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O Carmelo

"O Carmelo é uma riqueza

para todas as comunidades cristãs".

(João Paulo II)

  

 A Ordem Carmelita é uma Ordem Religiosa Católica de Homens e Mulheres que, inspirados pelo espírito do Profeta Elias e da Bem-Aventurada Virgem Maria, tentam viver uma vida no seguimento de Jesus Cristo através da Contemplação, Fraternidade e Serviço no meio do povo.

 

 

 
Seja bendito para sempre, que tanto me esperou

SEJA BENDITO PARA SEMPRE, QUE TANTO ME ESPEROU

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Carta dos Priores Gerais O. Carm. e O.C.D.,

por motivo do Jubileu da Misericórdia 

Às irmãs e irmãos da Família do Carmelo,

Paz!

No passado 11 de Junho, acompanhados dos nossos respectivos conselheiros e definidores gerais, atravessámos juntos a Porta Santa.

Pela mão da Mãe da Misericórdia, sob a doçura do olhar da nossa Irmã e Senhora, a Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, também nós realizámos uma peregrinação, manifestando assim o nosso compromisso e sacrifício em vista de alcançar a meta da misericórdia, o nosso desejo de nos convertermos para poder ser misericordiosos como o Pai o é para connosco (cf. Misericordiae vultus - MV- 14).

Entrámos na Basílica de São Pedro, no Vaticano, como no santuário da misericórdia, para nos encontrarmos com a Misericórdia feita carne, desejosos de participar intimamente, como a Virgem Maria, no mistério do amor divino: Jesus Cristo (cf. MV 24).

Com Ela, ao atravessar a Porta Santa, cantamos a misericórdia do Senhor que, na vida da nossa  Família, se estende e é patente “de geração em geração” (Lc 1,50; cf. MV 24). Chamados a viver “em obséquio de Jesus Cristo, servindo-O lealmente com o coração puro e boa consciência” (Regra, 2), cumprimos com tanta maior fidelidade a nossa vocação na medida em que O conhecemos e nos imergimos no seu mistério Quem melhor do que a nossa Irmã e Senhora nos pode ajudar a realizar esta bela tarefa, Ela que “guardou no seu coração a divina misericórdia em perfeita sintonia com o Seu Filho Jesus” (MV 24)?

“Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai” (MV 1), de modo que se queremos realmente ser um sinal eficaz do agir da Trindade misericordiosa no mundo (cf. MV 2-3), é absolutamente necessário que nos detenhamos a contemplá-l’O, que cresçamos no conhecimento de Cristo Jesus para poder “perceber o amor da Santíssima Trindade” (MV 8). Viver o jubileu da misericórdia, antes de nos empenharmos em trabalhos e actividades em favor dos outros, exige da nossa parte que fixemos o nosso olhar n’Aquele que torna visível e tangível o amor de Deus (cf. ib.). Só olhando-O e meditando os seus gestos e as suas palavras é que poderemos dispor-nos a dar-nos gratuitamente aos outros, a realizar em seu nome sinais de misericórdia e de compaixão com todos. Este é o exemplo que nos deram os nossos Santos, que nos precederam na subida à Santa Montanha do Carmelo: conhecer Cristo para dá-l’O a conhecer e amar.

Nesta carta queremos, portanto, convidar-vos a contemplar Cristo, sabendo que estamos apoiados na Santíssima Virgem, que não afasta de nós os seus olhos misericordiosos, e no testemunho de alguns dos nossos Santos. Queremos que eles nos ajudem a converter-nos para sermos apóstolos do Deus que derrama sobre a nossa Ordem, a Igreja e o mundo a misericórdia que Ele tem e continua a ter para com todos.

Com Santa Maria Madalena de Pazzi - de quem celebramos este ano o 450º aniversário do seu nascimento - aprendemos a conceber a misericórdia como um atributo divino, sinónimo de paz e de reconciliação. Deus fez tudo com uma grande ordem, mas também com uma grandíssima misericórdia, a qual procede do grande e desmedido Amor que tem para com as suas criaturas. A Santa vive-a em toda a sua dimensão, a ponto de não poder expressá-la com palavras (cf. Osquarenta  dias).

Contudo, é na Encarnação do Verbo onde a misericórdia divina se manifesta de modo definitivo. Ela, cujo nome religioso foi “do Verbo Encarnado”, compreende que no seio de Maria, a Mãe da Misericórdia, Deus selou a paz definitiva com o género humano.

Em Cristo, para Santa Maria Madalena, condensa-se toda a misericórdia divina, perceptível em cada um dos seus gestos e palavras: Ele perdoa inclusivamente aos seus discípulos que, dormindo,  abandonam-no no Jardim das Oliveiras, deixado-o só no meio da sua atroz agonia, incapazes de acompanhá-l’O até com a sua oração.

Ao inclinar a sua cabeça na cruz (cf. Jo 19,30), Jesus, unido ao Pai, estendeu este perdão a toda a humanidade, realizando o acto supremo da misericórdia: “O perdão supremo oferecido a quem o crucificou, mostra-nos até onde pode chegar a misericórdia de Deus” (MV 24). Mas a sua obra misericordiosa não termina aqui. Para Santa Maria Madalena o amor de Cristo continua a dar-se a conhecer: “Depois de subir ao céu, à direita do seu Eterno Pai, Jesus continua a manifestar-nos dia após dia a sua misericórdia, que, desde agora até ao dia do Juízo, usará com todas as suas criaturas; e mais grandemente nos demonstra esta virtude da misericórdia suportando tantos pecadores e tantas ofensas que Lhe são feitas” (Os quarenta dias; cf. Os colóquios, 2).

São João da Cruz permite-nos aprofundar e entender ainda mais a dimensão pessoal da misericórdia divina, que não consiste somente em afastar a vista dos nossos defeitos. Pela sua misericórdia, o Pai faz-nos crescer, levanta-nos, convidando-nos a fazer o mesmo com os outros: “Tu, Senhor, voltas com alegria e amor a levantar o que Te ofende, e eu não volto a levantar e a honrar a quem me irrita” (Ditos de luz e amor, 44). Este levantar-nos consiste em elevar-nos à comunhão mais íntima com Ele, como canta a Oração da alma enamorada, que pode ser justamente chamada a oração da misericórdia: “Não me tirarás, Deus meu, o que uma vez me deste em Teu único Filho Jesus Cristo, em que me deste tudo quanto eu quero; por isso folgarei pois não tardarás, se eu confiar (ib, 26).

Habitando em nós, embeleza-nos com obras dignas de si mesmo, permite-nos compartilhar os seus atributos (cf. Chama de amor viva B, 3,6). E isto, sempre através do caminho da contemplação que nos conduz à união com Deus, penetrando na insondável mina de tesouros que é Cristo (cf. Cânticoespiritual B, 37,4).

Para São João da Cruz Deus quer ser nosso, quer dar-se a nós (cf. Chama de amor viva B, 3,6); esse é o sentido profundo da sua misericórdia: “Oh coisa verdadeiramente digna de toda a admiração e alegria: Deus fica preso num cabelo! A causa desta tão importante prisão deve-se ao próprio Deus que quis ficar a olhar o voo do cabelo, como se diz nos versos anteriores, e porque, como também dissemos, o olhar de Deus é amar. Se, pela sua grande misericórdia não nos tivesse olhado e amado primeiro, como diz São João (1 Jo 4,10), e não se abaixasse até nós, o voo do cabelo do nosso baixo amor, não teria feito n'Ele presa alguma, porque não voava suficientemente alto para prender esta divina Ave das alturas. Mas, porque Ele se abaixou para nos olhar, provocou e levantou o voo do nosso amor (cf. Dt 32, 11), dando-nos a coragem e a força para isso.. O próprio Deus ficou preso no voo do cabelo, isto é, Ele mesmo se afeiçoou e encantou e, por isso, se prendeu. É isso o que querem dizer os versos: por no meu colo vê-lo, dele preso ficaste. É bem possível que a ave de voo baixo possa prender a Águia-real das alturas, quando Ela se abaixa querendo ser presa” (CânticoespiritualB, 31,8).

Também Santa Teresa do Menino Jesus compreendeu deste modo a misericórdia, e dela fez a sua experiência pessoal: “Eis aqui, na verdade, o mistério da minha vocação, de toda a minha vida […], dos privilégios que Jesus dispensou à minha alma […], Ele não chama os que são dignos, mas os que lhe agrada, ou como diz São Paulo: Deus tem compaixão de quem quer e usa de misericórdia com quem quer ser misericordioso. Não é, pois, obra de quem quer nem de quem corre, mas de Deus, que usa de misericórdia” (Ms A 2rº).

Ele é a galinha que quer acolher misericordiosamente os seus pintainhos debaixo das suas asas (cf. Últimas conversações, 7 de Junho, 1). O mundo não entende a sua ternura, recusa-a, por isso Teresa lança-se decidida - contra a corrente do seu tempo - nos braços do amor misericordioso, a quem se oferece como vítima, para que Ele não deva “reprimir as ondas de infinita ternura” que deseja derramar sobre a humanidade (cf. Ms A 84rº).

“A mim - confessa na sua autobiografia - [Deus] deu-me a sua misericórdia infinita, e é através dela que contemplo e adoro as outras perfeições divinas. Então todas se me apresentam radiantes de amor, inclusive a justiça […] Que doce alegria pensar que o Bom Deus é Justo!, ou seja, que tem em conta as nossas debilidades, que conhece perfeitamente a fragilidade da nossa alma” (ib. 83vº-84rº).

Teresa não fala apoiada na ciência ou no conhecimento humano. Narra a sua própria experiência. A experiência de um Amor que se abaixa ao mais pobre do coração humano, que o cura e o levanta sem ter em conta nem as suas misérias nem os seus delitos. Amor que ela se empenhará em dar a conhecer, sentando-se mesmo na mesa dos pecadores, dos não crentes (cf. Ms C 6rº), fazendo-nos compreender uma vez mais que só quem experimenta a Misericórdia que é Cristo pode ser misericordioso como o Pai.

Assim se nos mostra o Beato Tito Brandsma. Para ele, a experiência de Deus não é privilégio de uma elite espiritual: todos estão chamados a gozar a comunhão e a união íntima com o Deus misericordioso. Ele dá-Se sem medida e só espera o acolhimento do coração humano, adaptando-se às nossas condições concretas, sem recusar nada da nossa natureza assumindo inclusivamente o pecado para nos redimir e nos exaltar, como nos mostrou na Encarnação. É necessário crescer cada dia na compreensão deste Mistério para poder adorá-lo não só no nosso interior, mas em tudo o que existe e, principalmente, no próximo, a cujo serviço devemos estar nas realidades concretas.

Tito dá exemplo disto mesmo com a sua própria vida: apesar de ser chamado a desempenhar importantes cargos, nada foi mais primordial para ele do que prestar atenção aos que necessitavam de ajuda, através do diálogo, a capacidade de reconciliação e a dedicação pastoral, entendida como desejo de levar Cristo aos mais necessitados.

A sua solidariedade com o povo judeu quando o governo de ocupação alemão estabeleceu na Holanda medidas anti-semitas, funda-se no seu amor à misericórdia e à justiça. Sem temer as consequências, põe-se do lado dos desesperados, quer dar voz àqueles a quem lhes foi tirada, defende igualmente a liberdade da imprensa católica frente às imposições totalitaristas do nazismo.

Tudo isto conduziu-o, por fim, também a ele a ser levado para os campos de concentração, onde sofre, padecimentos e humilhações, mas continua também aí a ser apóstolo da compaixão e reconciliação: partilhando a escassa ração de comida com os outros, animando todos, escutando confissões, inclusivamente de alguns dos seus guardas. Como afirmara: “meditar sobre a  inesgotável misericórdia de Deus prevenir-nos de cair no desespero”.

No fim da sua vida, imitando Jesus misericordioso que pregado na cruz perdoou aos seus inimigos, Tito foi também o rosto da misericórdia mesmo para com a enfermeira que acabou com a sua vida, como ela mesma confessou anos mais tarde na sua declaração feita sob segredo, oferecendo-lhe o seu terço antes de morrer.

Irmãs e irmãos: apoiando-nos nestes - e em tantos outros - testemunhos da nossa Família, podemos aventurar-nos a cruzar com alegria a Porta Santa deste ano jubilar. Sigamos corajosamente os seus passos, façamos crescer a nossa comunhão com Cristo, aumentemos o nosso amor para com Ele e confessemos todos os dias o Amor que Ele tem por nós. Dêmo-l’O a conhecer e a amar. Este é o modo através do qual na Família do Carmelo deve ser vivida a misericórdia, particularmente num ano especial como este.

Sim, com a nossa Irmã e Madre Teresa de Jesus também nós queremos dizer: Seja bendito para sempre, o que tanto nos espera! Aprendemos com ela a contar a todos como o Senhor é bom e grande.

Quando, ao descrever nas Sétimas Moradas o dom total de Deus à pessoa, a sua pena detém-se ante o abismo do inefável, do que não se pode contar, é o seu desejo de narrar a todos a bondade de Deus que a impulsiona a dar o salto e continuar a escrever.

E tudo isto para nos dizer que não há outro modo de ser de veras espirituais, senão alegrando o Pai e sendo escravos de Cristo, o que conseguiremos na medida em que levemos alegria aos outros e nos tornemos seus servidores, tornando patente o nosso amor a Deus e aos irmãos através das obras (cf. Castelo interior, 7, 4).

Deus queira que, pela intercessão da nossa Irmã, a Bem-aventurada Virgem do Monte Carmelo e a do seu Esposo São José, nosso Pai e Senhor, o coração da Família do Carmelo continue a arder no fogo do conhecimento e do amor a Cristo Jesus, para que todos nós que fazemos parte dela, impulsionados pelo Santo Espírito, sejamos apóstolos da Trindade misericordiosa, comunicando-a a todos através das obras e das palavras.

Os vossos irmãos:

Fr. Fernando Millán, O.Carm., Prior Geral

Fr. Saverio Cannistrà, O.C.D., Prepósito Geral

 
XVIII Domingo do Tempo Comum - Ano C

18º DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO C)

31 de Julho de 2016

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 12, 13-21)

13Dentre a multidão, alguém lhe disse: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo.» 14Ele respondeu-lhe: «Homem, quem me nomeou juiz ou encarregado das vossas partilhas?» 15E prosseguiu: «Olhai, guardai-vos de toda a ganância, porque, mesmo que um homem viva na abundância, a sua vida não depende dos seus bens.»

16Disse-lhes, então, esta parábola: «Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. 17E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: 'Que hei-de fazer, uma vez que não tenho onde guardar a minha colheita?' 18Depois continuou: 'Já sei o que vou fazer: deito abaixo os meus celeiros, construo uns maiores e guardarei lá o meu trigo e todos os meus bens. 19Depois, direi a mim mesmo: Tens muitos bens em depósito para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te.' 20Deus, porém, disse-lhe: 'Insensato! Nesta mesma noite, vai ser reclamada a tua vida; e o que acumulaste para quem será?' 21Assim acontecerá ao que amontoa para si, e não é rico em relação a Deus.»

Contexto

Mais uma vez encontramo-nos com um dos temas favoritos de Lucas: o combate à ganância, em todas as suas formas, especialmente dentro da comunidade dos discípulos de Jesus. A parábola de hoje só se encontra neste Evangelho, sublinhando assim o interesse de Lucas pelo assunto.

Ressoa com todas as letras a advertência de Jesus dirigida os seus discípulos: “Olhai, guardai-vos de toda a ganância”. Com certeza, a caminhada de mais ou menos cinquenta anos das comunidades cristãs, até à data do escrito de Lucas, tinha mostrado que os cristãos não estavam isentos da tentação da acumulação de bens, e do individualismo. Importa realçar que o Evangelho não nega o valor nem a necessidade dos bens materiais. Afinal, sem eles não seria possível ter uma vida digna e humana, o que Deus quer para todos os seus filhos e filhas. A luta não é contra os bens, mas contra a ganância, o egoísmo, a acumulação, a confiança no aumento dos bens como valor supremo das nossas vidas.

A pergunta que Jesus faz: “E e o que acumulaste para quem será?, levanta a pergunta fundamental que todos nós temos que responder: qual é o sentido da nossa vida? O que é realmente importante? Sobre o que baseamos a nossa felicidade? Tudo passará, tudo acabará. É uma tolice fundamentar a nossa felicidade sobre algo que necessariamente vai acabar. Podemos construir as nossas vidas sobre areia movediça, sem firmeza, ou sobre a rocha firme e imutável. Sobre coisas efémeras, ou sobre Deus e o seu projecto de solidariedade, fraternidade e partilha. A escolha é nossa!

Contra a insensatez 

Cada vez sabemos mais sobre a situação social e económica que Jesus conheceu na Galileia dos anos trinta. Enquanto nas cidades de Séforis e Tiberíades crescia a riqueza, nas aldeias aumentava a fome e a miséria. Os camponeses ficavam sem terra e os latifundiários construíam silos e celeiros cada vez maiores.

No pequeno relato conservado por Lucas, Jesus revela o que pensa daquela situação tão contrária ao projecto desejado por Deus de um mundo mais humano para todos. Não narra esta parábola para denunciar os abusos e ultrajes cometidos pelos latifundiários, mas para desmascarar a loucura, a insensatez em que vivem instalados.

Um rico agricultor vê-se surpreendido por uma grande colheita. Não sabe como administrar tanta abundância. “O que farei?”. O seu monólogo revela-nos a lógica sem sentido dos poderosos que somente vivem para acumular riqueza e bem-estar, excluindo de seu horizonte os necessitados.

O rico da parábola planeia a sua vida e toma decisões. Destruirá os velhos celeiros e construirá outros maiores. Armazenará ali toda a sua colheita. Pode acumular bens para muitos anos. Daqui em diante, só viverá para desfrutar: “descansa, come, bebe e regala-te”. De forma inesperada, Deus interrompe os seus projectos: “Insensato! Nesta mesma noite, vai ser reclamada a tua vida; e o que acumulaste para quem será?”.

Este homem reduz a sua existência a desfrutar da abundância dos seus bens. No centro da sua vida está, somente, ele e o seu bem-estar. Deus está ausente. Os jornaleiros que trabalham diariamente as suas terras não existem. As famílias das aldeias que lutam contra a fome não contam. O juízo de Deus é inequívoco: esta vida é só loucura e insensatez.

Actualmente, praticamente em todo o mundo está a aumentar, de modo alarmante, a desigualdade. Este é o facto mais sombrio e desumano: “os ricos, sobretudo os mais ricos, vão-se tornando ainda mais ricos, enquanto os pobres, sobretudo os mais pobres, vão-se transformando em mais pobres, ainda” (Zygmunt Bauman).

Este facto não é normal. É, simplesmente, a última consequência da insensatez mais grave que os seres humanos estão a cometer: substituir a cooperação amiga, a solidariedade e a busca do bem comum da Humanidade pela competição, a rivalidade e a acumulação de bens nas mãos dos mais poderosos do planeta. 

Lucidez de Jesus

Uma das características que mais chama a atenção na pregação de Jesus, é a lucidez com que soube desmascarar o poder alienante e desumanizador que se encerra nas riquezas.

A visão de Jesus não é a de um moralista que se preocupa em saber como adquirimos os nossos bens e como os usamos. O risco de quem vive desfrutando das suas riquezas é esquecer a sua condição de filho de um Deus Pai e irmão de todos. 

Daí o seu grito de alerta: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. Não podemos ser fiéis a um Deus Pai que busca justiça, solidariedade e fraternidade para todos e, ao mesmo tempo, vivermos voltados para os nossos bens e riquezas.

O dinheiro pode dar poder, fama, prestígio, segurança, bem-estar... porém, na medida em que escraviza a pessoa, fecha-a para Deus Pai, faz-lhe esquecer a sua condição de irmão e leva-a a romper a solidariedade com os outros. Deus não pode reinar na vida de quem está dominado pelo dinheiro.

A raiz profunda está em que as riquezas despertam em nós o desejo insaciável de ter sempre mais. E, então, cresce na pessoa a necessidade de acumular, capitalizar e possuir sempre mais e mais. Jesus considera como uma verdadeira loucura a vida daqueles latifundiários da Palestina, obcecados por armazenar as suas colheitas em celeiros cada vez maiores. É uma loucura dedicar as melhores energias e esforços em adquirir e acumular riquezas.

Quando, finalmente, Deus se aproxima para recolher a sua vida, torna-se claro que ele desperdiçou-a. A sua vida carece de conteúdo e valor. “Insensato ...”. “Assim acontecerá ao que amontoa para si, e não é rico em relação a Deus”.

Palavra para o caminho

A orientação da nossa vida é PARA NÓS MESMOS ou PARA DEUS? Recebemos a vida, os outros, a riqueza como um DOM e um EMPRÉSTIMO, de que devemos responder a cada momento, ou pensamos que somos DONOS de todos e de tudo, registando logo todos e tudo em nosso nome, nossa propriedade para nosso uso, consumo e satisfação exclusivos?

Quando o coração está cheio de cobiça, de avareza, de egoísmo, quando a vida se torna um combate obsessivo pelo “ter”, quando o verdadeiro motor da vida é a ânsia de acumular, o homem torna-se insensível aos outros e a Deus; é capaz de explorar, de escravizar o irmão, de cometer injustiças, a fim de ampliar a sua conta bancária. Torna-se orgulhoso e auto-suficiente, incapaz de amar, de partilhar, de se preocupar com os outros… Fica, então, à margem do Reino.

Atenção: esta parábola não se destina apenas àqueles que têm muitos bens; mas destina-se a todos aqueles que (tendo muito ou pouco) vivem obcecados com os bens, orientam a sua vida no sentido do “ter” e fazem dos bens materiais os deuses que condicionam a sua vida e o seu agir.

“A crise económica que estamos a sofrer é uma “crise de ambição”: os países ricos, os grandes bancos, os poderosos da terra… temos querido viver acima das nossas possibilidades, sonhando com acumular bem-estar sem limite algum e esquecendo cada vez mais os que se afundam na pobreza e na fome. Mas, de repente a nossa segurança veio-se abaixo.

Esta crise não é uma mais. É um “sinal dos tempos” que temos de ler à luz do evangelho. Não é difícil escutar a voz de Deus no fundo das nossas consciências: “Basta já de tanta insensatez e tanta falta de solidariedade cruel”. Nunca superaremos as nossas crises económicas sem lutar por uma mudança profunda do nosso estilo de vida: temos de viver de forma mais austera; temos de partilhar mais o nosso bem-estar” (J. A. Pagola).

 
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