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Outro Defensor

Outro Defensor

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Os seres humanos são bastante complexos. Cada indivíduo é um mundo de desejos e frustrações, ambições e medos, dúvidas e interrogações. Frequentemente não sabemos quem somos nem o que queremos. Desconhecemos até para onde se move a nossa vida. Quem nos pode ensinar a viver de maneira correcta?

Aqui não servem as considerações abstractas nem as teorias. Não basta esclarecer as coisas de modo racional. É insuficiente ter diante dos nossos olhos normas e directrizes correctas. O que é decisivo é a arte de actuar dia-a-dia de maneira positiva, sadia e criadora.

Para um cristão, Jesus é sempre o seu grande mestre de vida, porém, não o temos mais ao nosso lado. Por isso, adquirem tanta importância estas palavras do Evangelho: «Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade».

Necessitamos de alguém que nos recorde a verdade de Jesus. Se a esquecermos, não saberemos quem somos nem o que somos chamados a ser. Desviar-nos-emos do Evangelho novamente. Defenderemos em seu nome causas e interesses que têm pouco a ver com Jesus. Acreditamos na posse da verdade ao mesmo tempo que a desfiguramos.

Necessitamos que o Espírito Santo avive em nós a memória de Jesus, a sua presença viva, a sua imaginação criadora. Não se trata de despertar uma recordação do passado: sublime, comovente, íntima, porém, unicamente recordação. O que o Espírito do ressuscitado faz connosco é abrir o nosso coração para o encontro pessoal com Jesus, como alguém que está vivo. Somente esta relação afectiva e cordial com Jesus Cristo é capaz de nos transformar e produzir em nós uma maneira nova de ser e de viver.

O Espírito é chamado no Quarto Evangelho de «Defensor» ou «Paráclito» porque nos defende do que nos pode destruir. Há muitas coisas na vida das quais não sabemos defender-nos por nós próprios. Necessitamos de luz, fortaleza, contínuo alento. Por isso, invocamos o Espírito. É a melhor maneira de nos colocarmos em contacto com Jesus e vivermos protegidos daquilo que nos pode desviar dele. 

Viver na verdade 

Jamais os cristãos se sentiram órfãos. O vazio deixado pela morte de Jesus foi preenchido pela presença viva do Espírito do Ressuscitado. Este Espírito do Senhor preenche a vida daquele que crê. O Espírito da verdade que vive connosco, está em nós e ensina-nos a arte de viver na verdade.

Aquilo que caracteriza a vida de uma pessoa que crê de verdade não é a ânsia de prazer nem a luta pelo êxito nem sequer a obediência estrita a uma lei, mas a busca alegre da verdade de Deus sob o impulso do Espírito.

A pessoa que verdadeiramente crê não cai no legalismo nem na anarquia, mas busca com o coração limpo a verdade. A sua vida não está programada por proibições, mas é animada e impulsionada positivamente pelo Espírito.

Quando vive esta experiência do Espírito, aquele que crê descobre que ser cristão não é um peso que oprime e atormenta a consciência, mas é deixar-se guiar pelo amor criador do Espírito que vive em nós e nos faz viver com uma espontaneidade que nasce não do nosso egoísmo, mas do amor. Uma espontaneidade que conduz uma pessoa a renunciar aos seus interesses egoístas e é levada a confiar-se à alegria do Espírito. Uma espontaneidade que é regeneração, renascimento e reorientação contínua para a verdade de Deus.

Esta vida nova no Espírito não significa unicamente vida interior de piedade e oração. A verdade de Deus produz em nós um estilo de vida novo contrário ao estilo de vida que surge da mentira e do egoísmo. Vivemos numa sociedade onde:

* à mentira chama-se diplomacia,

* à exploração chama-se negócio,

* à irresponsabilidade chama-se tolerância,

* à injustiça chama-se ordem estabelecida,

* à sensualidade chama-se amor,

* à arbitrariedade chama-se liberdade,

* à falta de respeito chama-se sinceridade.

Dificilmente esta sociedade pode entender ou aceitar uma vida modelada pelo Espírito. Porém, é este Espírito que defende aquele que crê e lhe faz caminhar para a verdade, libertando-o da mentira social, da farsa e da intolerância dos nossos egoísmos.

Diz-se que o cristão é um soldado submetido à lei cristã. É mais exacto dizer que o cristão é um «artista». Uma pessoa que, sob o impulso criador e alegre do Espírito, aprende a arte de viver com Deus e para Deus. 

José Antonio Pagola

 Frases sobre o Pentecostes 

  • O Espírito Santo faz-nos habitar em Deus e Deus em nós; mas é o amor que causa tudo isto. Portanto, o Espírito é Deus enquanto amor (Santo Agostinho).
  • Jesus, tendo ressuscitado e subido ao céu, envia à Igreja o seu Espírito, para que cada cristão possa participar na sua mesma vida divina e tornar-se sua testemunha válida no mundo. O Espírito Santo, irrompendo na história, derrota a sua aridez, abre os corações à esperança, estimula e favorece em nós a maturação na relação com Deus e com o próximo (Bento XVI).
  • Mas é sempre Maria que, com a sua presença no Cenáculo, prepara os Apóstolos para o acontecimento do Pentecostes e os encoraja a “partir”. Ela anima e acompanha não apenas os missionários individualmente, mas toda a Igreja cristã a ir e a propagar o Evangelho (Cardeal Crescenzio Sepe).
  • Não se pode entender a vida cristã sem o Espírito Santo: não seria cristã. Seria uma vida religiosa, pagã, piedosa, que crê em Deus, mas sem a vitalidade que Jesus quer para os seus discípulos. E o que dá a vitalidade é a presença do Espírito Santo em nós (Papa Francisco). 
  • No Pentecostes, o Espírito faz os Apóstolos saírem de si mesmos e transforma-os em anunciadores das maravilhas de Deus, que cada um começa a entender na própria língua (Papa Francisco).
  • O Espírito Santo, já operante na criação do mundo e na Antiga Aliança, revela-Se na Encarnação e na Páscoa do Filho de Deus, e como que «explode» no Pentecostes para prolongar, no tempo e no espaço, a missão de Cristo Senhor (São João Paulo II).
  • Do Filho de Deus morto e ressuscitado, que voltou para o Pai, emana agora sobre a humanidade com energia inédita o sopro divino, o Espírito Santo (Bento XVI).
  • A Maria, primeira discípula de Cristo, Esposa do Espírito Santo e Mãe da Igreja, que acompanhou os Apóstolos no primeiro Pentecostes, dirigimos o nosso olhar para que nos ajude a aprender do seu Fiat a docilidade à voz do Espírito (São João Paulo II).
  • A experiência do Espírito Santo no Pentecostes levou a Igreja a descobrir a figura de Jesus e os seus ensinamentos. O Paráclito, prometido por Jesus, conduz os discípulos à “verdade plena” sobre o Pai e o Filho (Frei Raniero Cantalamessa).
  • O Espírito Santo é a alma da Igreja. Sem Ele, ao que se reduziria ela? Sem dúvida, seria um grande movimento histórico, uma instituição social complexa e sólida, talvez uma espécie de agência humanitária. E na verdade é assim que a julgam quantos a consideram fora de uma perspectiva de fé. Na realidade, porém, na sua verdadeira natureza e também na sua mais autêntica presença histórica, a Igreja é incessantemente plasmada e orientada pelo Espírito do seu Senhor. É um corpo vivo, cuja vitalidade é precisamente o fruto do invisível Espírito divino (Bento XVI).
 
Entrevista com D. António Vitalino, Bispo Emérito de Beja

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D. António Vitalino Dantas, actualmente Bispo Emérito de Beja, ao pedido de “Família Carmelita”, ele que pertence à Ordem do Carmo, acedeu prontamente a responder às perguntas que lhe foram colocadas, norteadas por uma espécie de balanço do seu ministério episcopal, primeiro no Patriarcado de Lisboa e depois na Diocese Beja. O seu testemunho é importante para nos fazer entrar na vida de um Bispo, nos seus múltiplos afazeres e responsabilidades. 

D. António Vitalino, pode dar-nos os marcos mais importantes do seu percurso de Bispo até hoje? 

Estimados leitores da “Família Carmelita”, da qual sou membro professo desde 1961, é com muito prazer que, a pedido do confrade Padre Manuel Castro, partilho com a família alguns traços do meu percurso como bispo desde 1996, primeiro como bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa e desde 1999 como bispo residencial de Beja.

Como bispo auxiliar do Patriarcado aprendi muito do que significa ser bispo, a partir de D. António Ribeiro, o Patriarca de então e dos seus bispos auxiliares meus colegas e também a partir do clero e dos fiéis leigos, sobretudo da zona do Oeste, que me foi destinada e dos membros da vida consagrada e dos movimentos, sem esquecer a pastoral familiar, um dos serviços que o Patriarca me pediu para acompanhar.

Estava quase como peixe na água, quando o Papa de então, agora S. João Paulo II, me nomeou para a diocese de Beja, uma das mais descristianizadas e pobres de Portugal. Como sempre quis ser missionário e os carmelitas já estavam a trabalhar nessa diocese, além de nela ter sido fundado o primeiro convento da Ordem do Carmo em território português, em Moura, onde S. Nuno Álvares Pereira, na altura fronteiro mor do Alentejo, conheceu os carmelitas, que depois levou para o convento do Carmo, em Lisboa, por ele fundado. Assumi, pois, com muita alegria e entusiasmo a nova missão. Aí encontrei um bispo antecessor sábio e santo, D. Manuel Falcão, atuando nela desde 1975 e a quem pedi para continuar a residir na casa episcopal e assim fazer comunidade comigo, habituado a viver em comunidades carmelitas. Procurei dar continuidade ao trabalho realizado pelos meus antecessores, embora sem colocar de parte o cariz pessoal, como pessoa ativa, quase primária, de reações rápidas e frontais, nem sempre a melhor atitude para enfrentar algumas dificuldades. 

Conheceu três Papas: João Paulo II, Bento XVI e o Papa Francisco. O que realça de mais significativo em cada um deles? 

Exerci o meu ministério episcopal em comunhão com três Papas, que marcaram, e continuam a fazê-lo, o nosso mundo e o nosso tempo. Tive a alegria de me ter encontrado longamente com os três e feito relatórios pormenorizados sobre a situação da diocese, a última vez em setembro de 2014. 

Da vivência próxima com outros bispos, nomeadamente em Lisboa e em Beja, o que retém? 

Ninguém nasce ensinado e, para aprendermos e nos enriquecermos, precisamos de abrir-nos aos outros, sobretudo aos mais experientes, e estarmos dispostos a acolher os seus conselhos. Tive a sorte de ter tido bons mestres e bons colegas no episcopado, mas também de ter estado atento às reações do povo, sobretudo dos fiéis, para constatar os efeitos da transmissão da fé pelos meus antecessores, dando continuidade ao que de bom receberam e corrigindo ou aperfeiçoando alguns aspetos, de modo a que pudessem crescer na fé e na comunhão eclesial. 

Você provém do norte, de terras minhotas. Numa entrevista que deu usou a palavra muito significativa “alentejanar-se”. O que quer dizer, em concreto, com o “despir” o seu nortismo, se é que é necessário,  e “alentejanar-se”? 

Embora sendo do Norte de Portugal, do Minho, saí com dez anos dessa região, para ingressar no seminário dos capuchinhos, na região de Coimbra. Depois voltei para o Minho, frequentando durante três anos o seminário Carmelita da Falperra, seguindo depois para outras regiões, inclusive para a Alemanha, em 1966, onde terminei os meus estudos teológicos e depois continuei a trabalhar entre os emigrantes, regressando a Portugal em 1976, passando a residir e trabalhar na paróquia de Santo António dos Cavaleiros, concelho de Loures. Por isso apenas residi no Minho treze dos meus setenta e cinco anos. Mas quem sai aos seus não degenera, sobretudo quando se recebe na infância não apenas o alimento e a linguagem, mas também os bons princípios duma família boa e cristã.

A falar português conservei o sotaque minhoto, para evitar de imitar mal o sotaque dos alentejanos. De resto procurei ser tudo para todos, irmão de todos, para a todos ganhar para Cristo. Isto é o que chamei de alentejanar-me, para poder ser fermento na massa. 

Ao longo dos anos que esteve à frente da Diocese de Beja que dinamismos pastorais pretendeu imprimir à Diocese? 

Quanto aos dinamismos apostólicos procurei seguir o mandato evangélico, ensinando e testemunhando o que Jesus disse e fez. Com S. Paulo, também eu disse muitas vezes para mim mesmo: não posso deixar de anunciar Jesus Cristo e ai de mim se não evangelizar (1 Co 9, 16). Procurei introduzir todos os dinamismos de participação e de comunhão entre o clero e os leigos. Criei ou mantive todos os órgãos de participação prescritos: conselho pastoral, conselho presbiteral, colégio de consultores, conselho económico, chancelaria, vigararia geral, conselhos arciprestais, ecónomo diocesano, etc. e ouvi-los muitas vezes, sempre que necessário. Usei todos os meios de comunicação, analógicos e digitais, orais e por escrita. Percorri toda a diocese, em visitas pastorais e outras esporádicas. Sobretudo realizamos o primeiro sínodo diocesano, após várias consultas aos presbíteros e aos leigos. Fomentei a entre-ajuda na província eclesiástica de Évora, desde os vários graus de formação do clero, inicial e permanente, assim como o tribunal e o seminário interdiocesanos. Tendo ordenado 19 presbíteros nos 17 anos como bispo de Beja, nenhum abandonou o ministério, a não ser pela morte. Felizmente o número de mortes entre o clero foi inferior ao número de ordenações. Também procurei que os institutos de vida consagrada marcassem presença na diocese. Quando algum instituto deixava de estar presente na diocese, procurava encontrar outro para a missão diocesana. 

Às vezes ouve-se dizer (com razão ou sem razão) que “este”, “aquele”, querem (desejam) ser bispos. Quem pensa assim pode-se aplicar a frase de Jesus: “Não sabeis o que estais a pedir (desejar)”? Que dificuldades sentiu ao longo da sua caminhada até hoje como Bispo? 

Quanto a isso penso como Jesus. O meu lema de diácono foi e mantém-se: somos servos inúteis, só fizemos o que devíamos (Lc 17, 10). Se em alguns períodos da história da Igreja se olhava para os bispos como senhores e quem deseja o poder o quisesse ser, no entanto isso não é evangélico nem cristão. Os ministérios na Igreja são para o serviço e não para o prestígio pessoal e o poder. 

O D. António Vitalino é Carmelita. De que modo o seu ser Carmelita influenciou o exercício do seu ministérrio episcopal? 

Confesso que não sei responder a esta pergunta. Ninguém dá o que não tem ou não recebeu. Há muitas facetas que definem o carisma Carmelita, mas não sei se as assimilei todas. Uma coisa é certa: procurei exercer a minha missão de modo conatural, sem fingimentos artificiais, mas com naturalidade. 

A Ordem Carmelita está presente no Alentejo desde o século XIII. Sente-se a sua influência, por exemplo, no amor a Nossa Senhora do Carmo, etc.? 

Creio que os alentejanos, embora não sendo de numerosa prática da vida sacramental da Igreja, no entanto são muito marianos. A padroeira de Portugal, a Imaculada Conceição, tem o seu santuário em Vila Viçosa. São Nuno de Santa Maria, quando era fronteiro mor do Alentejo, foi no convento Carmelita de Moura que se recolhia e orava. Aí fez o propósito de construir um convento em honra de Nossa Senhora do Carmo e para lá levar os carmelitas de Moura. Pena que os carmelitas não sejam mais numerosos, para marcar maior presença entre o povo alentejano. 

Como perspectiva agora o seu futuro? 

O futuro a Deus pertence, costumo dizer, repetindo um dito comum. Mas, se Deus me conceder o bom senso até deixar as responsabilidades como Bispo de Beja, pretendo regressar a uma comunidade Carmelita, embora sem voz ativa nem passiva, como é normal, para com os confrades da comunidade orar e colaborar pastoralmente naquilo que me for pedido e as energias possibilitem corresponder. Depois de vinte anos com responsabilidades episcopais, a viver fora de uma comunidade Carmelita, anseio por voltar ao ambiente de onde vim, contando com o apoio da Ordem e dos confrades. Agradeço ao Comissariado da Ordem do Carmo em Portugal por me ter acolhido na comunidade de Fátima. 

Quer deixar nas páginas de “Família Carmelita” algo que quer comunicar de modo especial? 

Aos leitores da "Família Carmelita", de que também faço parte, um sentido obrigado pela estima que nutrem pela família e que nunca deixem de viver e praticar as três palavras de que fala o Papa Francisco, essenciais para aprofundar a pertença a esta família: por favor, desculpe e muito obrigado. Eu acrescentaria uma outra palavra, para aprofundarmos a nossa identidade de cristãos e membros da família Carmelita: que Nossa Senhora do Carmo esteja sempre na nossa boca e no nosso coração. 

D. António Vitalino, muito mais poderíamos conversar mas para agora o que partilhou connosco e através de nós com os nossos Amigos e leitores da revista "Família Carmelita" é suficiente. Bem-haja, D. António Vitalino. 

Fr. Manuel Castro, O. Carm.

 
Papa Francisco em Fátima

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Bênção das velas. Saudação do Santo Padre 

 

Amados peregrinos de Maria e com Maria!

 

Obrigado por me acolherdes entre vós e vos associardes a mim nesta peregrinação vivida na esperança e na paz. Desde já desejo assegurar a quantos estais unidos comigo, aqui ou em qualquer outro lugar, que vos tenho a todos no coração. Sinto que Jesus vos confiou a mim (cf. Jo 21, 15-17) e, a todos, abraço e confio a Jesus, «principalmente os que mais precisarem» ― como Nossa Senhora nos ensinou a rezar (Aparição de julho de 1917). Que Ela, Mãe doce e solícita de todos os necessitados, lhes obtenha a bênção do Senhor! Sobre cada um dos deserdados e infelizes a quem roubaram o presente, dos excluídos e abandonados a quem negam o futuro, dos órfãos e injustiçados a quem não se permite ter um passado, desça a bênção de Deus encarnada em Jesus Cristo: «O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te favoreça! O Senhor volte para ti a sua face e te dê a paz» (Nm 6, 24-26).


Esta bênção cumpriu-se cabalmente na Virgem Maria, pois nenhuma outra criatura viu brilhar sobre si a face de Deus como Ela, que deu um rosto humano ao Filho do eterno Pai, podendo nós agora contemplá-Lo nos sucessivos momentos gozosos, luminosos, dolorosos e gloriosos da sua vida, que repassamos na recitação do Rosário. Com Cristo e Maria, permaneçamos em Deus. Na verdade, «se queremos ser cristãos, devemos ser marianos; isto é, devemos reconhecer a relação essencial, vital e providencial que une Nossa Senhora a Jesus e que nos abre o caminho que leva a Ele» (Paulo VI, Alocução na visita ao Santuário de Nossa Senhora de Bonaria-Cagliari, 24/IV/1970). Assim, sempre que rezamos o Terço, neste lugar bendito como em qualquer outro lugar, o Evangelho retoma o seu caminho na vida de cada um, das famílias, dos povos e do mundo.


Peregrinos com Maria… Qual Maria? Uma «Mestra de vida espiritual», a primeira que seguiu Cristo pelo caminho «estreito» da cruz dando-nos o exemplo, ou então uma Senhora «inatingível» e, consequentemente, inimitável? A «Bendita por ter acreditado» (cf. Lc 1, 42.45) sempre e em todas as circunstâncias nas palavras divinas, ou então uma «Santinha» a quem se recorre para obter favores a baixo preço? A Virgem Maria do Evangelho venerada pela Igreja orante, ou uma esboçada por sensibilidades subjetivas que A veem segurando o braço justiceiro de Deus pronto a castigar: uma Maria melhor do que Cristo, visto como Juiz impiedoso; mais misericordiosa que o Cordeiro imolado por nós?


Grande injustiça fazemos a Deus e à sua graça, quando se afirma em primeiro lugar que os pecados são punidos pelo seu julgamento, sem antepor – como mostra o Evangelho – que são perdoados pela sua misericórdia! Devemos antepor a misericórdia ao julgamento e, em todo o caso, o julgamento de Deus será sempre feito à luz da sua misericórdia. Naturalmente a misericórdia de Deus não nega a justiça, porque Jesus tomou sobre Si as consequências do nosso pecado juntamente com a justa pena. Não negou o pecado, mas pagou por nós na Cruz. Assim, na fé que nos une à Cruz de Cristo, ficamos livres dos nossos pecados; ponhamos de lado qualquer forma de medo e temor, porque não se coaduna em quem é amado (cf. 1 Jo 4, 18). «Sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do carinho. Nela vemos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentirem importantes (…). Esta dinâmica de justiça e de ternura, de contemplação e de caminho ao encontro dos outros é aquilo que faz d’Ela um modelo eclesial para a evangelização» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 288). Possamos, com Maria, ser sinal e sacramento da misericórdia de Deus que perdoa sempre, perdoa tudo.Tomados pela mão da Virgem Mãe e sob o seu olhar, podemos cantar, com alegria, as misericórdias do Senhor. Podemos dizer-Lhe: A minha alma canta para Vós, Senhor! A misericórdia, que usastes para com todos os vossos santos e com todo o vosso povo fiel, também chegou a mim. Pelo orgulho do meu coração, vivi distraído atrás das minhas ambições e interesses, mas não ocupei nenhum trono, Senhor! A única possibilidade de exaltação que tenho é que a vossa Mãe me pegue ao colo, me cubra com o seu manto e me ponha junto do vosso Coração. Assim seja.

 

Capelinha das Aparições, Fátima, 12 de maio de 2017

 

 

Homilia do Papa Francisco na Missa de canonização dos pastorinhos de Fátima 

 

«Apareceu no Céu (…) uma mulher revestida de sol»: atesta o vidente de Patmos no Apocalipse (12, 1), anotando ainda que ela «estava para ser mãe». Depois ouvimos, no Evangelho, Jesus dizer ao discípulo: «Eis a tua Mãe» (Jo 19, 26-27). Temos Mãe! Uma «Senhora tão bonita»: comentavam entre si os videntes de Fátima a caminho de casa, naquele abençoado dia treze de maio de há cem anos atrás. E, à noite, a Jacinta não se conteve e desvendou o segredo à mãe: «Hoje vi Nossa Senhora». Tinham visto a Mãe do Céu. Pela esteira que seguiam os seus olhos, se alongou o olhar de muitos, mas… estes não A viram. A Virgem Mãe não veio aqui, para que A víssemos; para isso teremos a eternidade inteira, naturalmente se formos para o Céu.


Mas Ela, antevendo e advertindo-nos para o risco do Inferno onde leva a vida – tantas vezes proposta e imposta – sem-Deus e profanando Deus nas suas criaturas, veio lembrar-nos a Luz de Deus que nos habita e cobre, pois, como ouvíamos na Primeira Leitura, «o filho foi levado para junto de Deus» (Ap 12, 5). E, no dizer de Lúcia, os três privilegiados ficavam dentro da Luz de Deus que irradiava de Nossa Senhora. Envolvia-os no manto de Luz que Deus Lhe dera. No crer e sentir de muitos peregrinos, se não mesmo de todos, Fátima é sobretudo este manto de Luz que nos cobre, aqui como em qualquer outro lugar da Terra quando nos refugiamos sob a proteção da Virgem Mãe para Lhe pedir, como ensina a Salve Rainha, «mostrai-nos Jesus».


Queridos peregrinos, temos Mãe. Agarrados a Ela como filhos, vivamos da esperança que assenta em Jesus, pois, como ouvíamos na Segunda Leitura, «aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo» (Rm 5, 17). Quando Jesus subiu ao Céu, levou para junto do Pai celeste a humanidade – a nossa humanidade – que tinha assumido no seio da Virgem Mãe, e nunca mais a largará. Como uma âncora, fundemos a nossa esperança nessa humanidade colocada nos Céus à direita do Pai (cf. Ef 2, 6). Seja esta esperança a alavanca da vida de todos nós! Uma esperança que nos sustente sempre, até ao último respiro.


Com esta esperança, nos congregamos aqui para agradecer as bênçãos sem conta que o Céu concedeu nestes cem anos, passados sob o referido manto de Luz que Nossa Senhora, a partir deste esperançoso Portugal, estendeu sobre os quatro cantos da Terra. Como exemplo, temos diante dos olhos São Francisco Marto e Santa Jacinta, a quem a Virgem Maria introduziu no mar imenso da Luz de Deus e aí os levou a adorá-Lo. Daqui lhes vinha a força para superar contrariedades e sofrimentos. A presença divina tornou-se constante nas suas vidas, como se manifesta claramente na súplica instante pelos pecadores e no desejo permanente de estar junto a «Jesus Escondido» no Sacrário.


Nas suas Memórias (III, n. 6), a Irmã Lúcia dá a palavra à Jacinta que beneficiara duma visão: «Não vês tanta estrada, tantos caminhos e campos cheios de gente, a chorar com fome, e não tem nada para comer? E o Santo Padre numa Igreja, diante do Imaculado Coração de Maria, a rezar? E tanta gente a rezar com ele?» Irmãos e irmãs, obrigado por me acompanhardes! Não podia deixar de vir aqui venerar a Virgem Mãe e confiar-lhe os seus filhos e filhas. Sob o seu manto, não se perdem; dos seus braços, virá a esperança e a paz que necessitam e que suplico para todos os meus irmãos no Batismo e em humanidade, de modo especial para os doentes e pessoas com deficiência, os presos e desempregados, os pobres e abandonados. Queridos irmãos, rezamos a Deus com a esperança de que nos escutem os homens; e dirigimo-nos aos homens com a certeza de que nos vale Deus.


Pois Ele criou-nos como uma esperança para os outros, uma esperança real e realizável segundo o estado de vida de cada um. Ao «pedir» e «exigir» o cumprimento dos nossos deveres de estado (carta da Irmã Lúcia, 28/II/1943), o Céu desencadeia aqui uma verdadeira mobilização geral contra esta indiferença que nos gela o coração e agrava a miopia do olhar. Não queiramos ser uma esperança abortada! A vida só pode sobreviver graças à generosidade de outra vida. «Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto» (Jo 12, 24): disse e fez o Senhor, que sempre nos precede. Quando passamos através dalguma cruz, Ele já passou antes. Assim, não subimos à cruz para encontrar Jesus; mas foi Ele que Se humilhou e desceu até à cruz para nos encontrar a nós e, em nós, vencer as trevas do mal e trazer-nos para a Luz.


Sob a proteção de Maria, sejamos, no mundo, sentinelas da madrugada que sabem contemplar o verdadeiro rosto de Jesus Salvador, aquele que brilha na Páscoa, e descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor.

 

Santuário de Nossa Senhora do Rosário Fátima, 13 de Maio de 2017

 
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