (vv. 18-23) é uma aplicação da parábola à vida da comunidade. 

Um modo estranho de semear (vv. 1-9) 

Na parábola há um pormenor que chama imediatamente a atenção: o desperdício das sementes que são espalhadas em grande quantidade num terreno estéril. Causa surpresa o comportamento do agricultor que parece agir de forma pouco ajuizada. A insistência no desperdício, no insucesso, nas perspectivas desanimadoras é um elemento importante: reflecte a realidade do mundo no qual o mal parece ser muito mais forte e mais eficiente do que o bem. Note-se o seu poder progressivo e premente: a semente não nasce, aquela que nasce não cresce, aquela que nasce é afogada. Porque é que isto acontece? Se Deus é bom, porque é que o seu Reino não se desenvolve sem obstáculos? Estas são as questões às quais Jesus queria dar uma resposta.

Para compreender a parábola, é preciso ter presente que naquela época a sementeira não era feita antes do campo ter sido preparado, mas antes. O lavrador não começava por arar, cavar, arrancar os espinhos, tirar as pedras, mas por semear antes de passar com o arado. O trabalho parece em vão. Mas eis, que depois da sementeira, o agricultor passa o arado: os carreiros desaparecem, as ervas e os espinhos são tirados, as pedras afastadas e o campo, que parecia improdutivo, passado pouco tempo cobre-se de plantas de trigo e depois de espigas loiras. É um autêntico milagre.

Jesus conta esta parábola num momento difícil da sua vida: foi expulso de Nazaré, foi tomado por louco em Cafarnaum, os fariseus querem matá-lo, os discípulos abandonam-no. Parece mesmo que toda a sua pregação foi em vão: as condições são demasiado desfavoráveis, a sua palavra parece destinada a morrer. Com esta parábola, Jesus queria lançar uma mensagem aos seus discípulos que, desencorajados, o interrogavam acerca do trabalho apostólico que estava a fazer: não obstante todas as contradições a sua palavra daria fruto abundante porque tem em si uma força de vida irresistível.

Ao contrário de todas as expectativas, a vinda do Messias não foi clamorosa, não teve grande ressonância. A sua passagem por este mundo pareceu das mais insignificantes: não mudou nada na vida social e política do seu povo. Jesus desapareceu na terra como uma pequena semente, débil, quase invisível, e, no entanto, passado pouco tempo, esta semente começou a germinar. O Evangelho fermentou a humanidade e nós, hoje, podemos verificar que a mensagem da parábola do semeador se está a realizar. Todos nós já nos questionamos, perante situações difíceis e modos de vida indiferentes ao Evangelho, se vale a pena anunciar a Palavra de Deus. Estarão os evangelizadores e os catequistas a semear em vão? Quando surgem estes pensamentos, então é o momento de professar a nossa fé na força divina contida na Palavra de Deus. 

Por que é que Jesus fala por meio de parábolas? (vv. 10-17) 

A meio da sua vida pública, Jesus faz um balanço, e constata que são poucas as pessoas que aceitaram a sua mensagem. Surpreendente? Não – diz ele. Também os profetas do Antigo Testamento não eram ouvidos. No tempo de Isaías, por exemplo, as pessoas tapavam os ouvidos para não ouvirem a palavra de Deus, e endureciam o seu coração para não se converterem (vv. 14-15). É por este motivo que Jesus recorre às parábolas: faz uma nova tentativa para desbloquear a situação. Pensa que, com esta linguagem simples e concreta, será possível entrar no coração dos seus ouvintes. A parábola obriga a refletir, a procurar o significado recôndito, faz pensar, faz a pessoa cair em si e, pode assim, levar á conversão. Estes versículos são um convite a abrir o mais rapidamente possível os olhos, os ouvidos e o coração: doutra forma, as parábolas permanecem históricas enigmáticas e não produzem nenhum fruto. 

Os quatro tipos de terreno (vv. 18-23) 

A aplicação da analogia à vida da comunidade tem por finalidade ajudar os discípulos a identificarem as dificuldades que a palavra de Deus encontra em cada um. A escassez de resultados não depende da semente ou do semeador, mas do tipo de terreno. Há antes de mais um coração duro, que é como o terreno de um caminho – porque muitas pessoas o calcaram. Representa o coração impenetrável à Palavra de Cristo porque assimilou o modo de pensar deste mundo, adaptou-se á moral corrente, fizeram seus os valores propostos pelos homens. Este é o maligno, o demónio devastador que se insinua nos pensamentos e nos sentimentos tornando-os mesquinhos, frívolos, enchendo-os de propostas de vida insensatas, de raciocínios desajuizados. Há depois um coração inconstante, que se entusiasma facilmente mas que depois, passados poucos dias, volta a ser o que era. É como uma pedra coberta por uma pequena camada de terra: lança-se uma semente, esta germina, mas seca logo. Há também um coração inquieto que se agita por problemas deste mundo, que vai atrás do sucesso e da riqueza, que alimenta sonhos mesquinhos. Estas preocupações são como os espinhos: sufocam a semente da Palavra. Por fim, há um coração bom, no qual o Evangelho produz frutos com abundância. Não se trata de quatro categorias de pessoas, mas de quatro atitudes interiores que se encontram, em proporções diferentes, em cada pessoa. É inútil que o evangelizador, para lançar a preciosa semente da palavra, fique à espera de encontrar o terreno ideal, aquele perfeitamente fecundo. Terra boa, espinhosa, pedras e terra árida sempre estarão juntos. Para alguns, isto poderá ser motivo de desencorajamento, mas para os verdadeiros apóstolos, para os catequistas autênticos, isto será um estímulo para uma sementeira ainda mais abundante. Muitos esforços serão vãos, mas um dia, pontualmente, a espiga irá aparecer, em cada pessoa.

“Arranquemos os espinhos, preparemos o terreno, recebamos a semente, aguentemos até a colheita, aspiremos a ser arrecadados nos celeiros” (Santo Agostinho). 

Palavra para o caminho 

Tradicionalmente, os cristãos temos fixado quase exclusivamente a atenção nos terrenos em que caí a semente, para rever qual é a nossa atitude ao escutar o Evangelho. No entanto é importante prestar também atenção ao semeador e ao seu modo de semear.

O que é dito logo no início do relato evangélico é: «O semeador saiu para semear». Age com uma confiança surpreendente. Semeia de forma abundante. A semente caí e caí por todas as partes, inclusive onde parece difícil que possa germinar. Não é difícil identificar o semeador. Assim semeia Jesus a Sua mensagem. Todas as manhãs sai a anunciar a Boa Nova de Deus. Semeia a Sua Palavra entre as pessoas simples, que a acolhe, e também entre os escribas e fariseus, que a rejeitam. Nunca se desalenta. A Sua sementeira não será estéril.

Hoje, pelas dificuldades que vivemos, podemos pensar que o Evangelho perdeu a sua força original e que a mensagem de Jesus já não tem garra para atrair a atenção do homem ou da mulher de hoje. Certamente, não é o momento de «colher» êxitos que chamem a atenção, mas de aprender a semear sem nos desalentarmos, com mais humildade e verdade.

Não é o Evangelho o que perdeu força mas somos nós que o anunciamos com uma fé débil e vacilante. Não é Jesus que perdeu poder de atracção. Somos nós que o desvirtuamos com as nossas incoerências e contradições. Quando um cristão não vive uma adesão forte a Jesus, «depressa perde o entusiasmo e deixa de estar seguro do que transmite, falta-lhe força e paixão. E uma pessoa que não está convencida, entusiasmada, segura, apaixonada, não convence ninguém» (Papa Francisco).

 
XIV Domingo do Tempo Comum - Ano A PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

14º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A


9 de Julho de 2017

 

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 11, 25-30)

 

Naquele tempo, Jesus exclamou: “Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Tudo me foi dado por meu Pai. Sim, Pai, Eu Te bendigo, porque assim foi do teu agrado. Ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve”.

 

Mensagem

 

Há quem considere estas breves linhas do capítulo onze do Evangelho de São Mateus (11,25-30), proclamadas neste 14º Domingo do Tempo Comum, como o mais belo e importante dizer de Jesus nos Evangelhos Sinópticos (A. M. Hunter). Na verdade, estas linhas guardam o segredo mais inteiro de Jesus, o seu tesouro mais profundo. Nos lábios de Jesus, chama-se «PAI» (Mateus 11,25).


«Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Sim, aos pequeninos, daqueles que não têm nenhuma ciência, nenhum poder, nenhum valor autónomo, que nada podem fazer sozinhos, mas que sabem confiar, e sabem que podem confiar, e sabem em quem confiar. É sobre os pequeninos que recai toda a atenção de Jesus, que, de resto, voluntariamente se confunde com eles, pois diz: «Todas as vezes que fizestes isto (ou o deixastes de fazer) a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a Mim que o fizestes (ou o deixastes de fazer)» (Mateus 25,40 e 45).


Abre-se aqui um dos mais belos fios de ouro da espiritualidade cristã, habitualmente denominado por «infância espiritual», o «pequeno caminho», «o permanecer pequeno», «o estar nos braços de Jesus», que Santa Teresinha do Menino Jesus (1873-1897) exalta na sua «História de uma alma», que tem a sua nascente mais funda naquela maravilha que é o Salmo 131,2, em que o orante se diz assim: «Estou sossegado e tranquilo, como criança saciada ao colo da mãe; a minha alma é como uma criança saciada!».


Os pequeninos, que nada valem de per si, dependem dos seus pais ou de alguém que cuide deles com carinho. Se Jesus os traz desta maneira para a primeira página, temos então de perguntar: o que é que são então cristãos adultos, maduros na sua fé? Serão aqueles que sabem tudo, que estão seguros de si, que chegaram ao fim de um curso ou percurso, que têm tudo na mão, que já não são dependentes porque já não precisam de ninguém que cuide deles? Seguramente não. Cristãos adultos na sua fé são aqueles que sabem que precisam de Deus a todo o momento, e que sabem debruçar-se sobre os pequeninos com amor. Cristãos adultos na fé não somos nós que pensamos que temos as chaves de tudo e de todos, mas somos nós como filhos de Deus, a quem carinhosamente tratamos por PAI, em quem depositamos toda a nossa confiança, somos nós como filhos e irmãos, carinhosamente atentos uns aos outros, até ao ponto sem retorno de já não sabermos viver senão repartindo o pão e o coração.


«Eu Te bendigo, ó PAI, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos» (Mateus 11,25; cf. Lucas 10,21). Esta é uma das muitas vezes em que, nos Evangelhos, Jesus aparece a rezar ao PAI, mas é uma das poucas vezes em que nos é dada a graça de ouvirmos o conteúdo da oração de Jesus [além desta vez, só no Getsémani: «PAI, se é possível, afasta de mim este cálice, mas não se faça a minha vontade, mas sim a tua» (Mateus 26,39 e 42), e na Cruz: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Mateus 27,46); «PAI, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lucas 23,34); «PAI, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lucas 23,46)]. Note-se que a belíssima oração do «PAI Nosso» (Mateus 6,9-13; cf. Lucas 11,2-4) é-nos ensinada por Jesus, mas não o ouvimos a rezá-la. Um cristão adulto na sua fé, isto é, na sua confiança, tem de se pôr, como Jesus, totalmente nas mãos seguras e carinhosas do PAI, única direcção da sua e da nossa vida.


É assim que o Evangelho entra por nós adentro, cortante como uma espada de dois gumes ou como um bisturi. Vem-me à memória uma velha história que circula na África Oriental, e que fala de uma mulher pobre que andava sempre com uma Bíblia grande debaixo do braço. Dizem que nunca se separava dela. As pessoas que a viam passar todos os dias, faziam chacota dela com dizeres do género: «Porquê sempre a Bíblia, se há tantos livros para ler?». Mas a mulher lá seguia o seu caminho, imperturbável e indiferente às provocações. Um dia, porém, a mulher da Bíblia viu-se cercada por um bando de escarnecedores. Então, levantando bem alto a sua Bíblia, a mulher, abrindo um grande sorriso, disse: «Eu bem sei que há muitos outros livros que posso ler! Mas este é o único livro que me lê a mim!».


Nenhum arrogante raciocínio, nenhum orgulho, conduz a Deus. Nenhuma arrogância conduz a Deus. Jesus, Mestre novo, não aponta para coisas nem ensina coisas. Ele diz: «Vinde a Mim» e «aprendei de Mim» (Mateus 11,28 e 29). Com Jesus. Como Jesus. Ele não ensina coisas. Dá-se a si mesmo. Aprendeu do Pai, que tudo lhe deu (Mateus 11,27). Dar e receber. Jugo suave e carga leve (Mateus 11,30). Como os missionários do Evangelho, que devem partir sempre sem ouro, nem prata, nem cobre, nem saco, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bastão, dando de graça o que de graça receberam (Mateus 10,8-9). Nenhum acessório nos faz falta. Nenhuma estratégia dá certo. Basta-nos Cristo no coração, e a vida, sim, a nossa vida, para dar.

 

António Couto (Texto adaptado, alterado e revisto de responsabilidade nossa)

 

Três apelos de Jesus

 

O evangelho de Mateus recolheu três apelos de Jesus que os seus seguidores devem escutar com atenção, pois podem transformar o clima de desânimo, cansaço e tédio que, às vezes, se respira em alguns sectores das nossas comunidades.


Vinde a mim todos os que estais cansados ​​e sobrecarregados. Eu vos aliviarei”. Este é o primeiro apelo. É dirigido a todos aqueles que vivem a sua religião como uma carga pesada. Não são poucos os cristãos que vivem sobrecarregados pela sua consciência. Não são grandes pecadores. Simplesmente, foram educados para ter sempre presente o seu pecado e não conhecem a alegria do perdão contínuo de Deus. Se se encontrarem com Jesus, sentir-se-ão aliviados.


Há, também, cristãos cansados de viver a sua religião como uma tradição desgastada. Se se encontrarem com Jesus, aprenderão a viver confortavelmente com Deus. Descobrirão uma alegria interior que hoje não conhecem. Seguirão Jesus, não por obrigação, mas por atracção.


Tomai o meu jugo, porque é suportável e meu fardo é leve”. Este é o segundo apelo. Jesus não sobrecarrega ninguém. Ao contrário, liberta o que de melhor existe em nós, pois nos propõe viver tornando a vida mais humana, digna e saudável. Não é fácil encontrar um modo mais apaixonante de viver.


Jesus liberta dos medos e pressões, não os introduz; faz crescer a nossa liberdade, não as nossas servidões, desperta em nós a confiança, jamais a tristeza; atrai-nos para o amor, não para as leis e preceitos. Convida-nos a viver fazendo o bem.


Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso”. Este é o terceiro apelo. Temos de aprender de Jesus a viver como ele. Jesus não complica a nossa vida. Torna-a mais clara e simples, mais humilde e mais saudável. Oferece descanso. Ele não propõe, jamais, aos seus seguidores algo que não tenha vivido. Convida-nos a segui-lo pelo mesmo caminho que ele percorreu. Por isso, pode entender as nossas dificuldades e os nossos esforços, pode perdoar os nossos enganos e erros, incentivando-nos sempre a levantar-nos.


Devemos concentrar os nossos esforços em promover um contacto mais vital com Jesus em tantos homens e mulheres necessitados de ânimo, descanso e paz. Entristece-me ver que é, precisamente, o seu modo de entender e viver a religião aquilo que leva a não poucos, quase inevitavelmente, a não conhecer a experiência de confiar em Jesus.


Penso em muitas pessoas que, dentro e fora da Igreja, vivem "perdidas", sem saber em que porta bater. Sei que Jesus poderia ser uma grande notícia para elas.

 

José Antonio Pagola

 

Oração a Nossa Senhora

 

Santa Maria, Mãe de Deus, conservai em mim um coração de criança, puro e límpido como água da fonte. Dai-me um coração simples, que não se incline a saborear as próprias tristezas. Um coração magnânimo no doar-se, dócil à compaixão, um coração fiel e generoso que não esqueça nenhum bem, nem guarde rancor de nenhum mal. Criai em mim um coração doce e humilde, que ame sem exigir ser correspondido, contente em esconder-se noutros corações, sacrificando-se diante do Vosso Divino Filho. Um coração grande e indomável, que nenhuma ingratidão possa fechar e nenhuma indiferença possa cansar. Um coração atormentado pela glória de Cristo, ferido pelo Seu amor, com uma ferida que não possa ser cicatrizada senão no Céu. Amen (Pe. Léonce de Grandmaison, SJ).

 
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13º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A

2 de Julho de 2017

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 Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 10, 37-42)

 Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos: “ 37Quem amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem amar o filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim. 38Quem não tomar a sua cruz para me seguir, não é digno de mim. 39Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la.»

40«Quem vos recebe, a mim recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou. 41Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá recompensa de profeta; e quem recebe um justo, por ele ser justo, receberá recompensa de justo. 42E quem der de beber a um destes pequeninos, ainda que seja somente um copo de água fresca, por ser meu discípulo, em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa.» 

Contexto 

O texto de hoje é a conclusão do “discurso da missão”, o segundo dos cinco discursos de Jesus em Mateus, onde o evangelista recolhe diversos ensinamentos de Jesus sobre a missão e o discipulado.

Na época em que Mateus escreve (± 80 d.C.), a Igreja continuava a expandir-se por todo o Império romano, mas este já tinha começado a reagir com crescente hostilidade, aumentando as perse­guições aos cristãos, sendo frequentes as denúncias de cristãos por parte de conhe­cidos ou de parentes próximos, quer judeus, quer pagãos. Perante isto, muitos cristãos ficavam perplexos e desorien­tados, pergun­tando-se se valeria a pena “remar contra a maré”, mantendo a fé e dando testemunho de Jesus com risco da própria vida.

Mateus reúne então estes ensinamentos de Jesus, a fim de reanimar a fé e revitalizar a opção missionária da Igreja. A missão dos discí­pulos é anunciar o Evangelho, percorrendo o mesmo caminho de Jesus. Apresenta, nesse sentido, um conjunto de valores e atitudes que se destinam a orientar os cristãos no seu relacionamento com as pessoas com quem entram em contacto ou a quem se dirigem. 

Breve comentário 

O presente texto divide-se em duas partes. Na primeira (vv. 37-39), Jesus apresenta um conjunto de exigências radicais para quem O quiser seguir; na segunda (vv. 40-42), sugere que toda a comuni­dade deve testemunhar Jesus, mostrando a recompensa prometida aos que acolhem os seus enviados.

vv. 37-38 (cf. Lc 14,26s). O seguimento de Jesus não é um caminho fácil e consensual, enaltecido pelo mundo, recompensado com afe­tos, incentivado por aplausos, onde a pessoa, em vez de buscar a Deus, se buscaria a si mesma. É antes um caminho radical, que não raro obriga a opções exigentes e ruturas dolorosas, a fim de renas­cer para a verdadeira caridade. Quando se trata de escolher entre Jesus e outros valores, qual é a opção do cristão? Jesus não admite “meias-tintas”: a pri­meira lealdade, não é com os próprios afetos e amiza­des, mas com Ele, por amor e para amar mais (cf. 19,29).

Na época de Jesus a família era a estrutura social fundamental: considerava-se um só corpo, que amparava e dava sentido à vida dos seus membros, garantindo a sua segurança, trabalho, inserção social e mesmo, no caso dos hebreus, as próprias bênçãos divinas. O pri­meiro dever sagrado no judaísmo para com o próximo era, por isso, o amor aos pais (15,4; 19,19; cf. Ex 20,10; Dt 5,16), razão pela qual os rabis judaicos prescreviam aos seus discípulos (hebr. talmidim) o dever de lhes obedecer como a um pai. Jesus, ao invés, exige dos seus discípulos ser Ele o primeiro, a fonte primordial e a refe­rência fundamental da sua vida. Esta é uma exigência que só Deus pode fazer (cf. Gn 22,2). Se a alternativa for, pois, não a de cumprir o próprio dever, mas a de escolher entre Ele e a família, a escolha do discípulo deve recair sempre sobre Jesus. O discípulo tem então necessariamente que cortar as relações com a própria família para seguir Jesus? Não, nem sempre. No entanto, não pode deixar que a família ou outros afetos o impeçam de responder com fidelidade aos apelos do Reino, pondo-O em primeiro lugar.

vv. 38-39 (cf. 16,24-25). Se a alternativa for a de escolher entre Jesus e as segu­ranças pessoais ou a própria vida, a escolha deve ser sempre a de tomar a “sua cruz” (as contrariedades, dificuldades, incompreen­sões, críticas, limites, enfermidades), isto é, o que não estava planeado ou não se pôde escolher e faz sofrer. Porém, Jesus não diz que há que levar a cruz só, mas com Ele, escutando a sua voz. Quem adere a Jesus para assegurar a própria realização pessoal, vida afetiva, familiar, profissional, ou procurar fazê-lo, preservando a todo o custo o que alcançou ou aquilo com que sonhava, acabará por perder a verdadeira vida, mas quem estiver disposto a tudo perder por causa de Cristo, há-de encontrar a verdadeira vida (Mc 8,35; Lc 17,33; Jo 12,25; cf. Est 4,14.16).

Na segunda parte do texto (vv. 40-42), Jesus mostra a recompensa prometida aos que acolhem os mensageiros do Evangelho. Mateus refere quatro grupos de pessoas que integram a comunidade e têm a responsabilidade do testemunho: os apóstolos (v. 40), os pro­fetas, os justos (v. 41) e os pequeninos (v. 42).

v. 40. Os apóstolos são as primeiras testemunhas de Jesus, que levam o Evangelho a toda a parte: quem os recebe, recebe Jesus (cf. 18,5 p; Lc 10,16; Gl 4,14; 3 Jo 8). E quem acolhe o seu anún­cio, aderindo pela fé a Jesus, recebe o próprio Deus (cf. Jo 12,44; 13,20), em cuja vida divina Jesus, pelo seu Espírito, o introduz.

v. 41. Os profetas são os portadores da Palavra de Deus (itinerantes ou não: cf. Didaké 13) que, impelidos pelo Espírito, interpelam as pessoas e as comu­ni­dades e as ajudam a viver de acordo com o Evan­gelho, segundo a vontade de Deus. Os justos são os cristãos que procuram viver, no seu dia-a-dia, a própria fé: quem os acolhe, receberá a sua própria recompensa (cf. 1Rs 17,9-24; 2 Rs 4,1-37).

v. 42. Os pequeninos (gr. micrói, Mt, 6x: 11,11; 13,32; 18,6.10.14) são os fracos na fé e aqueles que não gozam de direitos: os discí­pulos que ainda não fazem parte de forma plena da comunidade, por se prepararem para o batismo (os catecúmenos); os estrangeiros; os necessitados e socialmente desprotegidos (escra­vos, órfãos, viúvas, prisioneiros, doentes); as crianças e os simples que não têm grande formação cristã: quem os acolher e tratar com amor por causa de Cristo não perderá a sua recompensa (cf. 25,40; Mc 9,41).

A tarefa de anunciar o Evangelho diz, pois, respeito a todos os cristãos, chamados a ser “discípulos missionários”, que dele dão testemunho a todos, não só por palavras, mas também por obras, dando a sua vida por amor aos irmãos ao serviço do Reino. Por isso devem ser acolhidos com alegria, fé, generosidade e amor, não só pelos de fora, mas também pelos da própria Igreja e comunidade. 

Fr. Pedro Bravo, O. Carm. 

Palavra para o caminho 

Jesus defendeu com firmeza a instituição familiar e a estabilidade do matrimónio. E criticou duramente os filhos que se desentendem com os seus pais. Mas a família não é para Jesus algo absoluto e intocável. Não é um ídolo. Há algo que está acima e é anterior: o reino de Deus e a Sua justiça.

 
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