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Santa Teresa de Jesus (1515-2015)
Rezar o Terço com Santa Teresa de Jesus - Mistérios Gloriosos PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

ENCERRAMENTO DO V CENTENÁRIO DO NASCIMENTO

 DE SANTA TERESA DE JESUS

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Terço na Capelinha das Aparições

17 de Outubro de 2015

 INTRODUÇÃO

A Igreja e as diferentes Ordens e Congregações de espiritualidade carmelita e teresiana celebraram de 15 de Outubro de 2014 até 15 de Outubro de 2015 o V Centenário do Nascimento de Santa Teresa de Jesus.

Este encontro aqui, na Capelinha das Aparições, é a expressão da nossa convicção nascida da fé de que somos guiados e animados por Maria no seguimento de Cristo. Constantemente lembramos o que ela disse em Caná: “Fazei tudo o que ela vos disser”: ela leva-nos a Jesus. E ouvimos também o que Jesus disse no Calvário, do alto da cruz: “Eis a tua Mãe!”: Jesus leva-nos a Maria. Uma vez que o Carmelita deve viver em “obséquio de Jesus Cristo”, ninguém viveu como Maria este ideal. Estar com Maria é estar sempre em boa companhia.

Nossa Senhora está presente nos momentos mais decisivos da vida de Santa Teresa de Jesus. Basta recordar o que ela disse quando perdeu a sua mãe, entre os treze e quatorze anos de idade, como indicação, de que ela foi uma autêntica filha de Maria, não só num momento, mas sempre: “Quando comecei a perceber o que tinha perdido, fui-me, aflita, a uma imagem de Nossa Senhora e supliquei-Lhe, com muitas lágrimas, que fosse minha Mãe. Embora o fizesse com simplicidade, parece-me que me tem valido; porque conhecidamente tenho encontrado esta Virgem soberana, sempre que me tenho encomendado a ela, e, enfim, tornou-me a si”.

Em união com Santa Teresa de Jesus rezemos e meditemos os Mistérios Gloriosos.

MISTÉRIOS GLORIOSOS

1º Mistério – A ressurreição de Jesus

Depois do sábado, ao raiar o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro. Então o anjo falou às mulheres: ‘Sei que procurais a Jesus que foi crucificado. Ele não está aqui! Ressuscitou como havia dito!’ ” (Mt 28 1. 5a. 6b).

Reflexão: O coração é atraído para o tesouro que ama e não se detém mesmo perante os perigos e dificuldades, até que possua o que deseja. O alimento de Jesus era fazer a vontade do Pai. Na ressurreição de Jesus vemos que a vontade de Deus é sempre o nosso Bem e que desabrocha em vida plena e indestrutível.

Santa Teresa põe no centro da sua espiritualidade fazer a vontade de Deus. Diz ela: “A vontade de Deus há-de cumprir-se, quer queiramos quer não, e a Sua vontade há-de fazer-se no Céu e na terra. Este Rei não se dá, senão a quem de todo se dá a Ele (…). Já tenho provas e grande experiência do lucro que há em deixar a minha vontade na Vossa” (CP 32, 4).

É bom e necessário em todas as horas  pôr os olhos em Cristo, livro vivo, em quem se aprendem as verdades: “Se estais alegres, vede-O ressuscitado pois a simples imaginação que Ele saiu do sepulcro vos alegrará. Com que esplendor, com que majestade, quão vitorioso, quão alegre!” (C 26, 4).

Prece: Peçamos a Maria e a Santa Teresa de Jesus, para que aspirando à vida, e vida em abundância, o nosso desejo e alegria seja sempre fazer a vontade de Deus.

2.º Mistério: a Ascensão de Jesus ao Céu

Então, o Senhor Jesus, depois de ter falado [com os discípulos], foi recebido no Céu e sentou-Se à direita de Deus. Eles, partindo, foram pregar por toda a parte; o Senhor cooperava com eles, confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam  (Mc 16, 19-20).

Reflexão: Hoje parece estar obscurecida a ideia de fim, de finalidade. E, por isso, vive-se muito o imediato, no provisório, no descartável. Tem-se a tentação de chamar a atenção, seja da forma que for, através do impressionável. Talvez porque não se saiba para onde se vai, a ideia de caminho, peregrinação, conceitos muito importantes que nos podem ajudar e iluminar na compreensão da vida de Santa Teresa, não estejam muito enraízados entre nós.

Quem se entrega a Jesus, segundo a sua promessa, não se perde: “Quem me segue não anda nas trevas mas terá a luz da vida”. Desde que se determinou a dar-se totalmente a Cristo, Santa Teresa ficou unificada e caminhou serenamente na convicção de que viver é adentrar-se cada vez mais no mistério de Deus até o contemplar face a face no Céu. Por isso, na hora da sua morte disse estas palavras admiráveis: “Finalmente vamo-nos encontrar”.

Prece: Peçamos a Maria e a Santa Teresa de Jesus uma forma de vida inspirada na sabedoria do Evangelho para que em todas as horas possamos dizer e rezar: “Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa, Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta”.

3º Mistério – A descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos e Nossa Senhora reunidos no Cenáculo

“Jesus entrou e pôs-se no meio deles. Disse: ‘a paz esteja convosco!’ Soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados; a quem os retiverdes, ficarão retidos” (Jo 20, 21.23).

Reflexão: O Espírito Santo é o Pedagogo que o Pai e o Filho nos concedem. Na antiga Grécia o pedagogo era o escravo, o criado, que levava a criança à escola, ao mestre, para que ela fizesse a sua aprendizagem e formação. O Espírito Santo, Deus-Amor, que procede do Pai e do Filho, é-nos concedido para que no Filho sejamos Filhos e possamos chamar a Deus de “Abba”. Teresa de Jesus quando se determinou dar-se toda a Cristo, tendo-o como único Senhor e Esposo, a sua vida foi outra, deu muito fruto que ainda hoje perdura pois como diz Jesus “Sem mim, nada podeis fazer” e “A glória de meu Pai é que deis muito fruto”.

“Disse-me o Senhor: Faz o que está em teu poder e deixa-Me a Mim agir e não te inquietes com nada; goza do bem que te foi dado, que é muito grande: Meu Pai se deleita contigo e o Espírito Santo te ama” (CC 10).

Prece: Peçamos a Nossa Senhora e a Santa Teresa que nos ensinem a ser dóceis e a seguir as inspirações do Espírito Santo para que a qualidade do nosso viver seja palpável e contagiante: “Quem deveras ama a Deus, todo o bem ama, todo o bem quer, todo o bem favorece, todo o bem louva, com os bons se junta sempre e os favorece e defende; não ama senão verdades e coisa que seja digna de amar. Pensais que é possível, a quem mui deveras ama a Deus, amar vaidades, ou riquezas, ou coisas de deleites do mundo, ou honras, ou tenha contendas ou invejas? Não, que nem pode; e tudo, porque não pretende outra coisa senão contentar ao Amado”.

4º Mistério – A Assunção de Nossa Senhora ao Céu

Naquele tempo, enquanto Jesus falava à multidão, uma mulher levantou a voz no meio da multidão e disse: 'Feliz Aquela que Te trouxe no seu ventre e Te amamentou ao seu peito!' Mas Jesus respondeu: 'Mais felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática' ” (Lc 11, 27-28).

Reflexão: A fé potenciando a razão abre e introduz o nosso ser em novos horizontes existenciais que “nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram, nem jamais passou pela mente humana o que Deus tem preparado para os que O amam”. Na nossa caminhada acompanha-nos Maria, garantia segura da nossa Esperança, Estrela da nossa vida.

“O grande bem que me parece a mim que há no Reino do Céu, juntamente com muitos outros, é o de já não se ter cuidado com coisa alguma da terra, mas um sossego e glória em si mesmos, um alegrar-se que se alegrem todos, uma paz perpétua, uma grande satisfação no íntimo de si mesmos, que lhes vem de ver que todos santificam e louvam ao Senhor, e bendizem o Seu nome e ninguém O ofende. Todos O amam e a própria alma não se ocupa com outra coisa senão amá-Lo, nem pode deixar de O amar, porque O conhece” (CP 30, 5).

Prece: Peçamos a Nossa Senhora e a Santa Teresa que despertem em nós grandes desejos para que a nossa vida no tempo seja já “a eternidade começada”, “o Céu na Terra”.

5º Mistério – A coroação de Nossa Senhora como Rainha do Céu e da Terra

Maria exclamou: 'de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações, porque o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas! Santo é o Seu nome!' ”(Lc 46.48b-49).

Reflexão: Dizer Sim a Deus é Reinar. Quando Maria diz ao anjo: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”, ela sabe, por experiência, que Deus é bom, verdadeiro, fiel, e que a sua misericórdia se estende de geração em geração. Maria no seu Sim ensina-nos, como sempre ela  o fez, a afinar a nossa vida pela vida de Deus: o que tu queres, Senhor, eu quero!

Maria teve que caminhar pela fé. Imitando a sua fé, somos capazes de ver para além das coisas exteriores que nos rodeiam. Ela foi capaz de ver Deus no coração do universo, guiando todas as coisas e todas as pessoas para si mesmo, através de Jesus Cristo. Maria era uma contemplativa, o que não significa que passasse os seus dias de joelhos. Uma contemplativa é uma amiga amadurecida de Deus que busca a realidade com os olhos de Deus e que ama o que vê com o coração de Deus. Porque Reinar é Servir, ela é nossa Mãe e Rainha do Céu e da Terra.

Infelizmente São José está excessivamente na sombra, quase esquecido. Não, assim, com Santa Teresa: “É que não sei como se pode pensar na Rainha dos Anjos – no tempo em que tanto passou com o Menino Jesus – sem que se dê graças a São José pelo muito que então os ajudou”.

Prece: Peçamos a Nossa Senhora, a São José e a Santa Teresa para que saibamos fazer de toda a nossa existência uma Páscoa e uma Eucaristia, em que Jesus e Maria reinem nos nossos corações: “A quantos tudo abandonam por amor de Deus, Ele se entrega totalmente”.

E também Maria se dá totalmente: “Estando todas no coro em oração depois de Completas, vi Nossa Senhora, com grandíssima glória, revestida dum manto branco e, debaixo dele, parecia amparar-nos a todas. Entendi quão alto grau de glória daria o Senhor às desta casa” (V 36, 24).

 
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Um dos temas mais interessantes no teresianismo científico e vital é o da Igreja, mas tendo presente que, para Santa Teresa, não era só um dogma a acreditar, mas uma família na qual viver, uma mãe da qual nos alimentamos, uma mestra da qual aprendemos e um ser vivo a quem amamos. Vejamos como viveu a Madre Teresa estas facetas da Igreja.

1. Ser e sentir-se Igreja. Sentir com a Igreja

É o primeiro: SER Igreja, ter consciência de pertencer a uma instituição, a uma grande família. Mas é uma Igreja histórica, real, não idealizada, não a nossa do Concílio Vaticano II, mas a do Concílio de Trento. A noção de Igreja que a Santa tem, como todos os católicos do seu tempo, é hierárquica, a dos papas, bispos, padres, frades e freiras, principalmente. Sobretudo, a dos “letrados”, mestres teólogos que ensinam e discernem, porque conhecem e entendem a Sagrada Escritura. São os “capitães” da cidade amuralhada, “defensores” dos soldados, cristãos de apoio, contra os hereges.

Ainda que pareça mentira, Teresa vive pouco a Igreja “romana” e pouco a “católica”. Nos prólogos dos seus primeiros escritos apela sempre e submete-se à “Igreja”, sem adjectivos. Tardiamente, e por imposição de algum conselheiro, escreveu entre linhas: o de católica e romana. Só no escrito tardio das Moradas aparece no texto a Igreja “católica”. É a mesma Igreja que vivem os espanhóis do seu tempo: uma Igreja “à espanhola”, a do Imperador Carlos V e a de Filipe II, não cismática, mas, com frequência, em confrontação com os papas de Roma, às vezes em guerra com eles, quando eram senhores temporais em seus territórios italianos e aliados dos inimigos de Espanha.

Duas notas ensombram a Igreja cristã que Teresa conhece. Em primeiro lugar, uma Igreja “pecadora”, deficiente, necessitada de reforma. Na sua longa vida activa, conheceu deficiências e pecados nos dirigentes da Igreja: bispos, cónegos, sacerdotes, religiosos e freiras. Não consta que tenha conhecido a Igreja mundana dos Papas do Renascimento, pelo menos não aparece uma só referência aos acontecimentos. Contudo, conheceu muitos mais santos e “servos de Deus”, como costuma chamar aos seus amigos, amigas e conhecidos. Ela, consciente das suas deficiências, contribuiu com talento, saúde e vida para recuperar a grandeza dos seus princípios evangélicos: caridade, simplicidade, humildade, pobreza, oração, desprendimento do eu e do apego aos valores mundanos, etc. Sem ela o querer nem buscar, forçada por vozes interiores e pela força do Espírito Santo, iniciou uma “reforma” voltando às origens da sua Ordem Carmelita.

Também conheceu uma Igreja “no meio de grandes tempestades”, vivendo em “tempos difíceis”. Conhece de perto, embora com muitas lacunas informativas, a Igreja “dividida” pela heresia dos “luteranos”, termo no qual engloba todos os dissidentes da Igreja, que matam sacerdotes, destroem igrejas, tiram o Santíssimo Sacramento do altar, etc. Conheceu uma Igreja inquisitorial, que buscava hereges e cismáticos, místicos falsos, judaizantes, e os julgava e condenava até com a pena de morte.

Tardiamente, parece que a partir do ano 1567, conheceu algo da Igreja do Novo Mundo, em que nem sempre os bons exemplos dos missionários e evangelizadores estavam presentes, mas antes, a avareza e os maus tratos aos índios por parte dos conquistadores espanhóis, entre os quais se encontravam sete dos seus irmãos. A essa Igreja histórica, a do seu tempo, se submete, não por medo à condenação da Inquisição, mas porque se sente “filha da Igreja”. Porque quer sentir com a Igreja, submete a sua vida, cheia de experiências místicas, as suas obras, escritas por obediência, aos juízes e confessores, mestres da fé e submetidos eles mesmos à Igreja docente.

2. Viver da Igreja

Teresa é consciente de que “vive da Igreja”. Se foi pelos seus pais incorporada à Igreja pelo baptismo, ela sabe que o baptizado é “membro da Igreja”, como o eram também os católicos convertidos em luteranos (Vida 32,6). Aprofundando na realidade do baptismo, reconhece que o baptismo a converteu em “esposa” de Cristo, que completará com a profissão religiosa (Caminho 22,7). Mas também é certo que nunca faz menção do seu baptismo, nem primeira comunhão, nem à confirmação.

Mas onde se manifesta generosa em informações e em doutrina apaixonada é no uso dos sacramentos da Igreja, verdadeiro e necessário alimento que a Igreja lhe oferecia: a confissão ou o sacramento do perdão, e a Eucaristia. Lendo as suas obras, especialmente a sua Autobiografia e as Fundações, e de passagem as suas Cartas, damo-nos contas do uso, hoje diríamos, do abuso, do sacramento da confissão. Quando fundava um convento numa cidade ou povoação, uma das suas primeiras preocupações era saber se ali encontraria facilidade para consultar a sua consciência com algum “letrado”. Não era só questão de confessar pecados, mas também de perguntar a um especialista nas Sagradas Escrituras se as suas experiências místicas estavam de acordo com a Revelação de Deus na sua palavra escrita. Às vezes também tirava dúvidas de direito civil ou eclesiástico, problemas económicos, selecção de vocações, cuidado das enfermas, etc.

No referente à Eucaristia era uma paixão de alma enamorada de Cristo. Chamavam-lhe a “a louca da Eucaristia”. Basta ler as páginas que ela dedica a comentar as palavras do Pater noster: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”, referidos com exclusividade de outras interpretações, à Eucaristia. Outra prova do seu amor eucarístico é que não dava por fundada uma casa até que não se celebrasse a missa e se instalasse o sacrário. Parecia-lhe que em casa faltava o esposo. Muitos outros dados, ditos e doutrinas atestam a sua devoção a Cristo na Eucaristia.

3. Servir a Igreja

Mas não basta o desejo e os escritos. O seu amor à Igreja, o seu sentimento de ser Igreja é demonstrado com factos. Por estar baptizada na Igreja católica, sente-se obrigada a ser uma célula viva e dinâmica para o apostolado que lhe é possível realizar dentro de um convento de clausura. Como não pode de outra maneira, ela e as suas freiras, servirão a Igreja com os meios que a Igreja oficial permitia à mulher: a oração contemplativa nas clausuras. Ela teve a sorte de “servir a Igreja” de outra maneira muito mais efectiva. Quis “erguer a voz” para pregar a Cristo; a Igreja não a deixou por ser mulher, e porque São Paulo o tinha proibido. Anota numa das suas Contas de consciência que não estava de acordo com o uso indevido do texto paulino, como lhe disse Cristo numa das suas “locuções”: “Diz-lhes que não se guiem só por uma parte da Escritura, e se poderão, porventura, atar-me as mãos” (Conta de consciência 16. EDE, Julho 1571).

Santa Teresa fez dois grandes “serviços” à Igreja do seu tempo e de todos os tempos, porque o seu magistério permanece hoje com mais esplendor que nunca. O primeiro é o de ser “fundadora” de conventos reformados da Ordem do Carmo, com o novo título de Carmelitas Descalças/os. Às mulheres enclaustradas abriu-lhes o horizonte missionário, a salvação das almas, como projecto eclesial. À mulher, marginalizada no seu tempo pela Igreja, encarregou-lhe a tarefa de salvar o mundo com a oração, a contemplação e a vida evangélica. Enquanto outros combatiam os inimigos com as guerras de religião na Europa (ela estava contra as guerras de religião), e outros conquistavam impérios com a força das armas, ela e as suas freiras, em clausura, oravam e sacrificavam-se pelos que pelejavam com a força por uma vida melhor. E aos frades, fundados por ela, encomendou-lhes a missão de pregar o Evangelho em terras longínquas com o exemplo da vida e com os seus ensinamentos escritos.

Outra forma de “servir a Igreja” é mediante as suas obras escritas. Ainda antes de ser difundida pela imprensa, a sua Autobiografia corria manuscrita nas mãos dos professores da Universidade de Salamanca que a citavam nas suas aulas e alguns ouvintes fizeram-se carmelitas descalços. As edições das suas Obras completas, na sua língua original e em traduções nas línguas de todos os continentes, continuam a aparecer nos nossos dias. O mesmo se diga de cada uma das suas obras. Os estudos sobre ela multiplicaram-se de tal maneira que são inumeráveis, quase incontáveis. A celebração do V Centenário do seu nascimento (1515-2015) está a pôr em evidência a perene actualidade de Santa Teresa.

Temos que acrescentar outro “serviço” mais secreto e misterioso à Igreja universal: o exemplo da sua vida santa, atraente e, ainda, a simpatia que suscitam as suas virtudes “humanas”. Santa Teresa é hoje um dos modelos de perfeição cristã que mais seduz os leitores das suas obras e ouvintes da sua doutrina. Vivendo em Ávila, damo-nos conta da atracção que a sua figura continua a exercer entre os católicos e não católicos, crentes e ateus. Os turistas e peregrinos que se aproximam para visitá-la na sua “casa natal” continuam a aumentar, e aumentarão com as celebrações centenárias no ano 2014 (beatificação) e 2015 (nascimento).

4. Sofrer pela Igreja

“Sofrer pela Igreja” tem um duplo sentido. Primeiro, a Igreja como finalidade: sofre na sua carne a paixão Cristo para ajudar a Igreja em necessidade. Segundo: sofre por causa da Igreja. O conhecimento da Igreja pecadora, herética e cismática, fazia-a sofrer. 

Mas sofre sobretudo, por não poder “erguer a voz” apregoando o que ela conhece de Deus, de Cristo e do seu Espírito através das experiências místicas e da sua cultura religiosa. Sabe que a sua Igreja é demasiado andro-cêntrica, dirigida só por homens, os únicos que podem pregar, que tem juízes homens que vigiam e condenam muitas das práticas religiosas das mulheres devotas, sobretudo se têm experiências místicas. Os seus escritos, lidos em profundidade, contém muitas críticas contra esse modo de exercer a autoridade na Igreja. Pode-se dizer que ela é defensora de um feminismo eclesial, precursora de muitas feministas que podem ser células vivas na Igreja actual. Muitos dos contributos que ela deu à Igreja foram criticados, ou pelo menos foram suspeitos, para alguns dos teólogos do seu tempo. A oposição que encontrou em alguns eclesiásticos (sacerdotes e bispos) foi também um motivo para “sofrer” a sua Igreja.

Apesar de tudo, ela continuou a oferecer a sua vida à Igreja até ao último suspiro da sua vida.

Daniel de Pablo Maroto, OCD

 
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Oração teresiana

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Teresa é uma mulher de grande capacidade para a relação interpes­soal. Aberta ao outro em acolhimento e em doação. Daí procede a sua vida e ensinamento da oração: «tratar de amizade estando muitas vezes tratando a sós com quem sabemos que nos ama» (V 8,5).

Oração de Teresa

Depressa nos mostra a sua “maneira de orar”. Depois de um breve tempo de busca, lendo “muitos livros”, encontra no Terceiro Abecedário, de Francisco de Osuna, “a oração de recolhimento” e decide “seguir aquele caminho com todas as suas forças (V 4, 6).

Mais para a frente, ela mesma já formula o seu “modo de proceder”: “Procurava representar a Cristo dentro de mim, e encontrava-me melhor aonde O via mais só e necessitado”. Explica com profunda sensibilidade feminina: “Parecia-me que, estando só e aflito, como pessoa necessitada, me havia de admitir a mim” (V 9,4). Quando mais tarde propunha a oração aos seus discípulos, escreverá: “Eu vos confesso que nunca soube o que era rezar com satisfação até que o Senhor me ensinou este modo; e sempre encontrei tanto proveito…” (C 29,7). A oração aparece já como uma relação de amizade. Uma amizade que, pouco a pouco, “recolhe” amorosamente a vida do orante na pessoa de Jesus, “divino e humano, juntos” (6M 7,9).

Nesta relação sublinha com força e convicção a presença do Outro, do amigo verdadeiro: “e com que boa vontade está connosco” (C 29,6). Deus “é tão bom vizinho, e tanta a sua misericórdia e bondade…, estima muito que O queiramos e procuremos a Sua companhia…” (2M 1,2). Ele é o principal orante, quem se mostra mais activo, mais paciente na oração. “Tem um particular cuidado de comunicar-se connosco e de nos andar rogando para que estejamos com Ele” (7M 3,9).

E, com estes breves apontamentos, entendemos que o acto de oração é uma exigência do amor que responde a quem tanto nos ama, e não um cumprimento da lei. Desde o princípio do caminho de oração, esta deve ser vivida em clave de amor, acolhido, ao qual respondemos.

Teresa apresenta-se como uma mulher com uma clara e decidida inclinação para a oração pessoal. Desde criança vive a oração estreitamente unida à verdade. Em companhia do seu irmão Rodrigo, transmite-nos a forte vibração que lhes causava repetir que, “pena e glória eram para sempre… e gostávamos de dizer muitas vezes: para sempre, sempre, sempre!” Continua dizendo, já em singular: “por pronunciar isto muito tempo, era o Senhor servido me ficasse impresso, desde a infância, o caminho da verdade” (V 1,5; CF V 3,5).

Anos mais tarde, já exercendo de Mestra de oração, escreverá que “oração mental é entender estas verdades” (C 22,8): Quem é Deus, quem é o orante e “estudar como hei-de tornar a minha condição conforme à Sua” (C 22,7). Quem com quem. Assim definiu a oração: “Tratar de amizade estando muitas vezes a sós com quem sabemos que nos ama” (V 8,5). Relação interpessoal amorosa.

Vida de amizade em caminho. História de amizade em doação e acolhimento progressivo; doação e acolhimento em progressão de gratuidade e interiorização; em fé. Porque, concebida como amizade, expressão de vida em comunhão, a oração exige encontros frequentes em solidão “compartilhada”. Teresa distingue bem o próprio e o específico do acto de oração: os que oram “estão vendo que [Deus] os olha” (V 8,2). O acto de oração é ter consciência explícita da relação com o “Amigo que nunca falta”.

Pedagogia do acto de oração

No Caminho de Perfeição, autêntico catecismo de oração, Teresa oferece-nos uma breve e luminosa práxis da oração de recolhimento, pensando sobretudo naqueles que não podem meditar, como era o seu caso. Define-a com estas palavras: “a alma recolhe todas as potências e entra dentro de si com o seu Deus” (C 28,4). Pormenoriza depois: recolher-se é “fortalecer-se… a alma à custa do corpo e que a deixa só e enfraquecido, e ela abastece-se ali [toma provisões] para ir contra ele” (C 28,6). Fortalecimento do espírito, enfraquecimento do sensorial ou superficial no comportamento da pessoa.

Aconselha em primeiro lugar “buscar solidão”, acrescentando logo a seguir que seja uma solidão cheia da presença do Amigo e Mestre que nos ensina esta oração: “Representai-vos o mesmo Senhor junto de vós e vede com que amor e humildade Ele vos está a ensinar” (C 26,1). E já tinha advertido antes que a solidão não é um valor absoluto mas relativo: “para entender, [para dar-se conta] com quem estamos” (C 24,4b).

Polarização amorosa, de comunhão com o Amigo-Mestre, Jesus. Assim o especificará, dizendo o que não é oração e o que é: “não vos peço que penseis n’Ele, nem que tireis muitos conceitos, nem que façais grandes e delicadas [agudas] considerações”. Que é orar? “Não vos peço mais que O olheis”, afirma Teresa; ou seja, não eu com os meus pensamentos, com as minhas sensações psicológicas, mas com Ele. “Veja que o Senhor o olha” (V 13,22). “Veja”, advirta, imperativo amoroso, “que o Senhor o olha”, no presente, porque Jesus, Deus nunca nos deixa de envolver com o seu olhar, com o seu amor.

Pedagogia do orante

Nunca insistiremos bastante sobre isto: formar o orante, formar a pessoa na relação com Deus, com os seus semelhantes. Os capítulos 4 a 21 e 23 do Caminho de Perfeição são fundamentais, como se lê nas linhas introdutórias do capítulo 4, 1-4.

Ali Teresa exorta para a importância do que vai escrever antes de falar directamente da oração. Ao apresentar a oração como “amizade”, advertia que “para ser verdadeira e que dure hão-de encontrar-se as condições” (V 8,5), a de Deus, Amor e a nossa, “sensual”, egocêntrica. E começou o Caminho de Perfeição recordando o sentido da sua proposta no mundo em que vivem: “Já vistes, filhas, a grande empresa que pretendemos alcançar”: ser bons amigos de Deus, ajudando assim a Igreja que está “por terra”, o mundo “em chamas”, a Cristo “a quem querem tornar a condenar” (C 1,5). Para o êxito desta empresa, deste objectivo tão essencial e urgente, mostra “que tais havemos de ser?” (C 4,1).

Teresa, “mestra de orantes”, não se apressa a formular a sua doutrina da oração. Primeiro aviso: “temos necessidade de trabalhar muito, ajuda muito ter altos pensamentos” (C 4,1). Isto deve cristalizar em “cumprir e ler… o dito até agora”, isto é, os três capítulos precedentes. Acrescenta seguidamente que se dispõe a dizer “algumas coisas que são necessárias ter [nas quais hão-de empenhar-se seriamente os que “pretendem levar caminho de oração”, “e tão necessárias que, sem ser muito contemplativas, poderão estar muito adiante no serviço do Senhor”, na comunhão de amizade com Ele. “E é impossível, se não as tiverem, ser muito contemplativas [muito amigas de Deus], e se pensarem que o são, estão muito enganadas” (C 4,3). Densidade e segurança na expressão. Ser orantes é outra coisa muito distinta de “fazer oração”, ou “ter oração”, ou como diz ela, ter amizade com Deus. Um acto exterior como “fazer” oração pode improvisar-se. “Ser amigo, ser orante”, não.

Teresa crê que com estas palavras introdutórias pode enunciar já essas três coisas “tão necessárias” “para os que pretendem levar caminho de oração”, “ser orantes, amigos”. E formula-as assim: “uma é o amor de umas para com as outras; outra, o desapego [libertação] das coisas criadas; a terceira, a verdadeira humildade que, embora a diga no fim [em último lugar], é a principal e as abrange todas” (C 4,4). A proposta teresiana poderia formular-se assim: “A verdade faz-te livre para amar”.

Estes cuidados capítulos sobre as três coisas necessárias há que lê-los à luz de Jesus, como ela os escreveu. Meditemos estas frases da Mestra: o amor de que ela nos fala “vai imitando o capitão do amor, Jesus” (C 6,9). “Torno outra vez a dizer que este amor se parece e vai imitando o amor que nos teve o bom amador Jesus” (C 7,4). Do desapego ou libertação de relações interpessoais possessivas, activas e/ou passivas, começa a sua exposição com estas palavras: “no desapego está tudo, se for com perfeição; digo que aqui está tudo, porque abraçando-nos só com o Criador e não se nos dando nada de todas as coisas…” (C 8,1).

Ao falar de desapego dos parentes, [parentes, e não só de sangue, mas também de ideias, sensibilidade, psicologia, etc.] dá um sentido muito mais interior à compreensão da tradicional “fuga mundi”: “não creio que esteja o remédio em fugir o corpo, mas em que determinadamente a alma se abrace com o Bom Jesus…, pois como n’Ele encontra tudo, tudo esquece” (C 9,5).

E a nível mais interior de libertação de si mesmo e da própria imagem, de narcisismos e soberbas, convida as suas irmãs: “ponde os olhos no Crucificado e tudo se vos fará pouco” (7M 4,8). Da humildade nasce a disponibilidade: “a verdadeira humildade consiste, em grande parte, em estar muito pronto em se contentar com o que o Senhor quiser fazer de cada um de nós”. O único verdadeiro e essencial, “é servir o Hóspede” (C 17,6), Jesus.

Serviço e amor em que se resolve a tradicional dicotomia entre a contemplação e a acção: “crede-me que Marta e Maria hão-de andar juntas para hospedar o Senhor, e tê-l’O sempre consigo” (7M 4,12).

Maximiliano Herráiz, OCD

 
Santa Teresa de Jesus: reformadora e fundadora PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

Santa Teresa de Jesus: reformadora e fundadora

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A Providência sempre dispõe de quem escolher para levar a cabo uma boa obra. Perante a Reforma protestante, lavrou de imediato a Reforma Católica, por muitos denominada de Contra-Reforma. A segunda metade do século XVI e todo o século XVII foram uma época em que em toda a catolicidade floresceram os heróis, os mártires, os pregadores, os evangelizadores, e também os profetas da vida ascética e mística. Com os pés fincados na Regra inicialmente dada aos Irmãos da Virgem Maria do Monte Carmelo, e com uma visão de Cristo humano - esse que diz, “vinde a mim” - e não totalmente distante enquanto divindade, Teresa apostou no rigoroso abandono dos negócios do mundo, para tratar com Deus a favor da salvação da humanidade. “Esta é a nossa vocação”, escreveu.

Teresa iniciou uma Reforma tão significativa, que provocou discordâncias, e mesmo forte oposição, derivada de instalados hábitos culturais. A chamada”reforma teresiana” estava em marcha, dentro da Ordem do Carmo. De facto, para aplicar as reformas pastorais decretadas pelo concílio de Trento, com vista ao melhor bem da Igreja, face às novas heresias, a Ordem mandou a Espanha um Visitador, o Padre João Baptista Rúbio, que tomou conhecimento da iniciativa de Teresa, que receou ver a sua acção reprovada. Pelo contrário, o Visitador apreciou o trabalho de Teresa e deu-lhe aconselhamento para desenvolver esse trabalho, autorizando-a levar por diante a fundação de outros mosteiros, pois Fr. Rúbio considerou que se tratava de uma “boa obra”.

Teresa recebeu destas palavras como que uma vida nova, dispondo-se, isenta de temor, a interpretar os carismas carmelitas, a vivê-los de um modo diferente e original, interiorizante mas de olhos vigilantes para o mundo, e a multiplicar o número de novos mosteiros em toda a Espanha, que percorreu, feita andarilha, a proceder a novas fundações, do mesmo passo motivando os frades da primeira Ordem para também eles se reformarem no caminho de perfeição. Dentre os frades desde logo se afirmou um, que dava pelo nome de João de S. Matias, que depois mudou o nome para João da Cruz.

Num livro que deixou manuscrito, intitulado Livro das Fundações (escrito entre 1572 e 1582) Teresa narra a história das fundações de novas comunidades monásticas femininas, de orientação carmelita, fundações essas a que procedeu nas suas dinâmicas andanças, apesar de a saúde não ser das melhores, estimando-se que tenha percorrido, na maior parte dos percursos a pé, 6.000 quilómetros.

Depois do mosteiro de S. José de Ávila (1562) fundou o Convento Duruelo (1568) para frades contemplativos, e os Carmelos femininos de Medina del Campo (1567), Malagón e Valladolid (1568), Toledo e Pastrana (1569), Salamanca (1570), Alba de Tormes (1571). Segóvia (1574) e depois Sevilha, o seu projecto logo passando para outros países, incluindo Portugal. Em 1581, abriu o primeiro Convento de Frades (Convento de S. Filipe) e em 1584 o primeiro de monjas, (Mosteiro de Santo Alberto), ambos em Lisboa.

Enquanto a reforma teresiana crescia e dava novos frutos, Teresa, estando em Toledo, adoeceu gravemente e, apesar disso, ainda aceitou o cargo de Prioresa do primeiro mosteiro por ela fundado, S. José de Ávila onde concluiu o seu principal escrito, As Moradas. Em fins de Setembro de 1582, estando em Alba de Tormes (S. João da Cruz assistiu a esta fundação) recolheu ao leito e não mais se ergueu, finando-se no princípio da noite do dia 4 de Outubro de 1582. Nasceu nesse dia para o Céu como “filha da Igreja”, “ Serafina do Carmelo” e professa do Carmelo antigo, do qual se não desvinculou, muito embora em 1580 tivesse surgido a Ordem do Carmelo Descalço (O.C.D.), abrangendo as doutrinas de Santa Teresa e de S. João da Cruz, e bem assim as respectivas fundações.

Teresa de Jesus foi beatificada em (1614) pelo Papa Paulo V, canonizada (1622), pelo Papa Gregório XV e declarada Doutora da Igreja Universal (1970), pelo Papa Paulo VI. Festa litúrgica em 15 de Outubro.

 Pinharanda Gomes

Pensamentos de Santa Teresa de Jesus

  • Ó Senhor, experimento tanta alegria ao pensar que as minhas infidelidades fazem com que melhor se conheça a vossa misericórdia, que sinto suavizar-se a dor pelas graves ofensas que vos fiz.
  • A oração é onde o Senhor ilumina para entender as verdades.
  • Jamais creiais que adquiristes uma virtude, enquanto não a tiverdes provado com aquilo que lhe é contrário.
  • No nosso próximo, procuremos ver tão somente as virtudes e as boas obras e cubramos os seus defeitos considerando os nossos pecados.
  • Deus tem cuidado dos nossos interesses muito mais do que nós mesmos, sabendo o que convém a cada um.
  • O caminho da cruz é o que Deus reserva aos seus escolhidos: quanto mais os ama, mais os sobrecarrega de tribulações.
  • Existem almas tão simples que nada sabem sobre os costumes e os assuntos do mundo, mas que, no entanto, muito entendem das relações com Deus.
  • A coragem em sofrer muito ou sofrer pouco está sempre na proporção do amor.
  • Não há melhor meio para descobrir as insídias do demónio e obrigá-lo a dar-se a conhecer, do que o da oração.
  • Ó Senhor! Como os cristãos pouco vos conhecem!
  • Almejemos e pratiquemos a oração já não para desfrutar, mas para ter a força de servir ao Senhor.
  • A quantos tudo abandonam por amor de Deus, Ele se entrega totalmente.
  • Quem começa a servir verdadeiramente o Senhor, o mínimo que lhe pode oferecer é a própria vida.
  • Muitas vezes o Senhor permite uma queda a fim de manter a alma na mais profunda humildade. Se ela se arrepende e volta a Ele com sinceridade, mais progredirá, conforme sabemos de muitos santos.
  • Por mais profunda que seja, a verdadeira humildade nunca inquieta, nem agita, nem perturba a alma, mas a inunda de paz, de suavidade e de repouso.
  • Quem deveras ama a Deus, todo o bem ama, todo o bem quer, todo o bem favorece, todo o bem louva, com os bons se junta sempre e os favorece e defende; não ama senão verdades e coisa que seja digna de amar. Pensais que é possível, a quem mui deveras ama a Deus, amar vaidades, ou riquezas, ou coisas de deleites do mundo, ou honras, ou tenha contendas ou invejas? Não, que nem pode; e tudo, porque não pretende outra coisa senão contentar ao Amado.
  • Não há nada que se possa comparar com a grande beleza duma alma e com a sua imensa capacidade!
  • Jamais chegaremos a conhecer-nos, se juntos não procurarmos conhecer a Deus.
  • Só porque derramamos muitas lágrimas, não devemos pensar que já alcançamos a perfeição. Antes, pratiquemos muitas obras e exercitemos a virtude, pois estas são as coisas que mais convém para o nosso caso.
  • É um facto que, embora saibamos que estamos sempre na presença de Deus, muitas vezes negligenciamos em pensar nisso.
  • Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa, Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta.
  • A outros santos parece ter dado o Senhor graça para socorrer numa determinada necessidade. Ao glorioso São José tenho experiência de que socorre em todas.
  • A oração é um tratar de amizade, estando muitas vezes a sós com Quem sabemos que nos ama.
 
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Jesus Cristo na vivência e no pensamento de Santa Teresa

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Tresa dee Jesus (1515-1582), nascida numa família cristã de raízes judias, foi educada na fé da Igreja Católica. Muito depressa deu mostras de uma rara sensibilidade religiosa (Vida 1,5). Para ela, a princípio, a religião concentrava-se na figura de Deus, sem especificar muito (Vida 2,7). Depois surge a pessoa de Jesus como expressão do divino (Vida 3,1). Mais tarde Jesus introdu-la no mistério trinitário (Contas de Consciência 14), e desde ali redescobre a Deus (Contas deConsciência 15), mas com mais profundidade, sem que nunca falte no horizonte da sua existência Jesus Cristo homem e Deus (Contas de Consciência 66,3), como centro de compreensão e de vivência de toda a realidade divina e humana.

O primeiro encontro com Jesus Cristo

A descoberta de Jesus, como Deus que saiu ao nosso encontro, coincide com o despertar da sua puberdade (Vida 3,6) e supõe para ela o começo de uma religiosidade adulta. Começa a entender toda a sua existência como relação – oração, assim o diz ela (Vida 4,7).

Teresa vê os seus primeiros anos como se fossem uma nova criação de Deus, onde tudo era bom (Vida 1), mas logo a seguir também ela foi apanhada pela tentação (Vida 2), e é então quando Jesus a começa a chamar (Vida 3,6).

Interrogando-se acerca do sentido da sua vida e contemplando a de Jesus, pensa que a melhor resposta ao seu amor é consagrar-se inteiramente a Ele, ainda que para isso tenha que usar de grande violência. Acerca disto escreve: “Recordo-me, e a meu parecer com toda a verdade, que quando saí de casa de meu pai [para fazer-se religiosa], foi tal a aflição, que não creio que será maior quando eu morrer” (Vida 4,1). E assim a sua primeira séria decisão é por Cristo, fazendo-se carmelita.

O Carmelo é uma Ordem contemplativa, e Teresa começa a viver a sua religiosidade como encontro com Jesus. Diz ela: “Procurava o mais que podia trazer a Jesus Cristo, nosso Bem e Senhor, presente dentro de mim, e esta era a minha maneira de oração: se pensava em algum passo [do evangelho], representava-o no interior” (Vida 4,7).

Para Teresa meditar é pensar em Jesus, amá-l’O e trazê-l’O consigo como se O tivesse dentro de si ou em frente. Pouco a pouco começa a estabelecer-se tal relação entre ambos que Teresa a entende como uma amizade muito profunda (Vida 8,5). A comunicação dá-se já não só na oração, estende-se à vida inteira. Orar para ela é algo muito precioso: “Tratar de amizade estando muitas vezes tratando a sós” (Vida 8,5). Ali se dá conta de que necessita do amigo, e Ele também dela. Desta forma tão simples os tesouros da fé fazem-se presentes na sua alma.

Vicissitudes no encontro com Cristo

E assim passou algum tempo, até que, por sentir-se imperfeita, começou a deixar esta particular amizade, julgando equivocadamente que era mais humildade (Vida 7,1). Parecia-lhe que não era digna desse encontro tão belo. A relação arrefeceu um pouco e Teresa caiu nalgumas imperfeições. Intentou reconstruir a amizade, mas ao não conseguir despojar-se desses obstáculos, os encontros com o amigo resultavam um tormento. Sentia-se como mulher infiel ao esposo, ainda que as suas “ingratidões” eram bem pequenas. Intentava ser fiel, fazia grandes esforços até que um dia se deu conta de que neste processo de reabilitação confiava demasiado em si mesma e não se punha totalmente nas mãos do seu Senhor (Vida 8,11-12).

E um dia, diante de uma imagem de um Cristo, marcado pelas chagas dos açoites da paixão (Vida 9), deposita totalmente a sua confiança n’Ele, e sente que o Senhor a reabilita por dentro. A leitura das Confissões de Santo Agostinho foi-a preparando. E desde então começa a ser toda d’Ele. Cada vez que se põe a fazer oração, representando-se a Cristo, sente-se cheia de Deus. Esta percepção será o primeiro efeito da vinda de Jesus a ela (Vida 10,1). Ao reflectir sobre isto, julgava que até este momento era ela quem buscava a Cristo, agora é Ele quem busca a Teresa (Vida 23,1ss).

Cristo conduz à conversão plena

Esta conversão – assim a chamam alguns – abre-a para um processo novo de fidelidade. Entretanto, sente a protecção do amigo Cristo, e como Ele suavemente a vai introduzindo na Sua Pessoa (Vida 24,1ss). Teresa vê que a presença de Deus a envolve como uma nuvem da qual não pode sair. Até que um dia rezando o “Veni, Creator”, percebe que uma força interior a arrebata por dentro e remove as seguranças do seu eu. Escuta estas palavras: “Já não quero que tenhas conversações com homens, senão com anjos” (Vida 24,5). É o Amado que a quer para Si. Entra nas profundidades da mística (6Moradas). A partir daqui, já não se vai recriminar de nenhuma falta consciente.

Teresa e Cristo ressuscitado

Seguidamente começa a perceber que Alguém lhe fala (Vida 25,1). São palavras que ela chama interiores, porque não se ouvem com os ouvidos corporais, tocam na alma. Palavras cheias de força, de claridade, de afecto e de consolação. Ao principio não identificava a sua origem, mas depressa compreende que quem lhe fala é Cristo (6Moradas 8,2). Antes era ela quem dirigia a Ele a sua palavra de súplica ou de afecto, agora é Ele, quem desde o mais íntimo dela, a chama pelo seu nome, e sai assim ao seu encontro. Teresa vai-se deixando modelar por esta palavra que coincide em tudo com as que nos transmitem os Evangelhos.

Depois destas percepções, quando levava nelas como uns dois anos, Jesus Cristo deixa-Se ver (Vida 27-29). Teresa contempla-O, mas também como antes, não é uma visão ocular, percebe-o com mais claridade desta maneira. Trata-se de visões também interiores. Sempre O vê ressuscitado, ainda que se mostre em alguns dos momentos da vida terrena (Vida 29,4). Estes fenómenos transfiguram o ser de Teresa; fazem-na perceber o sentido de Cristo; dá-se conta de que Ele é o centro e a origem da vida humana. Sem Ele nada tem sentido nem beleza, sem Ele tudo empalidece. Nestes encontros entende o mistério da fé cristã e descobre a verdade. As visões muitas vezes juntam-se com as palavras, e quem lhe fala é esse Cristo a quem agora também vê. Teresa sente-se mudada, está a transformar-se noutra. Desde esta vertente, aqueles primeiros encontros, a que chamava oração, agora adquiriam o seu verdadeiro sentido. Mais ainda, as visões e as locuções crescem em intensidade. Sente-se transbordada (Vida 38,17-18).

Chegará a perceber que Cristo ressuscitado está como esculpido no seu próprio ser. A amizade com Ele envolve-a de tal maneira que não só o sente como relação – um Tu que a ama entranhadamente – mas também como quem por dentro a enche de vida, nela vive e a sustenta, é Alguém que enche todo o seu ser. É o que os místicos chamam transformação em Cristo, profundíssima amizade de dois que sentem o mesmo e se querem com tal intensidade que cada um vive mais no outro do que em si mesmo. Mas esta relação não é só psicológica, invade todo o seu ser. Ela escreve sobre isso: “De imediato se recolheu a minha alma, e pareceu-me ser toda ela como um claro espelho; não havia costas, nem lados, nem alto, nem baixo, que não fosse tudo claridade; e no centro dela se me representou Cristo Nosso Senhor, como O costumo ver. Parecia-me que em todas as partes da minha alma O via tão claramente como num espelho, e esse espelho, (não sei dizer como) também se esculpia todo no mesmo Senhor, por uma comunicação muito amorosa que eu não saberei explicar” (Vida 40,5).

Cristo conduz ao mistério trinitário

Jesus Cristo que é o Filho de Deus e seu Enviado, Palavra do Pai, feito homem em Maria pelo Espírito Santo, o Mediador do nosso encontro com o Pai, conduz Teresa ao mistério Trinitário. Com a luz do Ressuscitado entenderá o mistério e sentirá que as Pessoas Divinas habitam dentro da alma do ser humano que está em graça (Contas de Consciência 15; 36; 60). A experiência trinitária é muito intensa na vida de Teresa. Terá experiências de cada Pessoa, e perceberá também a sua unidade. A sua alegria é transbordante porque Jesus Cristo, o Amado, é amigo da alma, condu-la ao mais profundo da fé da Igreja (Contas de Consciência 55,3).

A nova vida

Tudo isto repercute na vida moral de Teresa, que se mostra cheia de Evangelho. As Bem-aventuranças (Caminho de Perfeição 2) e o Pai Nosso (Caminho de Perfeição 27-42) reflectem-se com toda a claridade na sua pessoa. Ela gostava de dizer que as experiências religiosas se conhecem pelos seus efeitos (7Moradas 3,1). Os de Teresa são as virtudes teologais, a confiança ilimitada no Pai, a humildade e a fortaleza, entre muitas outras. Sente também como o humano ressuscita numa personalidade nova, livre, gozosa, cheia de energia e de doçura, de luz e de paz. No livro de Moradas principal­mente pode comprovar-se quanto acabamos de dizer. Agora compreende de verdade o que significa ser cristão.

Sempre Jesus Cristo

Em tempos de Teresa havia certa polémica acerca do sentido da Humanidade de Jesus no processo da oração (Vida 22,1; 6Moradas 7,5). Uma corrente espiritual pensava que na primeira parte deste processo, no chamado plano ascético, devia meditar-se sobre a vida e os mistérios do Senhor; mas na segunda, na mística, teria que deixar para trás o humano do Senhor e caminhar pela Sua Divindade. Teresa descobre que isto é inaceitável. A realidade inteira do Senhor deve acompanhar o cristão em todo este processo de subida. Em defesa da Humanidade de Cristo escreve dois capítulos memoráveis (Vida 22; 6Moradas 7), em que, com argumentos teológicos, bíblicos e desde o humanismo cristão, demonstra que desviar-se dessa consideração do Senhor vai em detrimento do mais profundo e belo da revelação cristã.

O tempo posterior deu razão a Santa Teresa que, com a sua vivência pessoal e com os seus ensinamentos acerca de Cristo, brindou à Igreja uma das espiritualidades mais nitidamente cristãs, onde o Cristo humano-divino preenche tudo. A sua mística não é algo acrescentado ao cristianismo, nem um balcão ou porta que se lhe brinda; é a sua essência, pois ela vincula a sua vivência à realidade de Cristo histórico-ressuscitado e vivido na comunidade. As suas experiências místicas aconteceram em momentos altos da liturgia (Contas de Consciência 25). Contribuiu de forma singular na Igreja para uma compreensão plena de Jesus, que termina em mística, mas que se enraíza nos Evangelhos e na comunidade que vive e celebra os mistérios.

Secundino Castro Sánchez

 
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