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Santos Carmelitas

Bem vindo!

"O Carmelo é uma riqueza para todas as comunidades cristãs" - João Paulo II.

A Ordem Carmelita é uma Ordem Religiosa Católica de Homens e Mulheres que, inspirados pelo espírito do Profeta Elias e da Bem-Aventurada Virgem Maria, tentam viver uma vida no seguimento de Jesus Cristo através da Contemplação, Fraternidade e Serviço no meio do povo.

A nossa vocação é a Fraternidade com os homens feita Oração, Trabalho e Eucaristia.

 
Domingo da Ascensão

DOMINGO DA ASCENSÃO (ANO B - Mc 16, 9-20)

20 de Maio de 2012

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Mc 16, 9-20)

 

9 Tendo ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana, Jesus apareceu primeiramente a Maria de Magdala, da qual expulsara sete demónios. 10 Ela foi anunciá-lo aos que tinham sido seus companheiros, que viviam em luto e em pranto. 11 Mas eles, ouvindo dizer que Jesus estava vivo e fora visto por ela, não acreditaram. 12 Depois disto, Jesus apareceu com um aspecto diferente a dois deles que iam a caminho do campo. 13 Eles voltaram para trás a fim de o anunciar aos restantes. E também não acreditaram neles. 14 Apareceu, finalmente, aos próprios Onze quando estavam à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e a dureza de coração em não acreditarem naqueles que o tinham visto ressuscitado. 15 E disse-lhes: «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura. 16 Quem acreditar e for baptizado será salvo; mas, quem não acreditar será condenado. 17 Estes sinais acompanharão aqueles que acreditarem: em meu nome expulsarão os demónios, falarão línguas novas, 18 apanharão serpentes com as mãos e, se beberem algum veneno mortal, não sofrerão nenhum mal; hão-de impor as mãos aos doentes e eles ficarão curados». 19 Então, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi arrebatado ao céu e sentou-se à direita de Deus. 20 Eles, partindo, foram pregar por toda a parte; o Senhor cooperava com eles, confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam.

 

Uma chave de leitura

 

A liturgia desta festa da Ascensão coloca diante de nós uma cena em que Jesus aparece aos discípulos e lhes confere a missão de ir pelo mundo inteiro, para anunciar a Boa Nova. O texto do Evangelho de Marcos (Mc 16, 9-20) é a parte final do apêndice. Durante a leitura do texto coloquemos a atenção neste ponto: “A quem aparece Jesus, quais são os diversos aspectos da missão e quais são os sinais da sua presença na comunidade?”.

 

Algumas perguntas para nos ajudar na meditação e na oração

- Qual o ponto deste texto que mais gostaste e mais te chamou a atenção? Porquê?

- Quem são as pessoas a quem Jesus aparece e como reagem?

- No texto que lemos quem tem mais dificuldade em acreditar na ressurreição?

- São Paulo diz: “Com Jesus Deus também nos ressuscitou e nos fez sentar nos céus” (Ef 2, 6). De que modo esta afirmação nos ajuda a compreender melhor o significado da Ascensão?- Quais são os sinais da presença de Jesus nas comunidades? Qual é o significado de cada sinal?

- Hoje, quais são os sinais que melhor convencem as pessoas acerca da presença de Jesus no meio de nós?

Comentário do texto

 

Marcos 16, 9-11: Jesus aparece a Maria de Magdala mas os outros discípulos não acreditam. Jesus aparece em primeiro lugar a Maria de Magdala e ela vai anunciar aos outros. Para vir ao mundo Deus quer depender do Sim de Maria de Nazaré (Lc 1, 38). Para ser reconhecido como o Vivente no meio de nós, quer depender do anúncio de Maria de Magdala que tinha sido libertada de sete demónios. Marcos diz que Jesus apareceu em primeiro lugar a Maria de Magdala. Nisto está de acordo com os outros três evangelistas (cfr. Mt 28, 9-10; Jo 20, 16; Lc 24, 9-11). Mas na lista das aparições transmitida pela Carta aos Coríntios (1Cor 15, 3-8) não aparecem aparições a mulheres. Os primeiros cristãos tiveram dificuldade em acreditar nos testemunhos das mulheres.

 

Marcos 16, 14: Jesus repreende a incredulidade dos Onze. Aparece finalmente aos Onze discípulos reunidos à mesa e repreende-os por causa da sua incredulidade por não acreditarem nas pessoas que o tinham visto ressuscitado. Pela terceira vez, Marcos refere-se à resistência dos discípulos em acreditar no testemunho daqueles ou aquelas que experimentaram a ressurreição de Jesus. Qual será o motivo desta insistência de Marcos ao mencionar a incredulidade dos discípulos? Provavelmente para ensinar duas coisas. Primeiro, que a fé em Jesus ressuscitado passa pela fé nas pessoas que dão testemunho disso. Segundo, que ninguém deve perder o ânimo, quando a dúvida ou a perplexidade nascem no coração. Os Onze também tiveram dúvidas!

 

Marcos 16, 15-18: Os sinais que acompanham o anúncio da Boa Nova. Em seguida Jesus confere a missão de anunciar a Boa Nova a todas as criaturas. A exigência que ele coloca para quem quer ser salvo é esta: crer e ser baptizado. Aos que acreditam na Boa Nova e se fazem baptizar, promete estes sinais: 1) expulsarão os demónios; 2) falarão novas línguas; 3) tomarão nas mãos as serpentes; 4) beberão qualquer veneno e não lhes fará mal; 5) imporão as mãos aos doentes e estes ficarão curados. Estes sinais acontecem ainda hoje:

 

- Expulsar os demónios: é combater o poder do mal que estrangula a vida. A vida de muitas pessoas melhorou a partir do momento que entraram na comunidade e começaram a viver a Boa Nova da experiência de Deus. Participando na vida da comunidade, lançam fora o mal das suas vidas.

 

- Falar novas línguas: é começar a comunicar com os outros de um novo modo. Às vezes encontramos uma pessoa que antes nunca a tínhamos visto, mas acontece como se já a conhecêssemos há muito tempo. É porque falamos a mesma língua, a língua do amor.

 

-  Apanharão serpentes com as mãos e, se beberem algum veneno mortal, não sofrerão nenhum mal: há muitas coisas que envenenam a convivência. Muitos mexericos que arruínam a relação entre as pessoas. Quem vive a presença de Deus sabe superar isto e não é molestado por este veneno mortífero.

 

- Curar os enfermos: em qualquer lugar em que apareça uma consciência mais clara da presença de Deus, aparece também uma especial atenção às pessoas excluídas e marginalizadas, sobretudo aos enfermos. O que mais favorece a saúde é que a pessoa se sinta acolhida e amada.

 

Marcos 16, 19-20: através da comunidade Jesus continua a sua missão. Aquele Jesus que na Palestina acolhia os pobres, revelando-lhes o amor do Pai, agora é o mesmo Jesus que continua presente entre nós nas nossas comunidades. Através de nós, Ele continua a sua missão de revelar a Boa Nova do amor de Deus aos pobres. A ressurreição continua até hoje. Nenhum poder deste mundo é capaz de neutralizar a força que brota da fé na ressurreição (Rom 8, 35-39). Uma comunidade que quer ser sinal da ressurreição deve ser sinal de vida, deve lutar contra as forças da morte, para que o mundo seja um lugar favorável à vida, deve crer que é possível outro mundo. Sobretudo naqueles lugares onde a vida do povo está mais em perigo por causa do sistema de morte ali imposto, as comunidades devem ser uma prova viva de esperança que vence o mundo, sem medo de serem felizes!

 

Ampliando informações acerca do Evangelho de Marcos – As surpresas de Deus

 

Desde o início do Evangelho de Marcos era esta a exigência: “O tempo cumpriu-se e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e acreditai no evangelho”. Esta exigência inicial de conversão e de fé indica a porta, através da qual temos acesso a Jesus e à Boa Nova de Deus que Ele nos traz. Não há outra entrada. A fé implica acreditar em Jesus, na sua Palavra, aceitá-lo sem impor condições. Estamos convidados a não nos encerrarmos em nenhum nome ou título, doutrina ou costume, e a manter sempre os olhos abertos às surpresas de Deus, que pedem uma conversão constante. Os nomes e títulos, as doutrinas e costumes, as devoções e orações, são como o cartão que transportamos no peito para sermos identificados. O cartão é importante porque nos ajuda e orienta quando queremos encontrar uma pessoa que procuramos. Mas quando é encontrada, já não se olha para o cartão mas para o rosto! A pessoa que procuramos logo que a encontramos quase sempre é diferente da ideia que dela fazíamos. O encontro reserva sempre estas surpresas! Sobretudo o encontro com Deus em Jesus. Ao longo do Evangelho de Marcos são muitas as surpresas de Deus, e vêm donde menos se espera:

 

* de um pagão que dá uma lição a Pedro, porque reconhece a presença de Deus no crucificado (Mc 15, 39);

 

* de uma pobre viúva que oferece o pouco indispensável que tem para o compartilhar com os outros (Mc 12, 43-44);

 

* de um cego que gritando incomoda os discípulos e nem sequer tem uma doutrina certa (Mc 10, 46-52);

 

* dos pequenos que vivem marginalizados, mas acreditam em Jesus (Mc 9, 42);

 

* dos que usam o nome de Jesus para combater o mal, mas não são da “Igreja” (Mc 9, 38-40);

 

* de uma mulher anónima, que escandaliza os discípulos pela sua maneira de actuar (Mc 14, 3-9);

 

* de um pai de família a quem obrigam a levar a cruz e se converte em discípulo modelo (Mc 15, 21);

 

* de José de Arimateia que arrisca tudo e pede o corpo de Jesus para o sepultar (Mc 15, 43);

 

* das mulheres que, naquele tempo, não podiam ser testemunhas oficiais, mas são elas as escolhidas por Jesus como testemunhas qualificadas da sua ressurreição (Mc 15, 40.47; 16, 6.9-10).

 

Resumindo: Os doze discípulos, chamados de modo particular por Jesus (Mc 3, 13-19) e por Ele enviados em missão (Mc 6, 7-13), falham. Pedro renegou-o (Mc 14, 66-72), Judas atraiçoou-o (Mc 14, 44-45) e todos fugiram (Mc 14, 50). Mas precisamente no falhanço aparece a fé dos outros que não faziam parte do grupo dos doze escolhidos. A comunidade, a Igreja, deve ter uma consciência bem clara que ela não é a proprietária de Jesus e nem sequer possuiu todos os critérios da acção de Deus entre nós. Jesus não é nosso, mas nós, a comunidade, a Igreja, somos de Jesus, e Jesus de Deus (1Cor 3, 23). A maior de todas as surpresas é a ressurreição!

 

Oração final

Senhor Jesus, damos-te graças pela tua Palavra que nos fez ver melhor a vontade do Pai. Faz com que o teu Espírito ilumine as nossas acções e nos comunique a força para seguir o que a tua Palavra nos fez ver. Faz com que nós, tal como Maria, tua Mãe, possamos não só escutar, mas também pôr em prática a Palavra. Tu que vives e reinas com o Pai na unidade do Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amen. 

 

 
Amor Solidário, mesmo morrendo, renasce

Amor Solidário, mesmo morrendo, renasce

A História de uma Reforma que esqueceu o Amor

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“Com amor eterno eu te amei. Dei a minha vida por amor!” Esta frase do nosso canto vem do livro do profeta Jeremias. Ela representa o início de uma curva importante na história do Povo de Deus. Através do profeta Deus dizia ao povo: “Eu amei você com amor eterno; por isso conservei o meu amor por você” (Jr 31,3). Esta insistência no amor aconteceu numa época em que tudo estava desintegrando. Nabucodonosor, rei da Babilónia, já tinha feito uma primeira invasão contra Jerusalém em 598 aC. Já tinha levado muita gente para o cativeiro (2Reis 24,10-17). Dentro da visão teológica oficial daquela época, não havia mais horizonte, estava tudo perdido. Nós perguntamos: Como e por que estava tudo perdido? E o que significa esta insistência no amor eterno?

Nas entrelinhas da frase de Jeremias, a gente sente e adivinha o seguinte. É como se Deus, o namorado, dissesse ao povo, sua namorada: “Depois de tudo que fez você já não mereceria ser amada. Mas meu amor por você não depende do que você fez por mim ou contra mim. Quando comecei a amar você, eu o fiz com um amor eterno. Por isso, apesar de tudo que você me fez, apesar de todos os seus defeitos, eu gosto de você, eu amo você para sempre! Pode confiar! “Eu amei você com amor eterno; por isso conservei o meu amor por você” (Jr 31,3). E a gente pergunta: “Então, o que houve para Deus falar assim? Qual foi a quebra que houve? E em que consiste esse amor eterno de Deus?

 

Na raiz de tudo está a Aliança que Deus fez com o povo depois da saída do Egito. Libertando o povo, Deus lhe revelou seu amor e conquistou um título de propriedade. É como se dissesse: “Agora você é meu!” (Is 43,1). Fez uma aliança, uma espécie de contrato: “Agora, vocês são o meu povo e eu sou o Deus de vocês” (cf. Ex 19,4-6; 24,8). O sinal que os unia era a aliança que selaram ao pé do Monte Sinai. Deus, para expressar seu amor, libertou o povo da injustiça e da opressão do Faraó e lhe indicou um caminho seguro para continuar a viver na liberdade e na justiça. Este caminho são os Dez Mandamentos. E o povo para expressar seu amor a Deus, comprometeu-se solenemente a observar os Dez Mandamentos e, assim, manter-se dentro do rumo da justiça e da liberdade (Ex 24,1-8).

Com outras palavras, na raiz de tudo está o amor gratuito de Deus, a livre escolha que Ele fez de amar sempre o seu povo, e está a resposta agradecida e amorosa do povo que se comprometeu a observar a Lei de Deus. Amor mútuo! A palavra amor em hebraico é hêsed. A tradução mais correta é “amor fiel”. Amor fiel da parte de Deus para com o povo, e amor fiel da parte do povo para com Deus. É a expressão do compromisso mútuo que os dois assumiram de fidelidade à Aliança. O resultado desta aliança de amor, fruto da observância da Lei de Deus, seria a convivência fraterna de partilha e de bem-estar numa harmonia total das pessoas entre si, com Deus e com a natureza. Numa palavra, seria vida em plenitude (Jo 10,10). Assim deveria ser. Assim seria o ideal.

 

Na realidade, o povo não foi fiel em observar as cláusulas da Aliança. Os Reis manipulavam a Aliança em favor dos seus próprios interesses. As consequências desta infidelidade progressiva foram aparecendo na desarrumação e desintegração da vida do povo. Apareceram o empobrecimento, a opressão e a desumanização. Tudo desandou e em 722 aC, como resultado desta desintegração, aconteceu a queda do Reino do Norte (Israel). O Estado de Israel e a sua capital Samaria foram destruídas pelos assírios e seu  povo foi levado para o cativeiro.

 

A destruição de Israel no Norte foi um aviso ameaçador para o povo de Judá no Sul: ou mudamos de vida, ou teremos o mesmo destino! Resolveram mudar de vida e proclamaram uma  grande reforma. Foi a assim chamada Reforma Deuteronomista. Iniciada pelo rei Ezequias e assumida com força pelo rei Josias, esta reforma obrigava o povo a voltar à observância da Lei. O acento caía na observância, na responsa­bilidade do povo, e não no amor.

 

A insistência na observância era tão forte que se chegou a dizer ao povo: Agora vai depender só de vocês. Diante de vocês está a opção de escolher entre a vida ou a morte, entre a bênção e a maldição. Observando a Lei vocês terão a bênção e a vida. Transgredindo a Lei vocês atraem sobre si a maldição e a morte. O capítulo 28 de Deuteronómio enumera as bênçãos como fruto da observância fiel (Dt 28,1-14) e os males como fruto das transgressões e da infidelidade (Dt 28,15-68). Coisas terríveis e castigos inacreditáveis são enumerados para obrigar o povo a observar a lei e, assim, evitar o desastre da desintegração, igual ao que aconteceu à Israel. Prevaleceu o medo do castigo sobre a vontade de servir por amor.

 

Apesar de tudo isto, a reforma não teve êxito. Apesar de todos os avisos, eles não deram conta de observar a lei. Com a morte de Josias em 609 aC. morreu também a reforma. Onze anos depois, em 598 aC Nabucodonosor veio uma primeira vez. Outros onze anos depois, em 587 aC, na segunda vinda de Nabucodonosor, tudo foi destruído, tudo! O templo, o rei, a terra, os palácios, o povo, os sacerdotes. Tudo que tinha sido sinal da presença de Deus desapareceu.

 

Quem semeia vento, colhe tempestade, diz o povo. Olhando esta situação terrível de destruição e de abandono, o povo concluiu: colhemos o que plantamos; não adianta chorar leite derramado. Abrimos as comportas e a água invadiu e destruiu tudo. Nós quebramos o contrato da aliança com Deus, e sobre nós caíram as maldições previstas no contrato (cf. Dt 28,15-68). Nós rompemos com Deus, e ele rompeu connosco. Acabou. Foi uma história bonita de 1300 anos, desde Abraão e Sara, mas agora terminou. Copo quebrado em mil pedaços não tem conserto! Fim de linha.

 

Esta situação de desespero e de desencanto está expressa, com todas as letras, na 3ª Lamentação. (Lam 3,1-18). Olhando assim a história, realmente, a conclusão lógica era esta: “Acabou-se minha esperança que vinha de Javé” (Lam 3,17-18). A reforma deuteronomista, feita de cima para baixo e baseada só na observância, falhou e matou a esperança na alma do povo. Este sentimento de fracasso jogou o povo no mais fundo do poço do desespero. Muita gente pulou fora do barco.

 

Ora, foi aí, nesta situação escura sem horizonte, que os profetas desenterraram a raiz do amor fiel, do amor solidário de Deus. Diz a mesma Lamentação: “No fundo da memória tenho alguma coisa que me faz ter esperança!” (Lam 3,21). É neste ambiente de desespero que aparece a frase de Jeremias como o início de uma curva importante na história do Povo de Deus: “Eu amei você com amor eterno; por isso conservei o meu amor por você” (Jr 31,3). E esta outra afirmação de Isaías: “Num ímpeto de ira, por um momento eu escondi de você o meu rosto; mas agora, com amor eterno, volto a me compadecer de você, diz Javé, seu redentor” (Is 54,8). Foram os profetas, sobretudo Jeremias, Oséias e Isaías, que souberam redescobrir esta dimensão do amor gratuito de Deus e da sua promessa muito anterior à observância (cf. Is 41,8-14; 49,15;Jr 31,31-37; Os 2,16). E ainda: “É bom esperar em silêncio a salvação de Javé. Embora castigue, ele se compadecerá com grande amor” (Lm 3,26.32).

 

Foi a lembrança do que Deus fez no passado que desenterrou do fundo da memória do povo a esperança renovada no amor gratuito de Deus. Foi aí no cativeiro, no mais fundo do fundo do poço, que recomeçou a releitura da história, não mais para provocar a observância da lei como tinha feito a reforma deuteronomista, mas para provocar no povo a certeza do amor maior de Deus que supera as falhas e dá esperança. Descobriram que a história não começou com a imposição de leis que pedem observância. Muito antes da lei eles tiveram a revelação do amor e da promessa de Deus que gera esperança e provoca a resposta de amor na observância dos Dez Mandamentos.

 

Foi neste mesmo ambiente do cativeiro, que o povo redescobriu sua missão como Povo de Deus: não mais para ser um povo glorioso, colocado acima dos outros povos, mas sim para ser um povo servo, Servo Sofredor, cuja missão é revelar o amor de Deus, irradiar a bondade de Deus, difundir a justiça, não desanimar nunca e, assim, ser a Luz das Nações (Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-9; 52,13-53,12).

 

Nasce aí uma nova experiência de amor de Deus que pode ser definido como o AMOR SOLIDÁRIO DE DEUS para com seu povo. Foi a fé no amor solidário de Deus que fez o povo renascer e ter esperança e que, como reflexo, produziu no povo atitudes e gestos de amor solidário. Renasce a aliança, a experiência do amor mútuo. É o que está acontecendo hoje nas Comunidades Eclesiais de Base e aqui no Mosteiro do Servo Sofredor.

 

É sob este aspecto do amor solidário de Deus para com o seu povo que eles agora vão reler toda a história, desde Abraão até o tempo do cativeiro. É sob este aspecto da promessa e da esperança, nascidas da experiência do amor solidário de Deus, que vai ser articulada a redacção final do Antigo Testamento. O recado final, confirmado mais parte por Jesus, era este: Nós podemos romper com Deus. Somos fracos. Ele, Deus, nunca rompe connosco. Seu amor é eterno, nos dá esperança e coragem para voltar. É o que está acontecendo aqui no Mosteiro.

 

É nesta perspectiva da fé, da esperança e do amor que devem ser lidas, relidas e meditadas as histórias da criação, do paraíso, da aliança com Noé, da chamada de Abraão, da caminhada de Abraão, da libertação da opressão do Egipto e da conclusão da Aliança com o compromisso da observância dos Dez mandamentos. Agora, eles observam a Lei não para merecer nem para escapar do medo do castigo, mas para expressar a gratidão e o amor que a ação de Deus despertou no povo. Quem procura viver e conviver na intimidade deste Deus, necessariamente vai irradiar os gestos do amor solidário deste Deus. Como dizia Jesus: Quem vê a mim, vê o Pai. É o que veremos na história do amor expressa nos salmos 146 e 119.

 

Carlos Mesters, O. Carm.
 
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