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Regra Carmelita
Epílogo (n.º 24) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

A Regra do Carmo

- Epílogo (n.º 24) -

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24. É isso que, com brevidade, lhes escrevemos com o intento de estabelecer para vocês a forma de conduta, segundo a qual deverão viver. Se alguém fizer mais do que o prescrito, o Senhor mesmo lhe retribuirá quando voltar. Use, porém, de discrição, que é a moderadora das virtudes.

Um pouco de história: a sabedoria do Patriarca Alberto

Alberto, pessoa de confiança do Papa, foi convidado para a difícil missão de Patriarca de Jerusalém. Ele exerceu esta função de 1206 a 1214. O século XIII era uma época de mudanças. A Palestina era um lugar de muitos e graves conflitos. Os muçulmanos estavam voltando a ocupar a Terra Santa. Jerusalém já tinha caído nas mãos deles. A Palestina já não era um lugar seguro. Mesmo assim, os peregrinos acorriam para lá. Entre eles estavam os que iam morar no Monte Carmelo para formar o grupo dos primeiros carmelitas.

Chegando na Palestina em 1206, Alberto não pôde fixar residência em Jerusalém, na sede, pois a Cidade Santa já estava nas mãos dos muçulmanos. Ele teve que governar o patriarcado desde a cidade de Akko que fica um pouco ao norte do Monte Carmelo. Foi lá que o grupo de eremitas do Monte Carmelo foi encontrá-lo para pedir a aprovação para a sua maneira de viver o evangelho.

Alberto era um homem sábio, homem de Igreja, preocupado com a renovação da Vida Religiosa. Já tinha escrito várias Regras para outros grupos religiosos da época. Sua preocupação era fazer com que a Vida Religiosa não ficasse confinada nos grandes mosteiros distantes do povo, mas se renovasse e fosse, novamente, um testemunho vivo do evangelho de Jesus Cristo, sobretudo para os pobres, os “menores”. O grupo que, naquele tempo, mais se aproximava dos pobres era o grupo dos mendicantes. Entre eles estavam os franciscanos e os dominicanos.

A sabedoria de Alberto se manifesta sobretudo no jeito todo especial com que orientou a vida dos carmelitas e organizou o conteúdo da Regra. Sem impor aos eremitas do Carmelo uma vida itinerante igual à dos mendicantes, Alberto acentuou alguns pontos que caracterizavam a vida dos mendicantes: ter um prior e não um abade (RC 4), fazer revisão semanal (RC 15), comunhão de bens e não ter propriedade (RC 12 e 13). Além disso, naquelas poucas páginas, ele soube reunir toda a riqueza da Tradição eremítica e monástica. Assim, através da vida observante dos carmelitas, esta riqueza dos séculos seria colocada ao serviço do povo de Deus e da Igreja que se renovava. Pois é através da sua observância que a Regra revela todo o seu valor.

Alberto quer e pede esta observância, mas observância equilibrada, sem exageros. A sua última recomendação é esta: Caso alguém fizer algo mais do que o prescrito, o Senhor lhe retribuirá, quando do seu regresso. Use, porém, de descrição, que é a moderadora das virtudes. Vejamos de perto, parte por parte, este epílogo da Regra.

Breve comentário do epílogo

É isso que, com brevidade, lhes escrevemos com o intento de estabelecer para vocês a forma de conduta, segundo a qual deverão viver

Alberto não teve a intenção de escrever uma Regra propriamente dita, mas apenas, como ele mesmo diz, uma forma de vida. O seu texto nasceu de uma proposta que os primeiros carmelitas lhe tinham feito (RC 3). Deste rascunho dos frades Alberto tirou o assunto para escrever a forma de vida que só 40 anos depois foi aprovada como Regra da Ordem do Carmo. O texto cresceu com o grupo que nele se inspirava e se espelhava. As adaptações e mudanças introduzidas refletem as adaptações e mudanças pelas quais passou o grupo dos primeiros carmelitas até chegarem a constituir-se como Ordem organi­zada, reconhecida e aprovada pela Igreja. Os 40 anos refletem o crescimento da identidade do grupo dos primeiros carmelitas e a maneira como a Regra foi relida à luz dos “menores”. Refletem a preocupação do grupo fundador em ser fiel à sua origem. Esta fidelidade os levou a aceitar o novo tipo de de Vida Religiosa dos mendicantes.

Caso alguém fizer algo mais do que o prescrito

Na forma de vida, Alberto colocou tudo aquilo que ele considerava importante para a vivência do evan­gelho pelo grupo dos primeiros carmelitas. E agora no fim, depois de ter enumerado todos os conselhos e normas, ele trata da seguinte possibilidade: caso alguém fizer algo mais do que o prescrito. A pergunta que surge para nós é esta: Em que consiste este algo mais do que o prescrito? É possível imaginar algo na linha da vivência do ideal do Carmelo que não seja previsto nem considerado dentro da Regra? Kees Waaijman aponta três possíveis interpretações:

Uma primeira possibilidade: Trata-se de algo mais no nível quantitativo: rezar mais, meditar mais, silenciar mais, etc. Mas isto não pode ser o sentido entendido por Alberto. Pois no nível quantitativo não é possível imaginar algo mais do que o prescrito. A própria Regra já pede o nível máximo. O prescrito é meditar dia e noite; estar sempre ocupado em algum trabalho; praticar sempre o silêncio. Mais do que sempre e mais do que dia e noite não é possível!

Uma segunda possibilidade: Trata-se de algo mais no nível qualitativo: observar a Regra com mais amor, com maior intensidade e convicção, etc. Mas também neste nível não é possível imaginar algo mais do que o prescrito. A própria Regra já pede que tudo seja feito com amor perfeito: amar o Senhor de todo o coração, com toda a alma e com toda a força e o próximo como a si mesmo (RC 19). Qualquer coisa que alguém pretenda fazer a mais na observância da Regra já está prevista e prescrita no amor perfeito. E em vários outros lugares o próprio Alberto insiste na intensidade: Devemos realizar a obediência na prática (operis veritate) (RC 4); devemos com todo cuidado revestir a armadura de Deus (RC 19); devemos observar diligentemente o silêncio (RC 21). Não é possível imaginar maior intensidade na observância. Não tem jeito de ser mais intensivo.

A terceira possibilidade: Alberto ao falar do algo mais do que o prescrito se refere a algo que não está prescrito; algo que não cai debaixo da norma de vida; algo que conduz o carmelita, a carmelita, para fora do terreno regulamentado pela norma de vida, fora das suas próprias fronteiras, fora de sua casa, fora do mundo que nos é familiar. E o que poderia ser então este algo mais que não cai debaixo da norma de vida? O próprio Alberto abre a janela evocando a parábola do Bom Samaritano que socorreu o homem que foi assaltado e largado meio morto à beira da estrada no deserto entre Jerusalém e Jericó. O algo mais do que o prescrito é o deserto da vida, onde ocorrem os assaltos contra a vida; onde corre o rio da vida, cujo leito não pode ser determinado pelas normas da Regra; onde ocorrem os fatos que não podem ser previstos; onde recebemos os pobres que, sem nós sabermos ou pedirmos, fazem opção pelo Carmelo.

O Senhor mesmo lhe retribuirá, quando voltar

O Samaritano estava de viagem. Tinha um rumo, uma norma de vida, uma Regra. Queria chegar a um lugar. Mas o pobre assaltado tirou-o da viagem prevista, desviou-o do rumo, e o fez passar para além do prescrito. Foi a visão do homem assaltado meio morto à beira da estrada, que acionou nele a misericórdia. A misericórdia significa ter o coração na miséria dos outros. É com-paixão: sofrer com o outro, a outra. O Samari­tano pára, chega perto, desce do animal, cuida da ferida, faz curativo, coloca o homem no seu animal, leva até à hospedaria, passa noite com ele e, no fim, envolve o dono da hospedaria dando dinheiro e dizendo: “Cuide dele, e o que gastares a mais, eu, quando do meu regresso te pagarei”.

Esta é a frase que ocorre na Regra: Caso alguém fizer mais do que o prescrito, o Senhor lhe retribuirá, quando do seu regresso. A misericórdia leva-nos para um terreno, onde se ultrapassa a categoria de Norma e de Regra. Ela nos leva para fora de nós mesmos, fora da nossa segurança, fora do que podemos prever e resolver. Ela nos desestabiliza. A única segurança da misericórdia é ela mesma. Ela é uma desestabilização que estabiliza; uma desregulamentação que regulamenta; uma viagem para fora de nós que nos conduz para casa; uma forma de perder a vida que garante a vida. Através do pobre, o samaritano envolveu o dono da hospedaria. Através dos pobres que despeja na nossa hospedaria, Deus nos envolve e provoca em nós a misericórdia, a compaixão, o amor. E é para este algo mais do que o prescrito que vale a frase final sobre a discrição. No fundo, a Regra aponta para o amor que anima a misericórdia por dentro.

Use, porém, de discrição, que é a moderadora das virtudes

Será que o amor necessita de uma moderadora? A Regra diz que a moderadora da misericórdia, do amor, deve ser a discrição. O que ela entende por discrição, por uma pessoa discreta?  Quando se diz: “Fulana é uma pessoa discreta”, se entende uma pessoa reservada, uma pessoa que sabe a medida certa, uma pessoa sábia. Quando a Regra diz que o amor precisa de moderadora, não o diz no sentido de que o amor deve ser domado e reprimido no seu ímpeto, mas no sentido de que o amor deve crescer até adquirir a sabedoria. A sabedoria que nasce do amor é a moderadora, o guia de todas as virtudes.

Alberto não quer que a Regra seja uma norma exterior, mas sim uma norma que faz crescer algo dentro da pessoa, faz crescer o amor. “Viver em obséquio de Jesus Cristo” não é só eu copiar em mim o que Jesus fez, mas é também e sobretudo eu deixar que Jesus, ele mesmo, cresça em mim, tome conta da minha vida e vá ocupando todo o espaço. Ele é o caminho, a verdade e a vida, a porta, o pastor, a videira, o pão, a ressurreição. Cada um, cada uma, deve deixar que esta vida possa crescer dentro de si. O importante é manter o rumo e o discernimento, para que a fé, a esperança e o amor possam penetrar tudo. Esta é a sabedoria do amor que, a partir de dentro, é moderadora de si mesma.

Um aspecto importante da espiritualidade carmelitana: "...., se for possível!"

Convém dar uma atenção especial à ressalva que ocorre no capítulo final da Regra: Use, porém, de discrição, que é a moderadora das virtudes. A Regra do Carmo está cheia de ressalvas assim. Eis a lista completa:

  • RC 4: A escolha do prior deve ser feita através do consenso unânime  ou da parte mais nume­rosa e madura.
  • RC 5: Vocês podem ter lugares de moradia em localidades desertas  ou onde lhes forem doados.
  • RC 6: Cada um tenha a sua cela separada conforme a disposição do prior com o consentimento dos outros irmãos ou da parte mais numerosa e madura.
  • RC 7: Vocês devem ter um refeitório comum com leitura da Bíblia, onde comodamente puder ser observado.
  • RC 10: Vocês devem permanecer na cela, a não ser que devam ocupar-se em outros justifi­cados afazeres.
  • RC 11: Os que sabem dizer as horas canônicas devem rezar o ofício, os que não sabem...
  • RC 12: Tudo é em comum e deve ser distribuído pelo responsável indicado pelo prior, levando-se em conta a idade e as necessidades das pessoas.
  • RC 13: Vocês não podem ter nada de próprio, mas na medida das necessidades podem ter jumentos e galinhas.
  • RC 14: A capela deve ser construída no meio das celas, conforme for mais fácil.
  • RC 14: Nela devem reunir-se todas as manhãs para a missa, onde isso puder ser feito comodamente.
  • RC 15: Vocês devem reunir-se nos domingos, ou em outros dias, caso for necessário, para tratar do andamento do conjunto e do bem-estar de cada um.
  • RC 16: Vocês devem fazer jejum todos os dias, com exceção dos domingos, a não ser que doença, fraqueza física ou outro justo motivo aconselhem a dispensar o jejum, pois a necessi­dade não tem lei.
  • RC 17: Vocês devem abster-se de carne, a não ser que deva ser tomada como remédio para doença ou fraqueza física.
  • RC 24: Esta é a norma que estabelecemos. Quem quiser fazer mais do que o prescrito, que o Senhor lhe retribua. Use, porém, de discrição, que é a moderadora das virtudes.

A Regra insiste no essencial e dele não abre mão, mas relativiza quase todas as outras normas que ela propõe como meios para alcançá-lo! Isto também faz parte da espiritualidade carmelitana! Em que sentido? Repetimos aqui o que dissemos anteriormente: o ideal é permanente e absoluto. A forma de realizá-lo é relativizada. Deste modo, a Regra impede que a pessoa busque a sua segurança diante de Deus na observância perfeita das normas, pois é exatamente destas normas que se diz: “Se for possível.....; se puder....; conforme for....”. Ou seja, a Regra aponta vários caminhos de se caminhar em direção ao ideal. Há varias maneiras de se realizá-lo. O ideal é muito simples e despretensioso, profundamente revolucionário e altamente com­prometedor com relação ao sistema da sociedade e da Igreja. Ora, é nesta perspectiva revolu­cionária da vivência do Evangelho que a Regra insiste e dela não abre mão nem a relativiza. Ela abre mão de pequenas coisas, mas não abre mão da inspiração fundamental: ser uma fraternidade orante e profética ao serviço do povo, dos “menores”. A Regra não abre mão do Absoluto que se concretiza nos seguintes pontos:

  • Seguimento de Jesus.
  • Oração pessoal e comunitária.
  • Fraternidade.
  • Resguardo da solidão.
  • Revisão semanal.
  • Comunhão de bens.
  • Vivência da ressurreição.
  • Luta sem trégua.
  • Trabalho .
  • Silêncio.

 Carlos Mesters, O. Carm.

 
Da Obediência dos Irmãos ao Prior (nº 23) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

A Regra do Carmo

- Da Obediência dos Irmãos ao Prior (n.º 23) -

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23. E vocês, os demais irmãos, tratem o seu prior com deferência e humildade, pensando, mais do que nele mesmo, em Cristo que o colocou acima de vocês, e que diz aos que estão à frente das igrejas: Quem ouve a vocês, é a mim que ouve; quem des­preza a vocês, é a mim que despreza, a fim de que vocês não sejam condenados como réus por menosprezo, mas possam merecer por obediência a recom­pensa da vida eterna.

Um pouco de história: sobre a Regra vista como uma carta dirigida aos irmãos

O número final da Regra (RC 23) começa assim: Vocês, os demais irmãos,.... Esta maneira de falar lembra, novamente, que a Regra é uma carta. Não é um livro escrito para um público anónimo, mas sim uma carta carinhosa, escrita para aquela comunidade dos primeiros carmelitas que viviam no Monte Carmelo e que tinham um relacionamento de amizade com Alberto.

Do começo ao fim da Regra, esse grupo dos nossos primeiros irmãos fundadores está presente na mente de Alberto orientando-o na escolha das palavras e na formulação das frases. Toda a Regra está formulada na segunda pessoa (Você  ou Vocês), que aflora, constantemente, em dezanove dos vinte e quatro números, e que reaparece agora no final: Vocês, os demais irmãos. Todos são chamados de irmãos. Alberto os acolhe na família.

A própria Regra é um exercício de fraternidade. Faz acontecer o que pretende realizar. Ao lerem a carta de Alberto o irmão B. e os demais irmãos se sentiam acolhidos. A Regra não se apresenta como uma lei que, de fora, se impõe exigindo submissão, mas sim como um convite de irmão que, de dentro, anima e orienta. Fazia crescer neles o sentimento e a experiência de fraternidade.

A Regra faz acontecer a fraternidade também pelo fato de evocar o modelo de comunidade tal como aparece nos Atos dos Apóstolos e que era o ideal da Igreja renovada daquela época. Ao lerem a Regra, os frades reencontravam nela o ideal de vida que os animava.

Os quatro critérios básicos de uma Comunidade

Como deve ser uma comunidade para que seja sinal de vida nova? O Novo Testamento traz vários modelos. Por exemplo, o Evangelho de Ma­teus traz uma proposta no discurso da Comunidade (Mt 18,1-35) e outra no Sermão da Montanha (Mt 5 a 7). Marcos des­creve um projeto de comunidade através de uma série de episódios que revelam o obje­tivo da Boa Nova na vida do povo (Mc 1,16-45). Lucas, por sua vez, propõe um modelo ao descrever a vida dos primeiros cristãos. Este último era o modelo mais conhecido, que orientou Alberto na formulação do ideal da vida carmelitana. É um modelo sustentado por quatro colunas: “Eles perseveravam no ensinamento dos apóstolos, na comunhão, na fração do pão e nas orações (At 2,42). Vamos ver de perto cada coluna.

1ª coluna:  O ensinamento dos apóstolos: novo quadro de referências da vida comunitária

Como Jesus, os primeiros cristãos tiveram a coragem de romper com o ensi­na­mento dos escribas, que eram os doutores da época, e seguem agora o ensinamento de doze pescadores sem instrução (At 4,13). O ensinamento dos apóstolos é a nova interpretação da vida e da Bíblia, que os apóstolos transmitem a partir da expe­riência que tiveram da ressurreição.

A nova liderança dos apóstolos não veio da tradição ou da raça, nem do poder ou da força, nem de al­gum curso ou diploma, mas dos sinais realizados por eles na comuni­dade (At 2,43; 4,33; 5,12.15-16), e das "ordens" dadas por Jesus ressuscitado: a Madalena, aos doze apósto­los, aos 120 discípulos, às mulheres, à multidão no Monte das Oliveiras (Mt 28,18-20; Mc 16,15; Lc 24,44-49; Jo 20,23; 21,17). No exercício desta autoridade, porém, os animadores eram questionados pela comunidade (Gl 2,11-14; At 11,3) e deviam prestar contas (At 11,4-18).

2ª coluna:
 A comunhão: novo ideal da vida comunitária

Os primeiros cristãos colocavam tudo em co­mum a ponto de não haver mais necessitados entre eles (At 2,44-45;4,32.34-35). As­sim, cumpriam a Lei de Deus que dizia: "Entre vocês não pode haver pobre!" (Dt 15, 4). A comunhão (koinonia) indicava a atitude de quem não se considerava dono do que possuía, mas tinha a coragem de partilhar seus bens com os outros (Rm 15,26; 2 Cor 9,13). Esta Comunhão era sagrada. Não podia ser profanada. Quem dela abusava em benefício próprio morria para a comunidade. É a lição do episódio de Ananias e Safira (At 5,1-11).

O ideal da comunhão era chegar a uma partilha não só dos bens, mas também dos senti­mentos e da experiência de vida, a ponto de todos se tornarem um só coração e uma só alma (At 4,32; 1,14; 2,46); chegar a uma convivência sem segredos (Jo 15,15) que supera as bar­reiras provenientes de religião, classe, sexo e raça (cf Gl 3,28; Cl 3,11; 1 Cor 12,13). Esta comunhão (koinonia), nascida do Pai (1Jo 1,3), do Filho (1 Cor 1,9), e do Espírito Santo (2 Cor 13,13; Fil 2,1), se traduz em comunhão fraterna com partilha de bens.

3ª coluna:  A fração do pão: nova fonte da vida comunitária

A expressão fração do pão vem das refeições judaicas, onde o pai partilhava o pão com os filhos e com aqueles que não tinham nada. A fração do pão lembra­va as muitas vezes que Jesus tinha partilhado o pão com os discípulos e entre os pobres (Jo 6,11). Lembrava o gesto de partilha que abriu os olhos dos discípulos para a presença viva de Jesus no meio da comunidade (Lc 24,30-35). Significava sobretudo o gesto supremo do "amor até o fim" (Jo 13,1), a eucaristia, "a comunhão com o sangue e o corpo de Cristo" (1 Cor 10,16), a Páscoa do Senhor (1 Cor 11, 23-27), a memória da sua morte e ressurreição (1 Cor 11,26) que garante a vida aos que doam a vida pelos outros. A fração do pão era feita nas casas e não na majestade do templo (At 2,46; 20,7); era o lugar da liturgia "em Espírito e Verdade" (Jo 4,23). Muitas vezes, porém, a rea­lidade ficava abaixo do ideal. Paulo critica os abusos que ocorriam na comunidade de Corinto (1 Cor 11,18-22.29-34).

4ª coluna:  As Orações e a Palavra: novo ambiente da vida comunitária

Os apóstolos tinham uma dupla tarefa: “per­manecer assíduos à Oração e ao ministério da Palavra” (At 6,4). Através da Oração, os cris­tãos permaneciam unidos entre si e a Deus (At 5,12b), e se fortaleciam na hora das per­segui­ções (At 4,23-31). Apesar de seguirem uma doutrina diferente da tradicional, não rompiam com os costumes da piedade do povo, mas continuavam frequentando o Templo (At 2,46). Era lá que o povo ex­primia e vivia sua fé, e ia para rezar. Eles eram conhecidos como o grupo que se reunia no pórtico de Salomão (At 5,12). Tinham a simpatia do povo (At 2,47).

A Palavra, a Bíblia, era o livro de cabeceira, a gramática para poder ler e entender o que Deus estava falando pelos fatos da vida; a luz que os iluminava no cami­nho. Quando perseguidos, reliam o Antigo Testamento (At 4,27-31). Faziam como Jesus que, pela oração, enfrentava a tentação (Mc 14,32). Deste modo, provoca­vam um novo Pentecostes (At 4,31). A Bíblia era não só luz, mas também fonte de força.

Conclusão final: Fraternidade orante e profética no meio do povo

Nos resumos da espiritualidade carmelitana, sempre aparecem estas três palavras chaves: contemplação, fraternidade e profecia. Outra maneira para dizer a mesma coisa é fraternidade orante e profética no meio do povo. Fraternidade é o grande desafio de hoje: saber criar comunhão entre pessoas diferentes. Nos dois números finais, a Regra insiste na maturidade da vida fraterna e na dimensão de fé com que deve ser vivido o relacionamento prior-súdito e súdito-prior. A Regra coloca o exercício do poder na sua dimensão profética. A vida fraterna proposta pela Regra do Carmo não subsiste pela força da autoridade, mas pelo compromisso de cada um. É vida frágil, por isso é forte. É o sangue da Regra que ajuda a fazer crescer o Homem Interior, o Homem Novo. Ajuda a viver em obséquio de Jesus, na fraternidade orante e profética, junto dos "menores".

Resumindo: Conforme a Regra, a fraternidade carmelitana deve ser uma fraternidade que luta (RC 18-19), que trabalha (RC 20) e que silencia (RC 21). Fazendo isto, ela deixa aflorar a força do silêncio de Deus. Essa força aflora através da oração pessoal (RC 10), através da oração comunitária (RC 11), através da opção pelos pobres (RC 12-13), através da Eucaristia diária (RC 14), e através da revisão semanal e a correção fraterna (RC 15). Vivendo assim, cria-se um relacionamento maduro entre prior e súdito (RC 22) e entre súdito e prior (RC 23) que irradia a Boa Nova. A fraternidade assim vivida torna-se uma Boa Nova de Deus sobretudo para os pobres.

Agora no fim, retomamos a chave de leitura da Regra que foi apresentada no início:

I. Prólogo (RC 1-3)

RC 1: Saudação e Bênção. 
RC 2: O rumo da vida de todos: viver em obséquio de Jesus Cristo. 
RC 3: O projeto comum, próprio dos carmelitas.

II. A infra-estrutura da vida comunitária (RC 4-9)

RC 4: O Prior e os Votos: assumir o projeto da Comunidade.
RC 5: O Lugar de Moradia: preservar o deserto interior.
RC 6: A Cela dos Frades: garantir o diálogo com Deus.
RC 7: A Refeição em comum: conviver em fraternidade.
RC 8: A Estabilidade no Lugar: assumir a forma de vida dos mendicantes.
RC 9: A Cela do Prior na entrada: acolher e encaminhar os visitantes.

III. Os pontos básicos do ideal da Vida Carmelitana (RC 10-15)


RC 10: Na cela: meditar dia e noite na lei do Senhor e vigiar em orações.
RC 11: Em comunidade: o Ofício Divino ou a reza do Pai Nosso.
RC 12: Na vida: opção do Carmelo pelos "menores" através da comunhão de bens. 
RC 13: No dia-a-dia: mitigação em vista das necessidades.
RC 14: Na capela: a memória de Jesus através da Eucaristia diária. 
RC 15: Compromisso de todos: revisão semanal e correção fraterna.

IV. Os meios para alcançar o ideal (RC 16-21)

RC 16: O jejum: santificar o tempo, desde a festa da Exaltação da Cruz até à Páscoa.
RC 17: A abstinência de carne: passar pelo nada para chegar ao tudo.
RC 18: A condição humana: fragilidade que pede resistência.
RC 19: A luta da vida e as armas espirituais: não desistir nunca.
RC 20: O trabalho: ocupar o tempo e providenciar o próprio sustento.
RC 21: A prática do silêncio: esvaziar-se para Deus e os irmãos.

V. Recomendações finais para uma convivência madura (RC 22-23)

RC 22: O prior como servidor dos irmãos. 
RC 23: O respeito dos irmãos para com o prior.

VI. Epílogo (RC 24)

RC 24: Discernimento, e opção dos pobres pelo Carmelo.
 

Carlos Mesters, O. Carm.

 
Do Prior como servidor dos Irmãos (nº 22) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

A Regra do Carmo

- Do Prior como servidor dos Irmãos (n.º 22) -

 22. Agora, você, irmão B., e quem quer que for indicado como prior depois de você, tenham sempre em mente e cumpram na prática o que o Senhor diz no Evan­gelho: Todo aquele que entre vocês quiser tornar-se o maior, seja o seu servidor, e quem quiser ser o primeiro, seja o seu empregado.

 Um pouco de história: resumindo o que já vimos na Regra sobre a função do Prior

 No começo da Regra, o Prior recebe atribuições que dizem respeito à organização da vida comunitária. Ele deve cuidar para que todos tenham as condições necessárias para poder viver o ideal do Carmelo, a saber:

  •  ele deve ser eleito por unanimidade ou pela maioria (RC 1);
  •  junto com os irmãos, decide sobre o lugar de moradia (RC 5);
  •  junto com os irmãos, cuida para que cada frade tenha a sua cela (RC 6);
  •  é ele que deve dar licença com relação à mudança de lugar de moradia (RC 8);
  • é ele que deve receber as pessoas na entrada do lugar de moradia e encaminhá-las (RC 9);
  • através de um dos irmãos por ele indicado, deve cuidar da distribuição dos bens conforme as necessidades e as idades das pessoas (RC 12)

Agora, no fim da Regra, todas estas atribuições recebem um sentido mais profundo. Elas devem ser vistas como um serviço, através do qual o Prior imita mais de perto a Jesus que disse: “Não vim para ser servido, mas para servir!” Diz a Regra: Agora, você, irmão B., e quem quer que for indicado como Prior depois de você, tenham sempre em mente e cumpram na prática o que o Senhor diz no Evan­gelho: Todo aquele que entre vocês quiser tornar-se o maior, seja o seu servidor, e quem quiser ser o primeiro, seja o seu empregado. O Prior recebe esta recomendação não só para que os outros possam realizar melhor o ideal de viver em obséquio de Jesus Cristo, mas aqui se indica também como ele, o Prior enquanto Prior, deve viver em obséquio de Jesus Cristo. Ele deve, por assim dizer, ser um outro Jesus servidor no meio dos irmãos. A sua função faz parte do ideal do Carmelo de viver em obséquio de Jesus Cristo.

Na Regra do Carmo, o superior não é um abade, não é visto como alguém que, pela sua doutrina e pelas suas exposições, ensina os outros como devem viver em obséquio de Jesus Cristo. É quase o contrário. Ele é visto como alguém que, na prática, pela sua maneira de servir, é um testemunho vivo de Jesus, um reflexo de Jesus para os irmãos. Como Jesus, o Prior deve ser a revelação do que Deus quer de nós. Ele deve fazer isto olhando, meditando e praticando as palavras e o exemplo de Jesus nos evangelhos. Deve ser um doutorado na vivência da Palavra, pois é na leitura orante da Palavra que a Regra mais insiste. Aqui não se trata do conhecimento ou do estudo da Palavra, mas sim da vivência.

Não são, em primeiro lugar, as qualidades que definem a função do Prior, mas sim a sua posição como representante de Jesus. Isto exige dos súditos um olhar de fé e de humildade (RC 21), e exige do próprio Prior um esforço maior na observância do ideal. Aceitar um "empregado" como messias foi um escândalo para Pedro. Aceitar como superior ou superiora um irmão ou uma irmã menos instruída, mas servidora, pode ser motivo de escândalo hoje. Como diz o canto, "eles queriam um grande rei que fosse forte e dominador, e por isso não creram nele".

Os números 4 a 9 da Regra tratam da infra-estrutura da vida comunitá­ria. Na organização desta infra-estrutura, o Prior tem um papel preponderante: coordenação (RC 4), escolha do lugar de moradia (RC 5), cela dos frades (RC 6), mudança de lugar de moradia (RC 8), acolhida das pessoas (RC 9). Nos números 10 a 15, onde se descreve o ideal da vida carmelitana, já não se fala do Prior, a não ser no capí­tulo sobre a distribuição dos bens (RC 12), pois a vivência do ideal é da responsabilidade de todos. A função do Prior é realmente um “serviço”. Ele deve dispor tudo de tal maneira, para que todos tenham as condições necessárias para poder levar uma vida de acordo com o ideal proposto nos números 10 a 15 da Regra. Para que ele possa realizar bem esta função, assim diz a Regra, o Prior deve ter diante de si o exemplo da pessoa de Jesus.

O lugar central que Jesus ocupa na Regra do Carmo 

No Prólogo (RC 1 a 3): “Viver em obséquio de Jesus Cristo”

O seguimento de Jesus define o objetivo e o rumo da vida no Carmelo. É o pano de fundo, contra o qual deve ser lido e interpretado tudo o que segue nos vinte e quatro números da Regra. Estes mostram o caminho que o carmelita e a carmelita devem seguir para poder “viver em obséquio de Jesus Cristo” e, assim, alcançar um “coração puro” e uma “consciência serena”. Falando ou não falando explicitamente de Jesus, a Regra é profundamente cristológica. A vivência do Seguimento de Jesus é o seu centro. A pessoa de Jesus é uma presença constante a comunicar uma mensagem bem atual. 

Na infra-estrutura da vida comunitária (RC 4 a 9): Garantir o espaço comunitário

Os números 4 a 9 da Regra não têm outro objetivo, a não ser criar e garantir o espaço comu­nitário que é necessário para o carmelita e a carmelita poderem realizar o Seguimento de Jesus. A vida em obséquio de Jesus que pretende limpar o coração e criar serenidade na consciência, só pode ser feita dentro do espaço de uma comunidade.

Na descrição do ideal (RC 10-15): Os elementos básicos do seguimento de Jesus 

Os números 10 a 15 da Regra estabelecem os elementos básicos dessa vida comunitária em obséquio de Jesus Cristo. Os carmelitas devem imitar a comunidade-modelo dos primeiros cristãos, tal como é descrita nos Atos dos Apóstolos. A vida em obséquio de Jesus tem um ritmo diário, semanal e anual. Diário, porque diariamente eles devem celebrar a Eucaristia, rezar o ofício e meditar a lei do Senhor. Semanal, porque uma vez por semana devem fazer revisão de vida e verificar se estão vivendo realmente em obséquio de Jesus. Anual, porque, durante o ano, acompanham as festas que celebram a vida de Jesus, desde o nascimento (Natal) até à paixão, morte e ressurreição na Páscoa.

Nos meios para realizar o ideal (RC 16-23): Os textos sobre Jesus e o seu alcance para a vida

  • RC 16: Recomenda o jejum desde o dia da Exaltação da Cruz até o dia da Res­surreição do Senhor. Santificar o tempo - Pede uma atenção contínua ao mistério da pessoa de Jesus durante o ano inteiro.
  • RC 18: Os que querem viver piedosamente em Cristo padecem perseguição - As noites escuras da vida devem ser as­sumidas na fé em Jesus. 
  • RC 19: O capacete da salvação deve ser co­locado na cabeça, para que esperem a salvação unicamente do Salva­dor - Jesus é o Salvador, o único que nos pode salvar. Não há outro!
  • RC 20: Lembra que o Senhor Jesus falava pela boca de São Paulo - Jesus chega até nós através dos outros.
  • RC 20: Pede, em nome de Senhor Jesus Cristo, que trabalhem em silên­cio - Em nome de Jesus evitar fofocas e tra­balhar para o próprio sustento.
  • RC 21: Recomenda a prática do silêncio, lembrando a palavra de Jesus so­bre o Juízo final -  Caminho para a justiça. Evitando o falató­rio abre-se o caminho para que o silêncio de Deus nos possa invadir e gerar em nós a justiça.
  • RC 22: Lembra ao superior que ele deve imitar Jesus como servidor - Vivendo para servir, o Prior se torna uma presença viva de Jesus na comu­nidade.
  • RC 23: Lembra aos súditos de ver a Jesus na pessoa do superior - Aprendendo a ver Jesus no Prior, apren­de-se a vê-lo nos irmãos. 

No epílogo (RC 24): Abrir-se para a misericórdia 

A quem fizer mais do que o prescrito, a Regra diz que o Senhor, na sua volta lhe pagará. Aqui no epílogo, a Regra evoca a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,35) e abre o horizonte para a misericórdia, cujo único limite é a prática do amor.

Coordenar a obediência dos irmãos - Usar o poder como serviço aos irmãos 

A função do Prior dá ao irmão “que for indicado como Prior” depois de B. a missão e a oportunidade única de re-presentar (tornar presente de novo) a Jesus como servidor dos irmãos. Jesus definiu sua vida como serviço: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate para muitos!” (Mt 20,28; Mc 10,45). A imagem do Messias como servidor e não como figura poderosa vem de Isaías que, na época do cativeiro, apresentava ao povo o modelo do Servo de Javé (Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-9; 52,13-53,12; 62,1-3). Jesus encontrou no Servo de Javé de Isaías a inspiração e o modelo para realizar a sua missão como messias. Foi assim que ele se apresentou na sinagoga de Nazaré (Is 62,1-3 e Lc 4,16-21).

Esta profecia nasceu da frustração e da decepção sofridas com o desmando dos reis que, em vez de servir o povo, o dominavam e o exploravam. O Reino de Deus, imaginado por Isaías para o futuro, não vem como domínio mas como serviço. O povo de Deus é chamado a anunciar a Boa Nova não pela força, mas pelo serviço. Esta espiritualidade do serviço animava a renovação que vinha da base entre os pobres, os anawim. Foi assim que Maria definiu a sua atitude diante da palavra de Deus: “Eis aqui a serva do Senhor!”

É isto que a Regra pede do Prior. Na sua maneira de viver em obséquio de Jesus Cristo ele deve acentuar, tanto na mente como na prática, esta dimensão do serviço. Deve, não tanto ensinar, mas sim viver o que Jesus falou no evangelho: “Todo aquele que quiser ser o maior entre vocês, seja o seu servidor, e todo aquele que quiser ser o primeiro, seja o seu empre­gado. Esta maneira de exercer o poder é sumamente atual para hoje.

Carlos Mesters, O. Carm.

 
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A Regra do Carmo

- Do silêncio profético e do controle da língua (3) (n.º 21) -

- Silêncio: esvaziar-se para Deus. No silêncio de Nazaré, a palavra se encarnou no seio de Maria-

21. O apóstolo recomenda o silêncio, quando manda que é nele que se deve trabalhar. E como afirma o profeta: a justiça é cultivada pelo silêncio. E ainda: no silêncio e na esperança estará a força de vocês.

Por isso, determinamos que, depois da recitação das completas, guardem o silêncio até depois da Hora Primeira do dia seguinte. Fora desse tempo, embora a observância do silêncio não seja tão rigorosa, com tanto mais cuidado abstenham-se do muito falar, porque, conforme está escrito e não menos ensina a experiência: No muito falar não faltará o pecado; e: Quem fala sem refletir sentirá um mal-estar; e ainda: Quem fala em demasia prejudica a sua alma; e o Senhor no Evangelho: De toda palavra inútil que os homens disserem, dela terão que prestar conta no dia do juízo.

Portanto, cada um faça uma balança para as suas palavras e rédeas curtas para a sua boca, para que, de repente, não tropece e caia por causa da sua língua, numa queda sem cura que conduz à morte. Que, como diz o profeta, cada um vigie sua conduta para não pecar com a língua, e se empenhe, com diligência e prudência, em observar o silêncio pelo qual se cultiva a justiça.

Um pouco de história: Os motivos do silêncio invocados pela Regra, pelas religiões e pelo bom senso

Na Regra o silêncio é uma arma a mais a ser usada na luta espiritual. E é uma das armas mais importantes. Pois, dentro do conjunto da Regra, o capítulo sobre o silêncio (Rc 21) é o ponto de chega­da após as longas recomendações sobre a luta (Rc 18-19) e o trabalho (Rc 20). É o topo do Monte Carmelo, onde se chega após longa e dolorosa subida. É através do silêncio que todos os valores da vida carmelitana, aos poucos, vão sendo assimilados e encarnados na vida.

Todas as religiões, de uma ou de outra forma, recomendam a prática do silêncio como condição neces­sária para o encontro do ser humano com Deus. O silêncio é importante, não só para o nosso relacionamento com Deus, mas também para o relacionamento com o próximo, connosco mesmos, com a natureza e com as coisas. É importante, inclusive, para a saúde mental e corporal das pessoas.

Silêncio é muito mais do que ausência de barulho. É o espaço onde se refaz a síntese final, onde a pessoa se possui a si mesma, onde ela conversa com Deus, onde ela se prepara para poder falar e con­versar com os outros. Sem silêncio não há conversa, nem com o irmão e a irmã, nem com Deus. Pois a condição para a conversa verdadeira é saber escutar o outro. Palavras verdadeiras nascem é do silêncio.

Silêncio é saber escutar. É fazer a outra pessoa sentir que, no momento da conversa, ela, e só ela, é o absoluto diante do qual tudo o resto é relativo. Isto exige uma ascese muito grande. Sobretudo, saber escutar as pessoas que sempre foram silenciadas, os pobres, tanto na sociedade como na Igreja. Resumindo:

  • O silêncio favorece a comunicação: fazer silêncio para aprender a escutar. Fazer silenciar tudo para dar atenção ao outro, ao pobre, ao povo, a Deus.
  • O silêncio é o caminho para a maturidade. Evita a superficialidade, pois exige o recolhimento e concentração das forças da gente.
  • O domínio da língua é condição para o domínio da mente e para a consciência crítica que nos revela as situações de morte que ameaçam a vida.
  • O silêncio deve ter uma expressão concreta e comunitária, para que lembre a todos que o objetivo da vida fraterna é a busca de Deus e do irmão.
  • O silêncio é como a solidão e a cela: não vale em primeiro lugar pelo não falar, mas pelo silêncio interior que por ele deve ser gerado.

Maria, a Virgem do silêncio

De Maria se fala pouco na Bíblia, e ela mesma fala menos ainda. Os textos da Bíblia sobre Maria são todos dos evangelhos, menos três (Gl 4,4; At 1,13; Ap 12,1-17). Segue aqui uma chave de leitura para os textos dos três evangelhos que falam sobre Maria: Mateus, Lucas e João.

Chave de leitura para os textos do evangelho de Mateus sobre Maria

Nos textos do evangelho de Mateus, em que Maria é mencionada, tudo é centrado em torno da pessoa de José. Maria aparece como a esposa de José. Ela mesma não fala.

Na genealogia de Jesus, Maria aparece silenciosa em companhia de quatro outras mulheres. Esta Companhia de Maria merece uma atenção especial. São Tamar, Raab, Betsabea e Rute.

  • Tamar, uma cananeia, viúva, se vestiu de prostituta para obrigar o patriarca Judá a ser fiel à lei e dar-lhe um filho (Gn 38,1-30).
  • Raab, uma cananeia, prostituta de Jericó, fez aliança com os israelitas. Ajudou-os a entrar na Terra Prometida e professou a fé no Deus libertador do Êxodo (Js 2,1-21).
  • Betsabea, uma hitita, mulher de Urias, foi seduzida, violentada e engravidada pelo rei Davi, que, além disso, mandou matar o marido dela (2 Sm 11,1-27).
  • Rute, uma moabita, viúva pobre, optou por ficar do lado de Noemi e aderiu ao Povo de Deus (Rt 1,16-18).

As quatro mulheres são estrangeiras e irregulares. Não agem nem vivem dentro dos padrões da lei. Mesmo assim, suas iniciativas pouco convencionais deram continuidade à linhagem de Je­sus e trouxeram a salvação de Deus para todo o povo. Foi através delas que Deus realizou o seu plano de salvação e nos enviou o Messias prometido.

Uma irregularidade semelhante existe em Maria. A sua gravidez acontece antes de ela conviver com José. Se José tivesse agido conforme as exigências das leis da época, deveria ter denunciado Maria, e ela poderia ser apedrejada. Mas José, por ser justo, não obedeceu às exigências das leis da pureza. A justiça de José era maior e levou-o a defender a vida tanto de Maria como de Jesus. Mais tarde, Jesus irá dizer: "Se a justiça de vocês não for maior que a dos escribas e fariseus, não poderão entrar no Reino do céu" (Mt 5,20).

Chave de leitura para os textos do evangelho de Lucas sobre Maria

É no evangelho de Lucas que Maria aparece mais. Mesmo assim, ela fala pouco. Ao todo, quatro vezes. Ela fala duas frases com o anjo Gabriel. Com Isabel ela canta, usando os salmos. Com Jesus no Templo de Jerusalém, ela expressa a sua angústia e não chega a entender a resposta dele. Maria costuma ruminar os fatos e assim vai descobrindo o apelo de Deus que existe dentro dos fatos (Lc 2,19.51). 

Lucas, quando fala de Maria, pensa nas comunidades. Ele apresenta Maria como modelo para a vida das comunidades. É na maneira de Maria relacionar-se com a Palavra de Deus que Lucas vê a maneira mais correta para a comunidade relacionar-se com a Palavra de Deus: acolhê-la, encarná-la, vivê-la, aprofundá-la, ruminá-la, fazê-la nascer e crescer, deixar-se moldar por ela, mesmo quando não a entendemos ou quando ela nos faz sofrer. Maria nos orienta na escuta e no uso da Palavra de Deus.

Chave de leitura para os textos do evangelho de João sobre Maria

A Mãe de Jesus aparece duas vezes no evangelho de João: no começo, nas bodas de Caná (Jo 2,1-5), e no fim, ao pé da Cruz (Jo 19,25-27), e pronuncia apenas duas frases: "Eles não têm mais vinho!" (Jo 2,3) e: "Fazei tudo o que ele vos disser!" (Jo 2,5). Nos dois casos, em Caná e ao pé da Cruz, Maria representa o Antigo Testamento que aguarda a chegada do Novo e, nos dois casos, ela contribui para que o Novo chegue. Maria é o elo entre o que havia antes e o que virá depois.

Em Caná, é ela, a mãe de Jesus, símbolo do Antigo Testamento, que percebe os limites do Antigo: "Eles não têm mais vinho!" E é ela que dá os passos para que o Novo possa chegar, dando o grande conselho: "Fazei tudo que ele vos disser!" Na hora da morte, é novamente Maria, a Mãe de Jesus, que acolhe o "Discípulo Amado". O Discípulo Amado é a Comunidade do Novo Testamento que cresceu ao redor de Jesus. Ele é o filho que nasceu do Antigo Testamento. A pedido de Jesus, o Novo Testamento, recebe o Antigo Testamento, em sua casa. Os dois devem caminhar juntos. Pois o Novo não se entende sem o Antigo. Mãe não se entende sem filho, e filho não se entende sem mãe. Seria um prédio sem fundamento. E o Antigo sem o Novo ficaria incompleto. Seria uma árvore sem fruto.

Carlos Mesters, O. Carm

 
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A Regra do Carmo

- Do silêncio profético e do controle da língua (2) (n.º 21) -

- A brisa leve do silêncio profético na vida do profeta Elias -

21. O apóstolo recomenda o silêncio, quando manda que é nele que se deve trabalhar. E como afirma o profeta: a justiça é cultivada pelo silêncio. E ainda: no silêncio e na esperança estará a força de vocês.

Por isso, determinamos que, depois da recitação das completas, guardem o silêncio até depois da Hora Primeira do dia seguinte. Fora desse tempo, embora a observância do silêncio não seja tão rigorosa, com tanto mais cuidado abstenham-se do muito falar, porque, conforme está escrito e não menos ensina a experiência: No muito falar não faltará o pecado; e: Quem fala sem refletir sentirá um mal-estar; e ainda: Quem fala em demasia prejudica a sua alma; e o Senhor no Evangelho: De toda palavra inútil que os homens disserem, dela terão que prestar conta no dia do juízo.

Portanto, cada um faça uma balança para as suas palavras e rédeas curtas para a sua boca, para que, de repente, não tropece e caia por causa da sua língua, numa queda sem cura que conduz à morte. Que, como diz o profeta, cada um vigie sua conduta para não pecar com a língua, e se empenhe, com diligência e prudência, em observar o silêncio pelo qual se cultiva a justiça.

O silêncio profético na caminhada do profeta Elias

Elias parecia forte e invencível no confronto com os profetas de Baal (1Rs 18,20-40). Mas diante da ameaça de morte da parte de Jezabel, ele aparece como era na realidade: fraco e vulnerável, "igual a nós" (Tg 5,17). Com medo de ser morto, foge do país, vai para o deserto (1Rs 19,1-3). Cego, sem enxergar, não percebe o anjo de Deus que lhe traz comida. Ele só quer comer, beber, dormir e ficar longe de tudo (1Rs 19,5). Está desanimado. Quer morrer: Não sou melhor que meus pais! Mas Deus não desiste. O anjo volta uma segunda vez (1Rs 19,7). Finalmente, Elias desperta e, alimentado por Deus, recupera sua força. No silêncio do deserto, ele caminha quarenta dias e quarenta noites até o Horeb (Sinai), a Montanha de Deus (1Rs 19,8). Elias busca reencontrar Deus no mesmo deserto onde, séculos antes, na época do êxodo, havia nascido o povo.

Mas a busca parece não estar bem orientada. Alguma coisa não está dando certo. Elias diz ter muito zelo, mas, na realidade, está fugindo com medo de morrer (1Rs 19,10.14). Ele diz que ficou sozinho, mas havia sete mil que não tinham dobrado o joelho diante de Baal (1Rs 19,18). Elias tem a visão limitada. Ele pensa que é o único a defender a causa de Deus! (1Rs 19,14) Deus o manda sair da gruta e ficar na entrada, pois "Deus vai passar" (1Rs 19,11). Elias sai da gruta, mas a gruta não sai de Elias. Ele continua com a mesma visão limitada, achando ser ele o único que defende a Deus! (1Rs 19,14) Enquanto não mudar esta sua maneira limitada de perceber a presença de Deus, não poderá percebê-la na vida e nos fatos.

Deus vai passar! Primeiro, um furacão! Depois, um terremoto! Depois, um fogo! No passado, ao concluir a Aliança com o povo naquela mesma Montanha Horeb ou Sinai, na época do êxodo, Deus tinha se manifestado no furacão, no tremor da montanha e nos raios de fogo (Ex 19,16). Eram os sinais tradicionais da presença atuante de Deus no meio do povo. Eram estes os critérios que orientavam Elias na busca de Deus. Ele mesmo tinha experimentado a presença de Deus no fogo quando, no Monte Carmelo, enfrentou os profetas de Baal (1Rs 18,36-38).

Elias estava fazendo uma coisa certa. Ele buscava Deus voltando às origens do povo, à experiência de Deus no êxodo. Mas os critérios da sua busca estavam desatualizados. Ele vivia no passado. Encerrou Deus dentro dos critérios! Queria obrigar Deus a ser como ele, Elias, o imaginava e desejava. Por isso aconteceu o inesperado, a surpresa total: Deus não estava mais no furacão, nem no terremoto, nem mesmo no fogo que tinha sido sinal da presença de Deus, pouco antes, no Monte Carmelo! Parece até um refrão que volta três vezes: Javé não estava no furacão! Javé não estava no terremoto! Javé não estava no fogo! Se Ele não está nestes sinais, então onde está Deus? Onde encontrá-lo?

É a desintegração do mundo de Elias. A crise mais violenta e mais dolorosa que se possa imaginar! Cai tudo! Pois se Deus não está mais nestes sinais familiares e tradicionais de sempre, então Ele não está em canto nenhum! É o silêncio de todas as vozes! É a escuridão da noite! Ora, é neste momento, que se abre para Elias um novo horizonte. É no silêncio de todas as vozes que a voz de Deus se manifesta.

Este silêncio total, a língua hebraica expressa-o dizendo: “voz de calmaria suave”, (qôl demamáh daqqáh). As traduções costumam dizer: “Murmúrio de uma brisa suave” A palavra hebraica, demamáh, usada para indicar a calmaria, vem da raiz DMH que significa parar, ficar imóvel, emudecer. A brisa suave indica algo, uma experiência, que, de repente, faz emudecer, faz a pessoa ficar calada, cria nela um vazio e, assim, a dispõe para escutar. Esvazia a pessoa, para que Deus possa entrar e ocupar o lugar. Ou melhor, Deus entrando provoca o vazio e o silêncio. Silêncio sonoro, solidão povoada! Vacare Deo dizem até hoje os carmelitas, isto é, esvaziar-se para Deus!

Elias cobriu o rosto com o manto (1Rs 19,13). Sinal de que tinha experimentado a presença de Deus exatamente naquilo que parecia ser a ausência total de Deus! A escuridão se iluminou por dentro e a noite ficou mais clara que o dia. É a libertação de Elias. Reencontrando-se com Deus, ele se reencontra consigo mesmo e descobre que não é ele, Elias, que defende a Deus, mas sim que é Deus quem defende a Elias. Libertado por Deus, ele é livre para libertar os outros!

A experiência de Deus reconstroi a pessoa e lhe revela a sua missão (1Rs 19,15-18). Refeito pelo encontro com Deus, Elias redescobre sua missão (1Rs 19,15-18) e se preocupa em dar-lhe continuidade, indicando Eliseu como sucessor (Rs 19,19-21). Antes, ele queria morrer. Já não via mais sentido no que fazia. Agora, a nova experiência de Deus mudou tudo. Ele volta para o lugar onde queriam matá-lo. Já não tem medo. Em vez de querer morrer, quer que sobreviva a sua missão. Sinal de que novamente crê no que faz e deve fazer.

Carlos Mesters, O. Carm.

 
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