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O Carmelo

"O Carmelo é uma riqueza

para todas as comunidades cristãs".

(João Paulo II)

  

 A Ordem Carmelita é uma Ordem Religiosa Católica de Homens e Mulheres que, inspirados pelo espírito do Profeta Elias e da Bem-Aventurada Virgem Maria, tentam viver uma vida no seguimento de Jesus Cristo através da Contemplação, Fraternidade e Serviço no meio do povo.

 

 

 
VII Domingo do Tempo Comum - Ano A

7º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A

19 de Fevereiro de 2017 

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 5, 38-48) 

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, digo-vos: Não resistais ao homem mau. Mas se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda. Se alguém quiser levar-te ao tribunal, para ficar com a tua túnica, deixa-lhe também o manto. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pedir e não voltes as costas a quem te pede emprestado.

Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus; pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos.

Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem a mesma coisa os publicanos? E se saudardes apenas os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Portanto, sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito». 

Mensagem 

Neste 7º Domingo do Tempo Comum, continuamos a escutar as duas últimas das “seis antíteses” proferidas por Jesus no SERMÃO DA MONTANHA e referentes à lei de talião e ao amor ao próximo (Mt 5, 38-48).

Diz a conhecida “lei de talião”, assim formulada no Livro do Êxodo: “vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, contusão por contusão” (Ex 21, 24-25). Formulação semelhante desta lei já se encontra, de resto, nos parágrafos 196 e 197 do famoso código de Hammurabi, que remonta mais ou menos a 1700 anos antes de Cristo. E, ao contrário do que se diz habitualmente, esta lei não representa a barbaridade, mas um avanço civilizacional, pois assenta, não na multiplicação desenfreada da vingança e da violência, mas na sua contenção, pois condena o agressor a receber apenas a sanção igual àquela que ele provocou à vítima.

Bem diferente é a chamada Lei da vingança desenfreada, traduzida, por exemplo, no famoso “Cântico da espada” de Lamec, que se expressa assim no Livro do Génesis: “Eu matei um homem por uma ferida, uma criança por uma contusão. Sim, Caim é vingado sete vezes, mas Lamec setenta e sete vezes!” (Gn 4, 23-24). O que se vê aqui é que Lamec respira uma violência irracional, um ódio irracional. O que ouvimos nas alturas da Montanha é que Jesus respira e ensina um amor que dissolve completamente os ódios, vinganças e violências do “Cântico de Lamec”, e ultrapassa   também a fria simetria da “lei de talião”: “Ouvistes o que foi dito: ‘Olho por olho, dente por dente’. Porém, Eu digo-vos: ‘Não resistais ao homem mau. Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda; se alguém te levar ao tribunal para ficar com a tua túnica, oferece-lhe também o manto; se alguém te forçar a acompanhá-lo durante 5 km, acompanha-o durante 10km’” (Mt 5, 38-41).

E Jesus estende o amor para além dos círculos restritos das nossas simpatias, até aos próprios inimigos! Amor assimétrico, que Jesus ensina agora nas alturas, mas que praticará e ensinará até à Cruz! Ele leva até ao alto do monte das Bem-Aventuranças e até ao alto do Calvário os nossos ódios desenfreados e a nossa fria justiça distributiva, e restitui-nos em troca o perdão excessivo e o amor transbordante.

Ao tempo de Jesus, o panorama do judaísmo palestiniano era dominado por duas escolas: a escola conservadora e rigorista de Shammai e a escola liberal de Hillel. Conta-se que, um dia, um homem se terá apresentado na escola de Shammai e fez ao mestre um estranho pedido: “Quero que, enquanto eu me mantiver apenas com um pé no chão, tu me expliques toda a Lei”. Diz-se que Shammai se limitou a pegar na sua vara de mestre e a correr o homem pela porta fora, pois era óbvio que o homem fazia um pedido impossível de cumprir, tal era a vastidão da Lei. Mas o homem não desanimou e dirigiu-se à escola de Hillel, a quem formulou o mesmo pedido. E Hillel terá respondido de pronto: “Nada mais fácil: ‘Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti’”.

A esta sentença de Hillel, na sua formulação negativa deu-se o nome de “regra de ouro”. Em boa verdade, ela já aparece no Livro de Tobias 4, 15. É, todavia, fácil de verificar que esta sentença é de fácil cumprimento. Dado que o seu teor é negativo, para a cumprir basta a alguém cruzar os braços e nada fazer. Procedendo assim, nada fará de inconveniente a ninguém, cumprindo assim escrupulosamente a sentença formulada.

Tentando talvez evitar a inação acoitada na formulação negativa anterior, os evangelhos apresentam desta máxima uma formulação positiva: “Faz aos outros o que queres que te façam a ti!” (Mt 7, 12; Lc 6, 31). Levando a sério esta formulação, já não é suficiente jogar à defesa e nada fazer, mas é, de facto, requerido o fazer. Seja como for, as duas formulações apresentadas, quer a negativa, quer a positiva, padecem do mesmo vício: sou eu o centro, é à minha volta que tudo roda, e o que eu faço ou deixo de fazer é com o objectivo claro de que me seja retribuído outro tanto!

O tom positivo da referida “regra de ouro” recebe ainda outra bem conhecida formulação: “Ama o teu próximo como a ti mesmo!”, que atravessa a inteira Escritura: Lv 19, 18; Mt 22, 39; Rm 13, 9; Gl 5, 14; Tg 2, 8. Mas também esta formulação é perigosa: primeiro, porque eu continuo a ser o centro, sendo eu a medida do amor devido aos outros; segundo, porque, se alguém não se ama a si mesmo (e são, infelizmente, cada vez mais os casos!), como poderá cumprir devidamente esta máxima?

É aqui que cai, como uma lâmina, a força do Evangelho que sai dos lábios de Jesus: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 13, 34). Aqui, a medida não sou eu. Aqui, a medida é Jesus. Aqui, a medida é sem medida! Aqui, o amor não é interesseiro. Aqui, o amor é puro, radical, incondicional. Aqui, o amor é até ao fim! 

Palavra para o caminho 

Não é o exemplo da sociedade e do mundo, que é o critério último e definitivo para os cristãos mas o exemplo do nosso Pai do céu. Jesus não deixa por menos: “sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito”. A frase de Jesus faz lembrar Dt 18,13 onde a Lei recomenda ao povo de Israel que seja perfeito na sua adesão ao Senhor.  O Evangelho de Lucas explicita melhor ainda o sentido dessa frase quando ensina “Sede misericordiosos, como o vosso Pai celeste é misericordioso” (Lc 6,36). 

 
Santa Maria Madalena de’ Pazzi: Palavra e Eucaristia

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Quando nos aproximamos da extraordinária vivência da mística carmelita florentina, S. Maria Madalena de’ Pazzi (†1607), cujo 450.º aniversário do nascimento (2.4.1566) estamos a celebrar, surpreende-nos a riqueza da sua espiritualidade e a variedade de temas, a ponto de não sabermos por onde começar e em que a poderemos imitar. O melhor será entrar desde logo pela porta principal, a qual nela é, sem dúvida, a Palavra e a Eucaristia, entendidas no ambiente mais amplo e natural da sua vivência na liturgia, que ritmava a vida do Mosteiro, informando toda a sua existência e oração. De facto, 90% das cerca de 430 experiências místicas registadas na sua vida tem a ver com a liturgia do dia e gravita em torno da Eucaristia, da qual partem ou à qual conduzem, tendo o seu tema quase sempre a ver com alguma passagem bíblica, em particular com o Evangelho. O perfil da experiência mística da nossa carmelita é assim claramente eucarístico, compenetrando-se e completando-se nela os dois alimentos fundamentais do banquete eucarístico em que se recebe “o Verbo humanado”: o pão da Palavra e o da Eucaristia.

 

1. A Palavra

 

Quando aos 14 anos de idade S. Maria Madalena quis enriquecer o seu método de oração, que lhe fora ensinado aos 9 anos pelo Padre jesuíta André Rossi – pôr-se de joelhos, invocar o Espírito Santo, fazer o exame de consciência e rezar a confissão, para em seguida meditar sobre a paixão de Cristo, deixando ela “que fosse Deus a agir, dando-lhe, por sua misericórdia, o que Lhe agradava” (I, 73) –, passou também a meditar o Evangelho dos domingos e principais festas litúrgicas da Igreja, que preparava com a ajuda dalgum dos excelentes comentários que então circulavam em italiano, e meditava recorrendo a um método original. Na véspera do domingo anterior, pegava no Evangelho do domingo seguinte e dividia-o em sete partes, meditando, depois, cada uma delas num dia da semana, dividindo, por sua vez, cada uma dessas porções em três pontos, segundo o estilo inaciano, para depois o meditar, palavra após palavra, numa oração que se podia estender por diversas horas.


Nessa oração procurava apropriar-se sapiencialmente do texto bíblico, considerando cada uma das suas palavras, repetindo-a e ruminando-a, para o saborear “com pureza de coração, vazia de si mesma e do seu amor próprio” (VII, 309), de modo a dele se imbuir, com fé, esperança, amor e afeto, abrindo-se a todo o mistério da salvação e à revelação dos segredos divinos, “pois o poder de Deus (o Evangelho: Rm 1,16) é como uma pinha, repleta de pinhões, que é preciso lançar no fogo do amor divino, para poder partir a casca com a faca da Palavra de Deus, de modo a dela retirar o seu fruto tão suave e nutritivo” (III, 179s), o amor de Deus, que nos é comunicado pelo Espírito Santo, “refrigério, deleite e alimento das nossas almas”, a quem pede: “Vem e tira de mim tudo o que é meu e infunde em mim só o que é teu” (VI, 194), para só dele viver, a Ele se unindo e nele se transformando por amor.


Sem o saber, ela aprendeu a fazer uma autêntica lectio divina, que informará toda a sua vida carmelita e experiência mística, levando-a a apropriar-se de tal modo da Sagrada Escritura que será capaz de repetir de cor extensos textos da Vulgata em latim durante os êxtases em que falava. Assim a Palavra encarnava nela, fazendo dela uma profeta, como indica a Regra carmelita: “A espada do Espírito, que é a Palavra de Deus, habite com abundância na vossa boca e nos vossos corações. E tudo o que tiverdes de fazer, seja feito na Palavra do Senhor”. Por isso, pede ao Espírito Santo: “Venha aquele que, descendo, fez encarnar em Maria o Verbo e faça em nós pela graça o que nela fez pela graça e pela natureza” (VI, 194). Ao invés de S. Teresa de Ávila, teve a sorte de ter sempre acesso à Sagrada Escritura, que então circulava livremente, primeiro em vernáculo, depois em latim; e quando, à imagem do que acontecera em Espanha, em 1559, também quiseram impedir a sua leitura aos não-clérigo em Itália, escreve ao Papa Sisto V a pedir-lhe que, “não seja avaro e não deixe, por misericórdia, nem queira que fechem a fonte da piedade do Verbo humanado, isto é, o Santíssimo Sacramento e a sua Palavra”, para que estes possam ser dados “aos seus súbditos e ministros e estes também os possam dispensar com liberalidade aos outros”, pois deles é que deve partir a reforma da Igreja (VII, 64).

 

2. A Eucaristia

 

Desde muito pequena, Madalena sentiu uma irresistível atração pela Eucaristia (I, 76), a qual recebeu a primeira vez aos 10 anos, no dia 25 de março de 1576, festa da Encarnação do Senhor, tendo pouco depois, a 19 de abril, Quinta-feira santa, feito voto a Deus de perpétua virgindade, acabando por ingressar para sempre aos 16 anos, a 27 de novembro de 1582, no Carmelo de Santa Maria dos Anjos – o primeiro Carmelo feminino do mundo –, que escolhera porque nele se comungava todos os dias (I, 85).


A partir de então a Eucaristia marcará toda a sua existência, sendo dela que partem ou a ela que conduzem quase todas as suas experiências místicas. A Eucaristia é a Páscoa que o Senhor desejou ardentemente comer com os seus e em que, num excesso louco de amor, num ato incompreensível de misericórdia e de bondade infinitas (I,226ss; II, 402), se deixou a si mesmo, esquecendo-se de si (VII, 243), para se dar a si mesmo e se unir connosco “com o mesmo amor com que encarnou, assumindo a nossa humanidade” (II, 222s). Ela é “a janela do céu”, “a mesa celeste”, “o maná escondido”, que desce diariamente para alimentar o povo de Deus no deserto desta vida (I, 186), maná “que contém em si todos os sabores” (IV, 249) e dá a beber sem medida o fogo do amor divino (II, 302), o Espírito Santo, que renova em nós todo o mistério da salvação.


Por isso diz: “Quando fordes comungar, pensai que esta é a maior e mais digna ação que se pode fazer: receber em vós o Senhor Deus” (VII, 240). Não se pode “encontrar meio mais eficaz para aperfeiçoar a alma do que aproximar-se desta mesa divina, graças à qual, se dela vos soubésseis servir bem, ficaríeis cheias do amor de Deus, porque uma só comunhão é capaz de fazer santa uma alma” (ib., 241). Para isso, após comungar, há, que se esquecer de si mesmo e de tudo o resto, para se perder em Deus, apercebendo-se que “tendes dentro de vós toda a Santíssima Trindade” (ib.) e “imaginando que então só se encontram Deus e vós neste mundo”, aproveitando bem esse “tempo que é o mais precioso e oportuno para se relacionar com Deus, escutar a sua voz e aprender dele a servi-lo segundo a sua vontade, dando glória à Santíssima Trindade e tornando-se útil a todo o mundo”, dando muitos frutos de caridade (ib., 243s).


É assim que em Maria Madalena de’ Pazzi, Palavra e Eucaristia se completam: a Palavra revela o mistério e nele introduz, descobrindo o amor de Deus, apontando os seus caminhos e preparando para a Eucaristia, ao passo que a Eucaristia os comunica e deles faz participar, dando força para pôr em prática a Palavra de Deus, seguindo o caminho de Cristo em íntima comunhão com Deus, a Igreja e os irmãos. Transformando toda a realidade em epifania de Deus e fazendo da própria existência um sacramento de amor ao próximo, para bem da Igreja e da humanidade.

Fr. Pedro Bravo, O. Carm.

 
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