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O Carmelo

"O Carmelo é uma riqueza

para todas as comunidades cristãs".

(João Paulo II)

  

 A Ordem Carmelita é uma Ordem Religiosa Católica de Homens e Mulheres que, inspirados pelo espírito do Profeta Elias e da Bem-Aventurada Virgem Maria, tentam viver uma vida no seguimento de Jesus Cristo através da Contemplação, Fraternidade e Serviço no meio do povo.

 

 

 
II Domingo da Quaresma - Ano B

2º DOMINGO DA QUARESMA (ANO B)

1 de Março de 2015

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Mc 9, 2-10)

2Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e levou-os, só a eles, a um monte elevado. E transfigurou-se diante deles. 3As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que lavadeira alguma da terra as poderia branquear assim. 4Apareceu-lhes Elias, juntamente com Moisés, e ambos falavam com Ele. 5Tomando a palavra, Pedro disse a Jesus: «Mestre, bom é estarmos aqui; façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias.» 6Não sabia que dizer, pois estavam assombrados. 7Formou-se, então, uma nuvem que os cobriu com a sua sombra, e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado. Escutai-o.» 8De repente, olhando em redor, já não viram ninguém, a não ser só Jesus, com eles. 9Ao descerem do monte, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, senão depois de o Filho do Homem ter ressuscitado dos mortos. 10Eles guardaram a recomendação, discutindo uns com os outros o que seria ressuscitar de entre os mortos.

Contexto de então e de hoje

O anúncio da paixão submergiu os discípulos numa crise profunda. Eles encontravam-se no meio dos pobres, mas nas suas cabeças tudo era confusão, perdidos como estavam na propaganda do governo e na religião oficial da época (Mc 8, 15). A religião oficial ensinava que o Messias seria glorioso e vitorioso. É por causa disto que Pedro reage com muita força contra a cruz (Mc 8, 32). Um condenado à morte de cruz não podia ser o Messias, mas pelo contrário, segundo a Lei de Deus, devia ser considerado como um “maldito de Deus” (Dt 21, 22-23). Perante isto, a experiência da Transfiguração de Jesus podia ajudar os discípulos a superar o trauma da cruz. Com efeito, na Transfiguração, Jesus aparece na glória, e fala com Moisés e Elias acerca da sua paixão e morte (Lc 9, 31). O caminho da glória passa portanto pela cruz.

Nos anos 70, quando Marcos escreve o seu evangelho, a cruz constituía um grande impedimento para os judeus aceitarem Jesus como Messias. Como podia ser que um crucificado, morto como um marginal, pudesse ser o grande Messias esperado durante séculos pelos povos? A cruz era um impedimento para acreditar em Jesus. “A cruz é um escândalo”, diziam (1Cor 1, 23). As comunidades não sabiam como responder às perguntas críticas dos judeus. Um dos esforços maiores por parte dos primeiros cristãos consistiu em ajudar as pessoas a compreender que a cruz não era um escândalo, nem loucura, mas era antes a expressão do poder e da sabedoria de Deus (1Cor 1, 22-31). O evangelho de Marcos é um contributo para este esforço. Serve-se de textos do Antigo Testamento para descrever a cena da Transfiguração. Ilumina os acontecimentos da vida de Jesus e mostra que em Jesus são realizadas as profecias e que a cruz é o caminho que conduz à glória. E não só a cruz era um problema! Nos anos 70, a cruz da perseguição fazia parte da vida dos cristãos. Com efeito, pouco tempo antes, Nero desencadeara a perseguição e houve muitos mortos. Até hoje, muitas pessoas sofrem porque são cristãs e porque vivem o evangelho. Como abordar a cruz? Que significado tem? Com estas perguntas na mente meditemos e comentemos o texto da Transfiguração.

Comentário do texto

Marcos 9, 2-4:
Jesus muda de aspecto. Jesus sobe a um alto monte. Lucas acrescenta que ele se dirige aí para rezar (Lc 9, 28). Aí, no cimo da montanha, Jesus aparece na glória diante de Pedro, Tiago e João. Junto a ele aparecem também Moisés e Elias. O alto monte evoca o Monte Sinai, onde, no passado, Deus tinha manifestado ao povo a sua vontade, consignando a lei a Moisés. As vestes brancas de Jesus recordam Moisés envolto na luz quando fala com Deus na montanha e recebe de Deus a Lei (cf. Ex 24, 29-35). Elias e Moisés, as duas maiores autoridades do Antigo Testamento, falam com Jesus. Moisés representa a Lei e Elias a Profecia. Lucas afirma que a conversa se refere à morte de Jesus em Jerusalém (Lc 9, 31). Deste modo ficava claro que o Antigo Testamento, tanto a Lei como os Profetas, ensinavam já que o caminho da glória passa pela cruz (cf Is 53)

Marcos 9, 5-6: Agrada a Pedro o que está a acontecer mas não o entende. Agrada a Pedro tudo o que está a acontecer e quer assegurar aquele momento agradável que ocorre na montanha. Propõe a construção de três tendas. Marcos diz que Pedro tinha medo, sem saber o que estava a dizer, e Lucas acrescenta que os discípulos tinham sono (Lc 9, 32). Eles são como nós, para eles é difícil entender a cruz!

A descrição do episódio da Transfiguração começa com uma afirmação: “Seis dias depois”. A que se referem estes seis dias? Alguns estudiosos explicam a frase deste modo: Pedro quer construir tendas porque era o sexto dia da Festa das Tendas. Era uma festa muito popular de seis dias em que se celebrava a Lei de Deus e os quarenta anos passados no deserto. Para recordar estes quarenta anos o povo devia passar uma semana da festa em tendas improvisadas. Esta é a razão porque se lhe dá o nome de Festa das Tendas. Se não era possível a celebração de todos os seis dias, pelo menos que se fizesse no sexto dia. A afirmação “seis dias depois” seria uma alusão à Festa das Tendas. Por isso é que Pedro recorda a obrigação de construir tendas e oferece-se para construi-las, podendo Jesus, Moisés e Elias continuar a conversar.

Marcos 9, 7: A voz do céu esclarece os factos. Logo que Jesus fica envolvido na glória, uma voz vinda do céu diz: “Este é o meu Filho muito amado! Escutai-o”. A expressão “Filho muito amado” evoca a figura do Messias Servo, anunciado pelo profeta Isaías (cf. Is 42, 1). A expressão “Escutai-o” evoca a profecia que prometia a chegada do novo Moisés (cf. Dt 18, 15). Em Jesus realizam-se as profecias do Antigo Testamento. Os discípulos não podiam duvidar disso. Os cristãos dos anos 70 não podiam duvidar. Jesus é verdadeiramente o Messias glorioso, mas o caminho da glória passa pela cruz, segundo o anúncio dado na profecia do Servo (Is 53, 3-9). A glória da Transfiguração é a prova. Moisés e Elias confirmam-no. O Pai é o garante. Jesus aceita-a.

Marcos 9, 8: Só Jesus e mais ninguém! Marcos diz que, depois da visão, os discípulos só vêem Jesus e mais ninguém. A insistência em afirmar que só vêem Jesus, sugere que desde agora em diante, Jesus é para nós a única revelação de Deus. Para nós cristãos, Jesus, e somente Ele, é a chave para compreender todo o sentido do Antigo Testamento.

Marcos 9, 9-10: Saber ficar em silêncio. Jesus pede aos discípulos que não digam nada a ninguém, até que ressuscite de entre os mortos, mas os discípulos não entenderam. Com efeito, não entende o significado da cruz quem não une o sofrimento à ressurreição. A ressurreição de Jesus é a prova de que a vida é mais forte do que a morte.

Marcos, 9, 11-13: O regresso de Elias. O profeta Malaquias tinha anunciado que Elias devia voltar para preparar o caminho do Messias (Ml 3, 23-24). Este mesmo anúncio encontra-se no livro do Eclesiástico (Ecl 48, 10). Então como podia ser Jesus o Messias, se Elias ainda não tinha vindo? Por isso é que os discípulos perguntam: “Por que é que os escribas dizem que primeiro deve vir Elias?” (Mc 9, 11). A resposta de Jesus é clara: “Eu vos digo que Elias já veio mas fizeram dele o que quiseram, como está escrito acerca dele (Mc 9, 13). Jesus falava de João Baptista, assassinado por Herodes (Mt 17, 13).

A Transfiguração: a mudança que se dá no agir de Jesus

No meio dos conflitos com os fariseus e os herodianos (Mc 8, 11-21), Jesus deixa a Galileia e dirige-se para a região de Cesareia de Filipe (Mc 8, 27) onde começa a preparar os discípulos. Pelo caminho dirige-lhes uma pergunta: “Quem dizem os homens que Eu sou?” (Mc 8, 27). Depois de ter escutado a resposta que o considerava o Messias, Jesus começa a falar da sua paixão e da sua morte (Mc 8, 31). Pedro reage: “Deus te livre, Senhor! Isso nunca te há-de acontecer!” (Mt 16, 22). Jesus replica: “Vai-te da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens” (Mc 8, 33). Foi um momento de crise. Os discípulos presos como estavam à ideia de um Messias glorioso (Mc 8, 32-33; 9, 32) não compreendem a proposta de Jesus e procuram conduzi-la por outro caminho. Estava perto a Festa das Tendas (cf, Lc 9, 33) durante a qual geralmente aumentava muito entre o povo a expectativa messiânica. Jesus sobe à montanha para orar (Lc 9, 28). Vence a tentação por meio da oração. A manifestação do Reino seria muito diferente do que as pessoas imaginavam. A vitória do Servo chegaria através da condenação à morte (Is 50, 4-9; 53, 1-12). A cruz aparece no horizonte, já não como uma possibilidade, mas mais como uma certeza. A partir deste momento dá-se uma mudança no agir de Jesus. Eis alguns pontos significativos desta mudança:

Poucos milagres. Antes assistíamos a muitos milagres. Agora, a partir de Mc 8, 27; Mt 16, 13 e Lc 9, 18, os milagres constituem quase uma excepção na actividade de Jesus.

Anúncio da Paixão. Antes falava-se da paixão como de uma possibilidade remota (Mc 3, 6). Agora fala-se constantemente dela (Mc 8, 31; 9, 9.31; 10, 33.38).

Tomar a Cruz. Antes Jesus ensinava a chegada eminente do Reino. Agora insiste na vigilância e nas exigências do seguimento e na necessidade de tomar a cruz (Mt 16, 24-26: 19, 27-30; 24, 42-51; 25, 1-13; Mc 8, 34; 10, 28-31; Lc 9, 23-26.57-62; 12, 8-9.35-48; 14, 25-33; 17, 33; 18, 28-30).

Ensina os discípulos. Primeiro ensina as pessoas. Agora preocupa-se sobretudo com a formação dos discípulos. Pede-lhes que escolham de novo (Jo 6, 67: “Também vós quereis ir embora?”) e começa a prepará-los para a missão que virá imediatamente. Sai da cidade para poder estar com eles e ocupar-se da sua formação (Mc 8, 27; 9, 28.30-35; 10, 10.23. 28-32; 11, 11).

Parábolas diversas. Antes as parábolas revelavam os mistérios do Reino presente na actividade de Jesus. Agora as parábolas orientam para o juízo futuro, para o final dos tempos: os vinhateiros homicidas (Mt 21, 33-46); o servo sem compaixão (Mt 18, 23-35); os trabalhadores da hora décima primeira (Mt 20, 1-16); os dois filhos (Mt 21, 28-32); o banquete de bodas (Mt 22, 1-14); os dez talentos (Mt 25, 14-30). Jesus assume a vontade do Pai que se revela na nova situação e decide dirigir-se para Jerusalém (Lc 9, 51). Assume esta decisão convictamente de tal modo que os discípulos ficam assustados e não conseguem entender estas coisas (Mc 10, 32; Lc 18, 31-34). Naquela sociedade, o anúncio do Reino tal como era anunciado por Jesus não era tolerado: ou mudava ou morreria! Jesus não alterou o anúncio. Continuou fiel ao Pai e aos pobres. Por isso foi condenado à morte!

A Transfiguração e a volta do profeta Elias

No evangelho de Marcos, o episódio da Transfiguração (Mc 9, 2-8) está ligado com a questão da vinda do profeta Elias (Mc 9, 9-13). Naquele tempo, as pessoas esperavam o regresso do profeta Elias e não se davam conta de que Elias já tinha vindo na pessoa de João Baptista (Mc 9, 13). Hoje sucede a mesma coisa. Muitas pessoas vivem esperando a vinda de Jesus, e inclusivamente escrevem nas paredes das cidades: Jesus virá! Eles não se dão conta de que Jesus já está presente na nossa vida. De vez em quando, como um relâmpago inesperado, a presença de Jesus irrompe e ilumina-se, transformando a nossa vida. Devemos perguntar-nos: “A minha fé em Jesus, concedeu-me já algum momento de transfiguração e de intensa alegria?”. “Como me deram força estes momentos de alegria nas dificuldades?”.

 
Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2015

Mensagem do Papa Francisco

para a

Quaresma de 2015
 

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Fortalecei os vossos corações 
(Tg 5, 8)
 

Amados irmãos e irmãs,

Tempo de renovação para a Igreja, para as comunidades e para cada um dos fiéis, a Quaresma é sobretudo um «tempo favorável» de graça (cf. 2 Cor 6, 2). Deus nada nos pede, que antes não no-lo tenha dado: «Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro» (1 Jo 4, 19). Ele não nos olha com indiferença; pelo contrário, tem a peito cada um de nós, conhece-nos pelo nome, cuida de nós e vai à nossa procura, quando O deixamos. Interessa-Se por cada um de nós; o seu amor impede-Lhe de ficar indiferente perante aquilo que nos acontece. Coisa diversa se passa connosco! Quando estamos bem e comodamente instalados, esquecemo-nos certamente dos outros (isto, Deus Pai nunca o faz!), não nos interessam os seus problemas, nem as tribulações e injustiças que sofrem; e, assim, o nosso coração cai na indiferença: encontrando-me relativamente bem e confortável, esqueço-me dos que não estão bem! Hoje, esta atitude egoísta de indiferença atingiu uma dimensão mundial tal que podemos falar de uma globalização da indiferença. Trata-se de um mal-estar que temos obrigação, como cristãos, de enfrentar.

Quando o povo de Deus se converte ao seu amor, encontra resposta para as questões que a história continuamente nos coloca. E um dos desafios mais urgentes, sobre o qual me quero deter nesta Mensagem, é o da globalização da indiferença.

Dado que a indiferença para com o próximo e para com Deus é uma tentação real também para nós, cristãos, temos necessidade de ouvir, em cada Quaresma, o brado dos profetas que levantam a voz para nos despertar.

A Deus não Lhe é indiferente o mundo, mas ama-o até ao ponto de entregar o seu Filho pela salvação de todo o homem. Na encarnação, na vida terrena, na morte e ressurreição do Filho de Deus, abre-se definitivamente a porta entre Deus e o homem, entre o Céu e a terra. E a Igreja é como a mão que mantém aberta esta porta, por meio da proclamação da Palavra, da celebração dos Sacramentos, do testemunho da fé que se torna eficaz pelo amor (cf. Gl 5, 6). O mundo, porém, tende a fechar-se em si mesmo e a fechar a referida porta através da qual Deus entra no mundo e o mundo n'Ele. Sendo assim, a mão, que é a Igreja, não deve jamais surpreender-se, se se vir rejeitada, esmagada e ferida.

Por isso, o povo de Deus tem necessidade de renovação, para não cair na indiferença nem se fechar em si mesmo. Tendo em vista esta renovação, gostaria de vos propor três textos para a vossa meditação.

1. «Se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros» (1 Cor 12, 26): A Igreja.

Com o seu ensinamento e sobretudo com o seu testemunho, a Igreja oferece-nos o amor de Deus, que rompe esta reclusão mortal em nós mesmos que é a indiferença. Mas, só se pode testemunhar algo que antes experimentámos. O cristão é aquele que permite a Deus revesti-lo da sua bondade e misericórdia, revesti-lo de Cristo para se tornar, como Ele, servo de Deus e dos homens. Bem no-lo recorda a liturgia de Quinta-feira Santa com o rito do lava-pés. Pedro não queria que Jesus lhe lavasse os pés, mas depois compreendeu que Jesus não pretendia apenas exemplificar como devemos lavar os pés uns aos outros; este serviço, só o pode fazer quem, primeiro, se deixou lavar os pés por Cristo. Só essa pessoa «tem a haver com Ele» (cf. Jo 13, 8), podendo assim servir o homem.

A Quaresma é um tempo propício para nos deixarmos servir por Cristo e, deste modo, tornarmo-nos como Ele. Verifica-se isto quando ouvimos a Palavra de Deus e recebemos os sacramentos, nomeadamente a Eucaristia. Nesta, tornamo-nos naquilo que recebemos: o corpo de Cristo. Neste corpo, não encontra lugar a tal indiferença que, com tanta frequência, parece apoderar-se dos nossos corações; porque, quem é de Cristo, pertence a um único corpo e, n'Ele, um não olha com indiferença o outro. «Assim, se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros; se um membro é honrado, todos os membros participam da sua alegria» (1 Cor 12, 26).

A Igreja é communio sanctorum, não só porque, nela, tomam parte os Santos mas também porque é comunhão de coisas santas: o amor de Deus, que nos foi revelado em Cristo, e todos os seus dons; e, entre estes, há que incluir também a resposta de quantos se deixam alcançar por tal amor. Nesta comunhão dos Santos e nesta participação nas coisas santas, aquilo que cada um possui, não o reserva só para si, mas tudo é para todos. E, dado que estamos interligados em Deus, podemos fazer algo mesmo pelos que estão longe, por aqueles que não poderíamos jamais, com as nossas simples forças, alcançar: rezamos com eles e por eles a Deus, para que todos nos abramos à sua obra de salvação.

2. «Onde está o teu irmão?» (Gn 4, 9): As paróquias e as comunidades

Tudo o que se disse a propósito da Igreja universal é necessário agora traduzi-lo na vida das paróquias e comunidades. Nestas realidades eclesiais, consegue-se porventura experimentar que fazemos parte de um único corpo? Um corpo que, simultaneamente, recebe e partilha aquilo que Deus nos quer dar? Um corpo que conhece e cuida dos seus membros mais frágeis, pobres e pequeninos? Ou refugiamo-nos num amor universal pronto a comprometer-se lá longe no mundo, mas que esquece o Lázaro sentado à sua porta fechada (cf. Lc 16, 19-31)?

Para receber e fazer frutificar plenamente aquilo que Deus nos dá, deve-se ultrapassar as fronteiras da Igreja visível em duas direcções.

Em primeiro lugar, unindo-nos à Igreja do Céu na oração. Quando a Igreja terrena reza, instaura-se reciprocamente uma comunhão de serviços e bens que chega até à presença de Deus. Juntamente com os Santos, que encontraram a sua plenitude em Deus, fazemos parte daquela comunhão onde a indiferença é vencida pelo amor. A Igreja do Céu não é triunfante, porque deixou para trás as tribulações do mundo e usufrui sozinha do gozo eterno; antes pelo contrário, pois aos Santos é concedido já contemplar e rejubilar com o facto de terem vencido definitivamente a indiferença, a dureza de coração e o ódio, graças à morte e ressurreição de Jesus. E, enquanto esta vitória do amor não impregnar todo o mundo, os Santos caminham connosco, que ainda somos peregrinos. Convicta de que a alegria no Céu pela vitória do amor crucificado não é plena enquanto houver, na terra, um só homem que sofra e gema, escrevia Santa Teresa de Lisieux, doutora da Igreja: «Muito espero não ficar inactiva no Céu; o meu desejo é continuar a trabalhar pela Igreja e pelas almas» (Carta 254, de 14 de Julho de 1897).

Também nós participamos dos méritos e da alegria dos Santos e eles tomam parte na nossa luta e no nosso desejo de paz e reconciliação. Para nós, a sua alegria pela vitória de Cristo ressuscitado é origem de força para superar tantas formas de indiferença e dureza de coração.

Em segundo lugar, cada comunidade cristã é chamada a atravessar o limiar que a põe em relação com a sociedade circundante, com os pobres e com os incrédulos. A Igreja é, por sua natureza, missionária, não fechada em si mesma, mas enviada a todos os homens.

Esta missão é o paciente testemunho d'Aquele que quer conduzir ao Pai toda a realidade e todo o homem. A missão é aquilo que o amor não pode calar. A Igreja segue Jesus Cristo pela estrada que a conduz a cada homem, até aos confins da terra (cf. Act 1, 8). Assim podemos ver, no nosso próximo, o irmão e a irmã pelos quais Cristo morreu e ressuscitou. Tudo aquilo que recebemos, recebemo-lo também para eles. E, vice-versa, tudo o que estes irmãos possuem é um dom para a Igreja e para a humanidade inteira.

Amados irmãos e irmãs, como desejo que os lugares onde a Igreja se manifesta, particularmente as nossas paróquias e as nossas comunidades, se tornem ilhas de misericórdia no meio do mar da indiferença!

3. «Fortalecei os vossos corações» (Tg 5, 8): Cada um dos fiéis

Também como indivíduos temos a tentação da indiferença. Estamos saturados de notícias e imagens impressionantes que nos relatam o sofrimento humano, sentindo ao mesmo tempo toda a nossa incapacidade de intervir. Que fazer para não nos deixarmos absorver por esta espiral de terror e impotência?

Em primeiro lugar, podemos rezar na comunhão da Igreja terrena e celeste. Não subestimemos a força da oração de muitos! A iniciativa 24 horas para o Senhor, que espero se celebre em toda a Igreja – mesmo a nível diocesano – nos dias 13 e 14 de Março, pretende dar expressão a esta necessidade da oração.

Em segundo lugar, podemos levar ajuda, com gestos de caridade, tanto a quem vive próximo de nós como a quem está longe, graças aos inúmeros organismos caritativos da Igreja. A Quaresma é um tempo propício para mostrar este interesse pelo outro, através de um sinal – mesmo pequeno, mas concreto – da nossa participação na humanidade que temos em comum.

E, em terceiro lugar, o sofrimento do próximo constitui um apelo à conversão, porque a necessidade do irmão recorda-me a fragilidade da minha vida, a minha dependência de Deus e dos irmãos. Se humildemente pedirmos a graça de Deus e aceitarmos os limites das nossas possibilidades, então confiaremos nas possibilidades infinitas que tem de reserva o amor de Deus. E poderemos resistir à tentação diabólica que nos leva a crer que podemos salvar-nos e salvar o mundo sozinhos.

Para superar a indiferença e as nossas pretensões de omnipotência, gostaria de pedir a todos para viverem este tempo de Quaresma como um percurso de formação do coração, a que nos convidava Bento XVI (Carta enc. Deus caritas est, 31). Ter um coração misericordioso não significa ter um coração débil. Quem quer ser misericordioso precisa de um coração forte, firme, fechado ao tentador mas aberto a Deus; um coração que se deixe impregnar pelo Espírito e levar pelos caminhos do amor que conduzem aos irmãos e irmãs; no fundo, um coração pobre, isto é, que conhece as suas limitações e se gasta pelo outro.

Por isso, amados irmãos e irmãs, nesta Quaresma desejo rezar convosco a Cristo: «Fac cor nostrum secundum cor tuum – Fazei o nosso coração semelhante ao vosso» (Súplica das Ladainhas ao Sagrado Coração de Jesus). Teremos assim um coração forte e misericordioso, vigilante e generoso, que não se deixa fechar em si mesmo nem cai na vertigem da globalização da indiferença.

Com estes votos, asseguro a minha oração por cada crente e cada comunidade eclesial para que percorram, frutuosamente, o itinerário quaresmal, enquanto, por minha vez, vos peço que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!

Vaticano, Festa de São Francisco de Assis, 4 de Outubro de 2014

Francisco

 
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