
Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:
A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.
A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen.
1) LEITURA (Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus traz?)
Leitura do Evangelho segundo S. João (11,1-45)
Naquele tempo, 11,1estava doente um certo Lázaro, de Betânia, a aldeia de Maria e de Marta, sua irmã. 2Maria, cujo irmão Lázaro estava doente, era aquela que tinha ungido o Senhor com perfume e Lhe tinha enxugado os pés com os cabelos. 3As irmãs mandaram então dizer-Lhe: «Senhor, eis que aquele de quem és amigo está doente». 4Ao ouvir isto, Jesus disse: «Esta doença não é para a morte, mas para a glória de Deus, para que, por meio dela, seja glorificado o Filho de Deus». 5Ora Jesus amava Marta e a irmã dela e Lázaro. 6Mas quando ouviu dizer que estava doente, permaneceu ainda dois dias no lugar onde se encontrava. 7Depois disto, diz aos discípulos: «Vamos para a Judeia novamente». 8Dizem-Lhe os discípulos: «Rabbi, ainda agora os judeus procuravam apedrejar-te e tu vais novamente para lá?». 9Jesus respondeu: «Não são doze as horas do dia? Se alguém caminhar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo; 10mas se alguém caminhar de noite, tropeça, porque a luz não está nele». 11Disse estas coisas e, depois disto, diz-lhes: «Lázaro, o nosso amigo, dorme, mas Eu vou para o despertar». 12Disseram-lhe então os discípulos: «Senhor, se dorme, será salvo». 13Jesus, porém, referia-se à morte dele, mas eles pensavam que estivesse a falar do repouso do sono. 14Jesus disse-lhes então claramente: «Lázaro morreu. 15E alegro-me por causa de vós, por não ter estado lá, para que acrediteis. Mas vamos ter com ele». 16Disse então Tomé, chamado Dídimo, aos condiscípulos: «Vamos nós também, para morrermos com Ele». 17Ao chegar, Jesus encontrou-o há já quatro dias no sepulcro. 18Betânia distava de Jerusalém cerca de quinze estádios. 19Muitos judeus tinham vindo ter com Marta e Maria, para as confortar por causa do irmão. 20Quando Marta ouviu dizer: “Jesus vem”, foi ao seu encontro; Maria, porém, ficou sentada em casa. 21Marta disse então a Jesus: «Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido. 22Mas sei que também agora tudo o que pedires a Deus, Deus to dará». 23Diz-lhe Jesus: «O teu irmão ressuscitará». 24Diz-lhe Marta: «Eu sei que há de ressuscitar, na ressurreição, no último dia». 25Disse-lhe Jesus: «Eu Sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que morra, viverá; 26e todo aquele que vive e acredita em Mim, não morrerá para sempre. Acreditas nisto?». 27Diz-Lhe: «Sim, Senhor, eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que vem ao mundo». 28Dito isto, partiu e foi chamar Maria, sua irmã, dizendo-lhe em segredo: «O Mestre está cá e chama-te». 29Quando ela ouviu isto, levantou-se depressa e veio ter com Ele. 30De facto, Jesus ainda não tinha chegado à aldeia, mas estava no lugar onde Marta tinha vindo ao seu encontro. 31Então os judeus que estavam com ela em casa e a confortavam, ao verem Maria levantar-se depressa e sair, seguiram-na, pensando que fosse ao sepulcro para ali chorar. 32Quando Maria chegou aonde Jesus estava, vendo-o, caiu a seus pés, dizendo-lhe: «Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido». 33Então Jesus, quando a viu chorar e vendo chorar também os judeus que tinham vindo com ela, fremiu no espírito e ficou perturbado. 34E disse: «Onde o pusestes?». Dizem-Lhe: «Senhor, vem e vê». 35Jesus chorou. 36Diziam, então, os judeus: «Vede como era seu amigo». 37Mas alguns deles disseram: «Não podia Ele, que abriu os olhos ao cego, fazer com que este não morresse?». 38Então, Jesus, fremindo novamente em si mesmo, vem até ao sepulcro. Era uma gruta e tinha sido posta uma pedra sobre ela. 39Diz Jesus: «Retirai a pedra». Diz-lhe Marta, a irmã do defunto: «Senhor, já cheira mal, pois é o quarto dia». 40Diz-lhe Jesus: «Não te disse que, se acreditares, verás a glória de Deus?». 41Retiraram então a pedra. Jesus levantou os olhos ao alto e disse: «Pai, dou-Te graças, porque Me ouviste. 42Eu bem sabia que sempre me ouves; mas disse isto por causa da multidão que me rodeia, para que acreditem que Tu Me enviaste». 43Dito isto, bradou com voz forte: «Lázaro, vem para fora». 44O morto saiu, com as mãos e os pés enfaixados com ligaduras e o seu rosto envolvido num sudário. Diz-lhes Jesus: «Desligai-o e deixai-o ir». 45Então muitos judeus, que tinham vindo ter com Maria, ao verem o que fizera, acreditaram nele.
Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações:
O Quarto Evangelho, de João, apresenta Jesus como o Messias, o Filho de Deus, enviado pelo Pai para criar o Homem Novo. O trecho de hoje apresenta o quinto sinal do “Livro dos Sinais” (1,19-12,50): a vitória da vida sobre a morte. Ele é a primeira parte do díptico que contrapõe o dom da vida aos homens por Jesus (11,1-45) e a sua condenação à morte pelos homens, os dirigentes judaicos (11,46-54).
A perícope pode ser dividida em quatro partes: a situação (vv. 1-6); a decisão da subida de Jesus à Judeia (vv. 7-16); a chegada de Jesus a Betânia (vv. 17-37); a ressurreição Lázaro (vv. 38-45).
- v. 1. Estava doente um certo Lázaro, de Betânia, a aldeia de Maria e de Marta, sua irmã.
A primeira parte do trecho (vv. 1-6) situa o episódio. Está próxima a festa da Páscoa (v. 55), a terceira e última do ministério público de Jesus. A cena decorre em Betânia (“Casa dos pobres”, a atual al-‘Eizariya, em árabe, “o lugar de Lázaro”; a cerca de 2,8 km de Jerusalém [cf. v. 18; agora, com o muro, a 9,7-14,2 km], num dos caminhos que leva de Jerusalém a Jericó) e narra um episódio familiar triste: a morte de Lázaro.
A família de irmãos em cuja casa Jesus se vai hospedar é íntima dele (cf. Lc 10,38-42). É em casa dele que Jesus se hospeda quando vai a Jerusalém (Mc 11,11-12; Mt 21,17), especialmente por ocasião da Páscoa (12,1). Os três, Marta (he. “senhora”, só aqui), Maria (egípcio: “muito amada por Deus”) e Lázaro, são irmãos (v. 2). “Lázaro” é a forma latinizada (e virtualmente grega) do nomo hebraico Lazar, uma abreviação de Eleazar (he. “Deus ajuda”). “Irmão” é a palavra que Jesus usará após a ressurreição para definir a comunidade dos discípulos (20,17; 21,23). A relação de Jesus com Lázaro é de afeto e amizade (gr. philéô, “ter amizade”, “ser amigo”: vv. 3.36; agapáô, “amar”: v. 5). Entretanto, Lázaro fica doente.
- v. 2. Maria, cujo irmão Lázaro estava doente, era aquela que tinha ungido o Senhor com perfume e Lhe tinha enxugado os pés com os cabelos.
Todo o episódio da ressurreição de Lázaro é narrado por João em retrospetiva, a partir da luz que sobre ele projeta a ressurreição de Jesus. Por isso, o evangelista começa por se referir aqui, como sendo já conhecida e tendo sido já feita a ação de Maria aqui, em Betânia, “seis dias antes da Páscoa” (12,1), quando ungiu os pés de Jesus com perfume e os enxugou com os cabelos. Embora só tenha sido feita aos pés de Jesus, João diz aqui que ela foi feita “ao Senhor” (gr. Kyrios, o título pascal de Jesus: 20,2.18.20.25.28), ou seja, a Jesus todo, a todo o seu corpo (Mc 14,8), uma vez que João, que vê nesta unção um anúncio da morte e sepultura de Jesus (12,7; cf. 19,39-40; Mc 16,1; Lc 24,1), também vê na ressurreição de Lázaro, o anúncio da ressurreição de Jesus. Desta forma, o evangelista indica que “a hora” de Jesus está próxima, muito próxima, mesmo às portas.
- v. 3. As irmãs mandaram então dizer-Lhe: «Senhor, eis que aquele de quem és amigo está doente».
Jesus encontra-se na Pereia, no outro lado do rio Jordão (a Transjordânia), na outra Betânia (10,40; na realidade, Bethabara, a atual Al-Maghtas: 1,28), para onde Jesus se tinha retirado para ficar fora da zona de jurisdição do Sinédrio (cf. v. 47). “As irmãs” de Lázaro mandam dizer-Lhe que aquele de quem Ele "é amigo" (gr. philô: v. 36) – ou seja, "ama" (gr. âgapô: v. 5), uma vez que os dois verbos gregos são sinónimos em João, sublinhando mais o primeiro, o intercâmbio e a comunhão de vida; e o segundo, a gratuidade e a entrega pessoal em favor do outro – está doente, literalmente “está enfermo” (gr. asthenéo, Jo, 8x), indicando o verbo, neste caso, uma doença que leva à morte (4,46).
Marta e Maria sabiam que Jesus operava grandes “sinais” em favor dos doentes (cf. 6,2) e ao ver o seu irmão em perigo de vida, recorrem logo, sem demora, a Jesus. Não lhe fazem nenhum pedido explícito: limitam-se a expor a Jesus a situação: “Aquele de quem és amigo está doente”. Tal como Maria, Mãe de Jesus, nas bodas de Caná (2,3). É a confiança total em Jesus, certas do Seu amor e do Seu poder e de que Ele as atenderá, ainda melhor do que elas alguma vez lhe saberiam pedir (cf. Ef 3,20). Tanto mais que são duas, que concordam na necessidade que expõem a Jesus, sabendo, por isso, que já foram escutadas (cf. Mt 18,19). Nada alcança mais de Jesus como a união fraterna e a confiança n’Ele.
- v. 4. Ao ouvir isto, Jesus disse: «Esta doença não é para a morte, mas para a glória de Deus, para que, por meio dela, seja glorificado o Filho de Deus».
No entanto, Jesus, apesar de saber que Lázaro está doente, às portas da morte, não parte imediatamente, para ir ter com ele, uma viagem que demorava cerca de um dia, o mesmo tempo que o mensageiro tinha demorado para chegar até e lhe dar a notícia. Enquanto profeta (cf. 4,19; 9,17) e, mais do que isso, enquanto Filho de Deus, Jesus conhece sobrenaturalmente as pessoas, “vê” realidades ocultas e distantes (cf. 1,48-49; 2Rs 5,26; 6,12) e sabe o que vai acontecer (13,19; 14,29; cf. 1Sm 10,2-6; 2Rs 8,13; Is 44,6-7; 45,21; 46,8-10). Por isso, declara que doença de Lázaro, que ocorre neste momento, pouco tempo antes da Páscoa, “não é para a morte”, não terá como desfecho final a morte de Lázaro – embora por aí vá passar –, mas tem por objetivo especial, segundo o desígnio de Deus: “para a glória de Deus, para que, por meio dela, seja glorificado o Filho de Deus”. São duas afirmações que Jesus faz.
1) “Para a glória de Deus”. Tal como a cegueira do cego de nascença não era por causa de algum pecado específico seu ou de seus pais, mas para que nele se manifestassem as obras de Deus (9,3), também “esta doença” de Lázaro (e a sua consequente morte) não interveio como castigo de algum pecado específico de Lázaro (cf. Dt 28,59-61) ou do pecado do homem (cf. Gn 2,17; 3,19), mas para que Deus, através dela, fosse conhecido, glorificado e confessado como o Deus vivo e verdadeiro que dá a vida, e para que Ele fosse louvado pela graça que iria conceder a Lázaro, fazendo-o ressurgir da morte, e, em virtude dela, pelo bem, misericórdia e consolação que iria dar às suas irmãs, Marta e Maria, ao reverem o seu irmão vivo. A doença e a morte de Lázaro tornar-se-ão o lugar em que se manifestará a glória de Deus, ou seja, a sua misericórdia, amor e fidelidade (cf. Ex 33,18; 34,6-7), que dão a vida, porque dela são a fonte (cf. Sl 36,6-10). Como Jesus dirá a Marta: “Eu não te disse que, se acreditares, verás a glória de Deus?” (v. 40).
“A glória de Deus” manifestar-se-á, não só em razão do bem que será feito, mas também “para que, por meio dela, seja glorificado o Filho de Deus”. O ressurgimento de Lázaro, ou melhor, a sua “reanimação” ou “revivificação” – definições mais exatas, no presente caso, do que “ressurreição”, uma vez que este termo, que só existe a partir do latim cristão, tendo sido por ele criado para designar a “ressurreição” de Jesus, que consiste, não num ser reanimado para voltar de novo a uma vida terrena, corporal, como ela era antes (tal como os rabinos concebiam a ressurreição: cf. mGnR 95,1), para depois, mais tarde, voltar a morrer, mas num ser revivificado, transformado e glorificado na sua carne (1Cor 15,42-44), para depois, existir numa vida nova, em Deus, não voltando mais a morrer (Rm 6,4-11):
a. será ocasião de que Jesus seja glorificado por causa do milagre que Ele irá operar, manifestando “a sua glória”, um tema que evoca o primeiro “sinal” de Jesus nas bodas de Caná (2,11), “sinal” que, tal como este, remete para a sua hora (cf. infra, alínea d);
b) mostrando não só que Ele é o Messias – uma vez que, segundo os rabinos, a ressurreição dos mortos devia ocorrer nos tempos do Messias (cf. v. 27), apesar desta ser atribuída pelos rabinos não ao Messias, mas a Deus;
c) mas, mais do que isso, que Ele, o Filho do Homem (3,14-15), é “o Filho de Deus” (Jo, 9x: v. 27; 1,34.49; 3,18; 5,25; 10,36; 19,7; 20,31), ou seja, Deus, uma vez que só Deus pode ressuscitar alguém de entre os mortos (5,20-21; cf. Dt 32,39; 1Sm 2,3.6; 2Rs 5,7; Sl 68,21; Os 6,2).
2) Porque vai ser por causa deste “sinal” que os saduceus – “que dizem não haver ressurreição dos mortos” (Mc 12,18p; At 23,8) – irão decidir a morte de Jesus (v. 53), mediante a qual Ele será glorificado por Deus (passivo divino), coincidindo, no Quarto Evangelho, a glorificação de Jesus com a sua morte na cruz e a sua consequente ressurreição (12,23; 13,31-32; 17,1). Ao subordinar aqui a glória de Deus à sua própria glorificação por Deus, Jesus acena à sua “hora”, como dirá na última ceia: “Pai, chegou a hora. Glorifica o Filho, para que o Filho te glorifique a ti” (17,1; cf. 12,28; 5,23).
- v. 5. Ora Jesus amava Marta e a irmã dela e Lázaro.
“Amava”: o verbo agora aqui usado (gr. agapáo), é sinónimo de “ser amigo” (v. 3: philéo), indicando que o gesto que Jesus irá executar (fazer Lázaro reviver) o conduzirá à morte. A comunidade dos discípulos de Jesus – aqui representada pelos três irmãos – é a comunidade dos amigos de Jesus (15,15), a comunidade daqueles que Ele ama (13,1.34; 15,9.12) e por quem dá a sua vida (15,13). Jesus é o Bom Pastor que dá a sua vida (10,11) pelos seus amigos.
- v. 6. Mas quando ouviu dizer que estava doente, permaneceu ainda dois dias no lugar onde se encontrava.
Apesar do seu amor a Lázaro e às suas duas irmãs (vv. 3.5), Jesus deixa que o terceiro dia da doença de Lázaro chegue ao fim e que a morte física do amigo se consume, a fim de dar um novo sentido à morte física do homem e mostrar que é Ele quem dá ao homem a vida eterna (cf. v. 25). Tal como não vai ser a morte de Lázaro que vai pôr fim ao seu amor e ao amor das irmãs dele por ele, também a morte não é a negação do amor de Jesus, mas pelo contrário, o amor de Jesus é mais forte e maior do que a morte (cf. Ct 8,5), sendo através dela (a começar, através da Sua própria morte) que Jesus tornará o homem participante da sua ressurreição e vida, fazendo assim da morte páscoa, passagem para a vida (cf. 13,1).
A “demora” de Jesus, não é, pois, sinal de desleixe, frieza ou indiferença, mas é pedagógica. Ela serve para ajudar as irmãs e os discípulos a crescer na fé, na expectativa da salvação, aguardando a hora de Deus, “o tempo da graça, o dia da salvação” (2Cor 6,2; cf. Is 49,8).
- v. 7. Depois disto, diz aos discípulos: «Vamos para a Judeia novamente».
Na segunda parte (vv. 7-16), o evangelista relata a decisão de Jesus voltar à Judeia. Só ao quarto dia do início da enfermidade de Lázaro – ou seja, ao terceiro dia depois da notícia – é que Jesus decide partir novamente para a Judeia, ao encontro do “amigo”. A referência indireta ao “terceiro dia” (cf. Os 6,2), faz deste sinal um anúncio da ressurreição de Jesus “ao terceiro dia” (2,20-22; cf. Mc 8,31p; 9,31p; 10,34p; 1Cor 15,3).
- v. 8. Dizem-Lhe os discípulos: «Rabbi, ainda agora os judeus procuravam apedrejar-te e tu vais novamente para lá?».
Os discípulos tentam dissuadir Jesus de voltar para a Judeia, recordando-lhe que se eles ali se encontram, é porque os judeus há bem poucos dias O tinham querido lapidar (8,59; 10,31), obrigando-o a fugir para aquele lugar (10,39-40). O evangelista mostra novamente que o regresso antecipado de Jesus à Judeia será fatal para Ele, continuando os seus discípulos a não entender que a vontade do Pai é que Jesus dê a vida ao homem mortal, embora seja necessário que, para isso, Ele tenha que dar a sua própria vida.
- v. 9. Jesus respondeu: «Não são doze as horas do dia? Se alguém caminhar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo;
Jesus volta a usar a imagem do dia e da noite, não para as apresentar como símbolo da vida e da morte, como no episódio do cego de nascença (cf. 9,4), mas como alegoria da vida na fé, pela prática do mandamento novo do amor, que faz que aquele que crê e ame o irmão caminhe na luz (12,46), não tendo, por isso, medo da morte (cf. Hb 2,15). Esse “não tropeça”, não peca, porque “vê a luz deste mundo”: no caso de Jesus, o Pai, fazendo a Sua vontade (9,4; cf. Lc 13,32-33); no caso dos seus discípulos, Jesus (8,12; 9,5), em quem creem e cujo mandamento novo põem em prática.
- v. 10. Mas se alguém caminhar de noite, tropeça, porque a luz não está nele».
Pelo contrário, quem rejeitar a vontade do Pai, não acreditando na sua Palavra e não aceitando o seu desígnio, “tropeça” no pecado e cai, “porque a luz não está nele”, ou seja, porque não tem fé e as trevas que tem no seu coração são profundas, cegando-o (cf. 9,39; Mt 6,22-23; Lc 11,34-35). Jesus não dá atenção ao medo dos discípulos: a sua única preocupação é realizar o plano do Pai e consumar a Sua obra.
- v. 11. Disse estas coisas e, depois disto, diz-lhes: «Lázaro, o nosso amigo, dorme, mas Eu vou para o despertar».
Jesus introduz agora outro par de imagens, a do sono (Mc 5,39p) e a do despertar (gr. exypnízo, “despertar do sono”, só aqui, em toda a Sagrada Escritura), para falar da morte e da ressurreição, neste caso, da morte e da revivificação (“despertar”) de Lázaro. A morte era designada no AT como um adormecer (Gn 47,30; cf. 2Pd 3,4), tendo sido esta designação adotada pelos cristãos (cf. At 7,60; 1Cor 7,39; 15,6.20; 1Ts 4,13-15) que compararão a ressurreição a um ser despertado por Deus (gr. egueírô: 2,22) do sono da morte. O verbo “dormir” está no perfeito do indicativo, voz média, indicando que Lázaro “adormeceu” (morreu) e que o seu sono é profundo, já está a decorrer há algum tempo, ou seja, que a morte já se consumou nele (cf. v. 17).
- v. 12. Disseram-lhe então os discípulos: «Senhor, se dorme, será salvo».
Os discípulos não compreendem o que Jesus lhes disse e entendem-no de forma literal, deduzindo que Lázaro será salvo (10,9), isto é, recuperará da doença, ficando com saúde.
- v. 13. Jesus, porém, referia-se à morte dele, mas eles pensavam que estivesse a falar do repouso do sono.
O evangelista alerta o leitor para mais um mal-entendido das palavras de Jesus, uma figura literária, típica do Quarto Evangelho ( (v. 32; 2,19; 3,4; 4,10.32; 6,34; 7,35; 8,33; 12,34; 13,9.36s; 14,22), em que a) a seguir à afirmação de Jesus (v. 11); b) se segue o mal-entendido da parte dos discípulos (vv. 12-13); 3) que ocasiona uma ensinamento de Jesus, desvelando o seu sentido espiritual (vv. 14.25).
- v. 14. Jesus disse-lhes então claramente: «Lázaro morreu.
Jesus diz-lhes que, ao falar do sono, se está a referir à morte de Lázaro, declarando-lhe que esta já se consumou.
- v. 15. E alegro-me por causa de vós, por não ter estado lá, para que acrediteis. Mas vamos ter com ele».
Jesus não deixa transparecer a dor que lhe causou a morte do seu amigo Lázaro (cf. v. 35), mas diz que se alegra por causa dos seus discípulos, por não ter estado junto de Lázaro enquanto ele ainda estava vivo, de forma tê-lo então curado – se bem que não precisasse disso, pois teria bastado apenas uma palavra sua para curar Lázaro, mesmo sem lá ter ido (4,50-53) –, porque isto será ocasião de eles, ao ver que Jesus chama Lázaro da morte ao quarto dia, crescerem na fé em Jesus e acreditarem nele como o Senhor da morte e da vida.
Desta forma, o evangelista aponta novamente para a verdadeira fé de quem é discípulo de Jesus, a fé que Ele espera dele, ou seja, a fé na Sua ressurreição (20,8.27-29). É esta fé em Jesus, na sua Palavra e nas suas obras, que será a fonte de vida nova e de alegria para os discípulos, que graças àquela, participam na alegria de Jesus, fazendo com que Ele neles se alegre (cf. 15,11; 17,13).
Só ao terceiro dia da morte de Lázaro é que Jesus decide partir para a Judeia. Apesar de saber que para aí irá, para lá morrer, não teme a morte. Jesus é o bom pastor que dá a sua vida pelas ovelhas e não foge ao ver o perigo chegar (10,11-12).
- v. 16. Disse então Tomé, chamado Dídimo, aos condiscípulos: «Vamos nós também, para morrermos com Ele».
O apóstolo Tomé é uma figura de destaque no Quarto Evangelho (8x: 14,5; 20,24.26-29; 21,2). O seu nome aramaico "Thoma" é sempre traduzido por João para o grego "Dídimo", significando ambos os nomes o mesmo: "gémeo". Sinal que João escreve este Evangelho para cristãos gregos, que não conhecem nem o hebraico, nem o aramaico.
Tomé é o único apóstolo que se apercebe da gravidade do momento e aponta aos “condiscípulos” (gr. symmathetés, um hápax legómenon joanino, a única vez que este termo aparece na Sagrada Escritura) o caminho do verdadeiro discípulo: “Vamos nós também, para morrermos com Ele”.
- v. 17. Ao chegar, Jesus encontrou-o há já quatro dias no sepulcro.
Na terceira parte (vv. 17-37) João apresenta a chegada de Jesus a Betânia (vv. 17-19), o seu diálogo com Marta (vv. 20-27), o encontro de Maria com Ele (vv. 28-32) e o choro de Jesus (vv. 33-37). Quando Jesus chega a Betânia, no dia seguinte, já Lázaro tinha morrido fazia quatro dias. Ou seja: ele já tinha morrido, logo no mesmo dia em que disseram a Jesus que ele estava doente (v. 3). Não teria adiantado, pois, partir logo naquele dia, porque o resultado seria o mesmo: quando chegasse a Betânia, já Lázaro teria morrido.
Agora, esta situação vai permitir que a glória de Deus – e, com ela, a glória de Jesus – se manifestem, pois o milagre vai ser realizado numa situação que nunca antes tinha acorrido, quer com Elias (1Rs 17,17-22), quer com Eliseu (2Rs 4,20-37; 13,21), quer com o próprio Jesus (Mc 5,35p; Lc 7,12-15), ou seja, ao quarto dia, tendo entrado o cadáver já em putrefação (v, 39).
- v. 18. Betânia distava de Jerusalém cerca de quinze estádios.
O evangelista volta novamente a apontar para “a hora” de Jesus, introduzindo Jerusalém – o local onde Jesus vai ser morto e vai ressuscitar – e dizendo que ela não estava longe de Betânia: distava apenas “cerca de quinze estádios” de Jerusalém, ou seja, cerca de 2,8 km (1 estádio = 186 m x 9 = 2,790 km). A proximidade geográfica de Jerusalém, prepara para a proximidade temporal da “hora” da paixão e morte de Jesus na cruz. Jesus, por ocasião da terceira páscoa do seu ministério, “sobe” para a Judeia mais cedo do que era habitual, por causa da morte de Lázaro.
- v. 19. Muitos judeus tinham vindo ter com Marta e Maria, para as confortar por causa do irmão.
Os familiares mais próximos de um defunto ficam de luto por um período de sete dias, a contar a partir do dia do enterro. Esse tempo chama-se shivá (he. “sete”), porque dura sete dias (cf. Gn 50,10; bShab 152a.15; bSota 13a.4). Visitar e confortar os parentes enlutados pela morte do seu ente querido (he. Nihum Avelim, cf. Jr 16,5-7) é considerada pelos rabinos como sendo uma obra de caridade muito meritória, pois imita as ações de Deus em relação aos que choram a morte de um ente querido (cf. Is 25,21; bSota 14a; cf. Str-B 4,592-607). É neste período que decorre a presente cena.
- v. 20. Quando Marta ouviu dizer: “Jesus vem”, foi ao seu encontro; Maria, porém, ficou sentada em casa.
Marta ao ouvir dizer “Jesus vem” (cf. 1,30; 4,25; 12,12s.15; 20,26; 21,13; Is 40,10; Zc 9,9; Ml 3,1) vai ao Seu encontro, onde Ele se achava, fora da aldeia (v. 30). Maria, porém, não sai de casa, símbolo do luto e da morte, permanecendo aí, para receber, sentada, as condolências dos outros, como é habitual entre os judeus durante a shivá (cf. Jb 2,13). As duas irmãs são aqui descritas como tendo as mesmas características com que são apresentadas por Lucas: Marta, a dona da casa, mais aberta, ativa, interventiva e vigilante, que se põe de pé e caminha (12,2), tomando a iniciativa de falar com Jesus; e Maria, que gosta mais de ficar sentada, recolhida e tranquila em casa (cf. Lc 10,39-40).
Nos vv. 1.32.45, porém, Maria parece ser a personagem principal (que em 12,3 será; cf. v. 2), embora seja Marta que, com a sua fé, provoca a intervenção de Jesus (vv. 21-22.27.39-40), limitando-se Maria a repetir no v. 32 as palavras da irmã (v. 21). Na realidade, ambas são figura da comunidade cristã, que provoca a intervenção de Jesus no meio dos homens: Maria com o seu amor afável, Marta com a sua fé operante.
- v. 21. Marta disse então a Jesus: «Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido.
v. 21: v. 32; cf. v. 37. Marta manifesta a Jesus a sua fé nele: se Jesus tivesse chegado cinco dias antes, teria visto Lázaro doente, elas teriam rogado a Jesus por ele (cf. Mc 1,30-31p), Ele tê-lo-ia curado e o seu irmão não teria morrido.
- v. 22. Mas sei que também agora tudo o que pedires a Deus, Deus to dará».
v. 22: cf. v. 42; Sl 2,8.
Entretanto, Marta vais mais longe na fé, e diz a Jesus que “sabe” (v. 24) – com a mesma fé de Jesus (v. 42; cf. 14,12) – que “também agora”, estando o corpo do seu irmão já em decomposição, “tudo o que” Jesus pedir a Deus, “Deus” Lho dará. Uma certeza que também encontrámos no cego de nascença (9,31). É a certeza da fé, que sabe já ter obtido de Deus o que lhe pede, antes mesmo de o ter recebido (cf. 14,13; 15,7; Mc 5,36; 9,23-24; 11,23p; 1Cor 13,2; Rm 4,18.20-21; Hb 11,17-18; Tg 1,6).
- v. 23. Diz-lhe Jesus: «O teu irmão ressuscitará».
Jesus confirma a fé de Marta, declarando-lhe que o seu irmão literalmente “se levantará” (gr. anístemi, um dos verbos da ressurreição: v. 24; 20,7, mas podendo também ter um significado natural, “põr-se de pé”: v. 31), ou seja, Lázaro ressurgirá.
- v. 24. Diz-lhe Marta: «Eu sei que há de ressuscitar, na ressurreição, no último dia».
“Eu sei”: Marta exprime novamente a certeza da fé (v. 22), neste caso, na ressurreição final de todos, justos e injustos (5,29; At 24,15), “no último dia” (6,39.40.44.54).
A fé e a esperança na ressurreição corporal dos mortos era típica dos judeus, tendo surgido depois das perseguições contra os membros do povo de Deus e a morte de muitos deles durante o reinado de Antíoco Epífanes IV (167 a.C.: 1Mc 1,50). Deste então os judeus esperavam uma ressurreição física, um voltar à vida, dos justos e dos ímpios, no último dia, o do juízo final (1Jo 4,17; cf. 1Cor 1,8; 2Tm 4,8; 2Pd 3,7.10), em que todos seriam julgados, indo os justos para uma ressurreição de vida, vivendo em comunhão com Deus sobre esta terra, e os injustos para uma ressurreição de morte, ou seja, de condenação (5,29).
Esta fé e esperança na ressurreição final era concebida por Marta e os judeus à luz de Dn 12,2: na morte, o espírito do homem “descia” (Gn 37,35; 1Sm 2,6) ao Xeol (Nm 16,33), nas profundezas da terra (Dt 32,22; Sl 86,13; Is 14,9), a morada ou reino dos mortos, onde eles tinham uma existência apagada (Qo 9,10), no meio das trevas e da sombra da morte (Jb 3,5; 10,21-22), aí dormindo (v. 13; Sl 13,3), enquanto não chegar o momento em que serão despertados por Deus (Is 26,19) para ressuscitarem para uma existência física, os justos para uma vida, livre das consequências e defeitos que o pecado tinha introduzido na existência humana, e os mortos, para uma tribulação e castigo na geena, que nunca mais terão fim (Is 66,24; Mc 9,43-48p).
- v. 25. Disse-lhe Jesus: «Eu Sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que morra, viverá;
Jesus responde a Marta, retificando a conceção judaica veterotestamentária e declarando-lhe que a ressurreição final já começou nele.
Começa por dizer: “Eu Sou”. É a quinta das sete fórmulas teofânicas com que Jesus, no Quarto Evangelho, se apresenta a si mesmo, embora de forma velada (cf. 9,9), como sendo Deus, fazendo seu o nome divino revelado por Deus a Moisés no monte Sinai, “Eu sou” (Ex 3,14-15; Is 45,8.18.19.22; Jo, 23x), e acrescentando-lhe uma expressão, que explicita a missão salvífica que levará a cabo (i: 6,35; ii: 8,12; iii: 10,7; iv: 10,11; vi: 14,6; vii: 15,1), enquanto “Filho do homem” (v. 35), ou seja, enquanto Verbo encarnado (1,14).
Desta vez é: “Eu Sou a ressurreição e a vida”. São duas afirmações.
Primeiro, Jesus afirma que é “a ressurreição”, em sentido absoluto, com artigo definido, indicando que a ressurreição final do homem não vai ser algo apenas físico, mas uma participação na ressurreição de Jesus. Desta forma, a ressurreição final não acontecerá só no último dia. Pelo contrário: ela inaugurar-se-á na ressurreição de Jesus, mais precisamente, em Jesus ressuscitado, que é a ressurreição: “Eu Sou a ressurreição”. Tal como é “a salvação”, Jesus é “a ressurreição”, porque em virtude da sua ressurreição, ele levará os que creem nele à ressurreição final, prefigurada na revivificação de Lázaro (que ainda não é a ressurreição gloriosa, do último dia).
Em segundo lugar, Jesus acrescenta que é “a vida”, um tema constantemente repetido desde o princípio do Quarto Evangelho. Não se trata de uma tautologia ou repetição. A vida, em João, é um atributo propriamente divino (1,4; 3,36; 5,21.24.26, etc.), sendo sinónimo de “vida eterna” (3,15.16.36; 6,40.47; etc.), a vida divina, que Jesus tem (1Jo 5,11), é (5,40; 14,6; 1Jo 5,20) e dá (10,28; 1Jo 4,9; 1Jo 5,12).
Esta vida divina é comunicada por Jesus ressuscitado àqueles que estão “mortos”, não apenas fisicamente, mas também no pecado (Mt 4,16), e que n’Ele acreditam (gr. pistéuo eis), ou seja, àqueles que O escutam, acreditam na sua palavra (5,24!), n’Ele confiam e a Ele totalmente se entregam, unindo-se a Ele pelo batismo, tornando-se assim participantes da sua morte e da sua ressurreição: “sepultados com Cristo no batismo, com Ele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus que O ressuscitou dos mortos” (Cl 2,12; cf. Rm 6,3-11). Assim, aquele crê em Jesus, passou da morte do pecado para a vida (5,24; 1Jo 3,14), participando da vida de ressuscitado que Jesus glorificado tem com o Pai (Rm 6,1-11; 8,2.9-11; Cl 2,12-13; 3,1), de modo que “nem a morte, nem a vida…, nem o presente, nem o futuro… nos poderão separar do amor de Deus em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,38-39). Desta forma, a morte, tal como Dn 12,2 a concebia, foi abolida.
Por isso, aquele que acredita em Jesus, “mesmo que morra, viverá”, porque, para quem crê em Jesus, morto e ressuscitado, morrer é entrar na verdadeira vida, porque então se possui o Senhor: “Para mim o viver é Cristo, e o morrer um ganho. Tenho o desejo de partir e estar com Cristo, porque isto é muito melhor” (Fl 1,21). Assim, aqueles que “adormeceram” em Cristo (cf. v. 11), não morreram, mas passaram para a verdadeira vida, que nunca mais terá fim, enquanto aguardam a ressurreição final. Isso acontecerá graças a Cristo “ressurreição e vida”, ou seja, graças a Cristo ressuscitado. Por isso, o verbo “viver” está no futuro: “viverá”.
- v. 26. E todo aquele que vive e acredita em Mim, não morrerá para sempre. Acreditas nisto?».
Por sua vez, “todo aquele que vive”, porque foi regenerado por Cristo e acredita n’Ele (gr. pistéuo eis), confiando-se a Ele e n’Ele vivendo, não experimentará a morte eterna, “não morrerá”, não será condenado, “para sempre”. Mais: não permanecerá para sempre na morte. Porquê? Porque será ressuscitado por Cristo “para a ressurreição da vida” (5,29), por uma ressurreição semelhante à Sua (cf. Rm 6,5; Fl 3,21). É esta a esperança cristã.
- v. 27. Diz-Lhe: «Sim, Senhor, eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que vem ao mundo».
v. 27: 6,69.
b) “o Cristo”, ou seja, o Messias prometido (1,41; 4,26; 20,21; At 2,36), em cuja era, conforme afirmavam os rabinos, começaria a ressurreição dos mortos (mGnR 95,1), ressurreição esta que não será a de viver para sempre sobre esta terra, como os mesmos diziam, mas muito mais do que isso, a de participar na vida divina de Jesus ressuscitado, acrescentando por isso, que Ele é;
Marta adere a Jesus, acreditando na sua palavra, e confessa a sua fé n’Ele, dizendo que:
a) Ele é “o Senhor” (o nome divino com que era designado Deus no AT) seu (9,36; 20,28) e de tudo (Fl 2,11);
c) “o Filho de Deus”, em sentido absoluto, próprio e pessoal (1,34.49; 10,36; 20,21; Mt 16,16), “que vem ao mundo” (1,9; 6,14; 12,46; 16,28; 18,37; 1Tm 1,15; Mt 11,3; Lc 7,19-20; Ml 3,1) [para tornar os que nele creem participantes da vida eterna: (3,15-16.36)].
- v. 28. Dito isto, partiu e foi chamar Maria, sua irmã, dizendo-lhe em segredo: «O Mestre está cá e chama-te».
Tendo-se encontrado com Jesus e confessado a sua fé nele, Marta vai ter com a sua irmã e chama-a (cf. 1,41-42.45-46) “em segredo”, consciente da inimizade que a pessoa de Jesus suscitava (cf. vv. 8.54), para que os judeus que estavam ali com ela (cf. v. 31) não ouvissem o que ela ia dizer: “O Mestre está cá” e se sentissem provocados pela presença de Jesus (cf. v. 46).
“Chama-te”: Jesus não pediu a Marta para chamar a sua irmã e lhe dizer para ela ir ter com Ele. Mas Marta interpreta a chegada de Jesus como um apelo, e a afirmação de Jesus, “Eu sou a ressurreição e a vida…” (vv. 25-26), como um chamamento dirigido a elas as duas, uma vez que ambas, que acreditavam nele, estavam, com a morte do irmão, mergulhadas nas cadeias da tristeza da morte (cf. Sl 116,3; Mc 14,34p; 2Cor 7,10), precisando de entrar na luz da ressurreição pela fé na palavra de Jesus (cf. 5,24). Sobretudo Maria, que tinha ficado sentada, na casa do luto, símbolo da morte (v. 20), tal como o seu irmão, Lázaro, estava sepultado no sepulcro. Por isso, transmite este apelo que ela sente e dirige-o a Maria, sua irmã, como um chamamento que lhe é dirigido pelo próprio Jesus.
- v. 29. Quando ela ouviu isto, levantou-se depressa e veio ter com Ele.
Da mesma forma que Lázaro só despertará da morte e sairá do sepulcro depois do chamamento de Jesus lhe ter sido dirigido (v. 43), também Maria só é capaz de sair da sua imobilidade e se levantar, isto é, de “ressuscitar” (gr. egérthe, o verbo e a forma verbal do anúncio da ressurreição: Mt 28,6.7; Mc 16,6; Lc 24,6.34) e ir ter com Jesus depois de ouvir a sua voz, que lhe chega através da irmã: “Sem mim, nada podeis” (15,5; cf. 5,25). Ela “vem depressa” (gr. erchomai tachys, “vir” “depressa”, “logo”, “em breve”) porque reconhece a voz do pastor (10,3-4) e vem ter com Jesus, fortalecida pelo seu apelo (cf. Sl 138,3), correspondendo assim ao chamamento daquele que em breve virá (cf. Ap 22,20; 2,16; 3,11; 22,7.12) para ressuscitar os mortos.
- v. 30. De facto, Jesus ainda não tinha chegado à aldeia, mas estava no lugar onde Marta tinha vindo ao seu encontro.
Jesus não tinha entrado em Betânia, na povoação da morte, para ir ter com Maria na casa do luto, porque aquela não é a sua morada, mas fica fora, “no lugar onde Marta tinha vindo ao seu encontro” (v. 20). Ele é o Bom Pastor que “chama pelo nome as suas ovelhas e condu-las para fora” (10,3), “para que tenham a vida e a tenham em abundância” (10,10); Ele é a ressurreição e a vida, que veio chamar os mortos à vida e conduzi-los ao reino do Pai. O encontro com Jesus realizar-se-á no lugar onde foi proclamada a Boa nova e professada a confissão de fé.
- v. 31. Então os judeus que estavam com ela em casa e a confortavam, ao verem Maria levantar-se depressa e sair, seguiram-na, pensando que fosse ao sepulcro para ali chorar.
Os judeus que estavam com Maria em casa dela para a consolar (v. 19), vão atrás de Maria, pensando que ela “fosse ao sepulcro para ali chorar”. Na morte de Lázaro, só encontram e reconhecem o chamamento para seguirem o mesmo percurso que ele seguiu: ir ter com a morte e chorá-la, sem esperança de escapar às suas malhas. Mas seguindo um discípulo de Jesus, sem querer, acabam por se encontrar com Ele e também poderem optar por acreditar nele ou não (cf. vv. 45-46).
- v. 32. Quando Maria chegou aonde Jesus estava, vendo-o, caiu a seus pés, dizendo-lhe: «Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido».
v. 32: v. 21; cf. v. 37.
Quando chega “aonde Jesus estava” (14,3; cf. 21,7-9), Maria cai aos pés de Jesus (cf. 2Rs 4,37; Mc 5,22; Lc 8,41; 17,16; Ap 1,17), numa atitude de veneração e de adoração (“Senhor”) e repete-lhe o que a sua irmã já Lhe tinha dito. Mas, ao invés da irmã, não vai mais longe na sua fé (cf. v. 22).
- v. 33. Então Jesus, quando a viu chorar e vendo chorar também os judeus que tinham vindo com ela, fremiu no espírito e ficou perturbado.
v. 33: cf. v. 38.
Pelo contrário: a dor de Maria é bem mais expressiva do que a de Marta. Ela limita-se apenas a chorar, mas fá-lo de tal maneira, que os judeus que com ela vêm também choram.
O próprio Jesus reage agora de forma mais intensa do que com Marta, “fremindo no espírito” (v. 38), ou seja, reagindo severamente, movido pelo Espírito (cf. Mt 9,30; Mc 1,43), contra a morte (v. 38) e sentindo-se intimamente perturbado, com irá acontecer nos dois momentos seguintes em que irá sentir mais um passo de aproximação da sua própria morte, que se deixa ver como cada vez mais iminente (12,27; 13,21).
- v. 34. E disse: «Onde o pusestes?». Dizem-Lhe: «Senhor, vem e vê».
O pranto de Maria e dos judeus comove Jesus e decide-o a agir (cf. Lc 7,13). Pergunta então onde é que Lázaro foi sepultado. Em geral, o defunto era sepultado dentro do primeiro dia completo (para nós, 24 h) após a ocorrência da sua morte. Eles respondem-lhe com as mesmas palavras com que Jesus chamou os seus discípulos a segui-lo e eles se chamaram uns aos outros: “Vem e vê” (1,39.46).
- v. 35. Jesus chorou.
v. 35: cf. Lc 19,41.
O verbo usado para designar o choro de Jesus (gr. dakruo, “derramar lágrimas”) é distinto do usado para as restantes pessoas aqui presentes (gr. klaío, “chorar”, “gritar”: Mc 5,38-39; Lc 7,13). Jesus, como verdadeiro homem, que sofre perante a morte do amigo e se comove com dor dos parentes deste, seus amigos também (cf. Hb 2,17; 4,15; Jb 30,25; Sl 35,14), não tem gritos de dor, mas derrama lágrimas de compaixão. O seu pranto não é ruidoso, mas sereno. Chora “com os que choram” (Rm 12,15), solidariza-se com a dor deles, mas não com o desespero.
No choro de Jesus revela-se o próprio Deus que partilha o luto do homem, entra nas suas dores e conhece o seu sofrimento (cf. Ex 3,7-8), transformando as suas lágrimas em fonte de esperança e de alegria, em motivo de salvação (cf. 16,20.22; Mt 5,5; Is 30,18-21).
- v. 36. Diziam, então, os judeus: «Vede como era seu amigo».
v. 36: cf. vv. 3.11.
Como notam os judeus que tinham acompanhado Maria (v. 33), Jesus derrama lágrimas por Lázaro como verdadeiro amigo (cf. 2Sm 1,4.11-12.26), como autêntico irmão (cf. Sl 35,14).
- v. 37. Mas alguns deles disseram: «Não podia Ele, que abriu os olhos ao cego, fazer com que este não morresse?».
Entretanto alguns judeus, ao verem Jesus chorar, perguntam se Ele, do mesmo modo que tinha curado o cego de nascença (9,1-7) – sendo a cegueira considerada como uma morte (bNed 64b) que só Deus podia curar – não poderia também, a maior título e por extensão, ter curado atempadamente a doença de Lázaro, tal como fez com o cego de nascença (e com o filho de Jairo)?
João prepara assim a intervenção de Jesus: o modo como Jesus curou o cego de nascença (e o filho de Jairo), será o mesmo que irá usar em relação a Lázaro: realizar o milagre apenas com o poder da sua palavra (v. 43; 9,7; 4,50.53).
- v. 38. Então, Jesus, fremindo novamente em si mesmo, vem até ao sepulcro. Era uma gruta e tinha sido posta uma pedra sobre ela.
Com a quarta parte (vv. 38-45), João narra a ressurreição de Lázaro (vv. 38-45), cena com a qual culmina e se encerra esta perícope. Jesus freme novamente dentro de si mesmo (cf. v. 33; Mt 9,30), porque enfrenta intimamente a morte e “vem ao sepulcro”. O verbo “vir” está no presente do indicativo, mostrando que Jesus vem sempre ao encontro dos seus amigos – os seus discípulos – que estão na tristeza, na dor e na morte (cf. 14,3).
O sepulcro de Lázaro, diversamente do de Jesus, que era “um sepulcro novo, onde ninguém tinha sido posto” (19,41) é uma gruta, escavada profundamente na rocha, sobre a qual estava posta uma pedra, tapando a entrada (cf. 20,1p), símbolo do caráter definitivo da morte.
O termo “gruta” (gr. spélaion) evoca a gruta de Macpela onde foram sepultados os patriarcas, Sara (Gn 23,9-20) e Abraão (Gn 25,9-10), Isaac e Rebeca, Lia (Gn 49,29-32) e Jacob (Gn 50,13) – e, segundo os rabinos, também Adão e Eva (bSota 7) – devendo ter diversos pisos, para servir de jazigo, onde todos eles pudessem ser sepultados. A gruta onde Lázaro é sepultado devia ser também desse género, simbolizando em João a sucessão e transmissão da morte desde Adão e Eva, passando pelas origens ancestrais do povo de Deus.
- v. 39. Diz Jesus: «Retirai a pedra». Diz-lhe Marta, a irmã do defunto: «Senhor, já cheira mal, pois é o quarto dia».
Ao chegar ao pé do sepulcro, a primeira coisa que Jesus faz é mandar tirar a pedra que tapa a entrada da gruta, remover o obstáculo, retirar a separação, mostrando que as duas realidades – a morte e a vida – n’Ele já não estão separadas, pois ao oferecer a vida plena aos homens, abate as barreiras criadas pela morte física, fazendo que a luz da vida penetre no antro da morte e o ilumine.
Marta ao ouvi-lo, intervém logo, como é seu hábito, advertindo que o corpo já cheira mal, porque já se encontra em putrefação, uma vez que já se vai no quarto dia da morte de Lázaro. Deste modo, destaca-se uma vez mais que ressurreição de Lázaro se dá ao quarto dia, num corpo que já começou a entrar em decomposição. Porquê?
Porque a ressurreição do homem, que começa com a vida nova que recebe de Jesus e se realizará plenamente no último dia (v. 24), é consequência da ressurreição de Jesus, que teve lugar “ao terceiro dia” (1Cor 15,4; Lc 24,46), ressuscitando os corpos já decompostos e reduzidos, no melhor dos casos, apenas a ossos ou até a pó. Enquanto a ressurreição de Lázaro anuncia a ressurreição de Jesus, sendo imagem da nossa ressurreição no último dia, a ressurreição de Jesus precede a ressurreição de Lázaro um dia, porque é anúncio, causa e a fonte de vida nova, promessa e penhor da ressurreição dos homens.
- v. 40. Diz-lhe Jesus: «Não te disse que, se acreditares, verás a glória de Deus?»
Perante o obstáculo que é a objeção de Marta, lembrando o trabalho irreversível da morte, Jesus convida-a a renovar a fé nele, que já lhe tinha pedido antes (vv. 25-26), mas que agora a chama a levar até às últimas consequências, que é o fim pelo qual, segundo o plano de Deus, adveio a morte de Lázaro, como Ele tinha dito aos seus discípulos: “para a glória de Deus, para que, por meio dela, seja glorificado o Filho de Deus” (v. 4).
A promessa “verás” liga o presente episódio à promessa feita a Natanael, depois de ele ter professado a sua fé em Jesus, como Filho de Deus, Rei de Israel: “Porque te disse: vi-te debaixo da figueira, crês? Verás coisas maiores do que estas”. E antecipa o que então prometeu aos discípulos: “Vereis o céu aberto” (1,49-51). A primeira promessa é o que vai acontecer agora; a segunda, o que o discípulo amado contemplará na cruz e os apóstolos verão na ressurreição de Jesus: viram o lado aberto de Jesus (19,34-37; 20,20.27).
- v. 41. Retiraram então a pedra. Jesus levantou os olhos ao alto e disse: «Pai, dou-Te graças, porque Me ouviste.
Marta acede e “retiram então a pedra”. É removida o muro que separava a morte da vida, a barreira que impedia de entrar na gruta e de sair dela.
Jesus começa o sinal por uma oração. É o que Elias tinha feito antes da ressurreição do filho da viúva de Sarepta, tendo-o Deus escutado (1Rs 17,21-22), assim como Eliseu, antes da ressurreição do filho da sunamita (2Rs 4,33).
Jesus “levantou os olhos” (17,1) “ao alto” (gr. ánô), para o Pai, de Quem Ele é e vem (8,23). E começa a orar, invocando a Deus como “Pai” (12,27-28; 17,1.5.11.21.24-25), o nome com que sempre invoca a Deus e se refere a Ele (2,16; 3,35; 4,21-23; 5,18; etc.), apresentando-o como a fonte donde é, onde está (14,10), donde vem (1,14.18) e para onde vai (13,1), e do qual recebe o poder de dar a vida a Lázaro e aos que estão mortos (5,19-23.26).
Na oração, Jesus, depois de invocar o Pai, dá graças (gr. eucharistéô, Jo, 3x) ao Pai (6,11.23), a oração que continuamente deve brotar do coração dos seus discípulos (Ef 5,20) e acompanhar sempre as suas súplicas e ações (1Ts 5,18; Cl 3,17).
A oração de Jesus é na fé: Ele sabe que já foi ouvido pelo Pai (cf. supra, v. 22), ainda antes de lho ter pedido.
- v. 42. Eu bem sabia que sempre me ouves; mas disse isto por causa da multidão que me rodeia, para que acreditem que Tu Me enviaste».
Por isso, Jesus também não formula nenhum pedido (cf. v. 3), certo que o Pai sabe tudo o que Ele lhe quiser pedir e que sempre o escuta e lho concede (cf. supra, v. 41), porque faz sempre a Sua vontade, como já tinha afirmado o cego de nascença (9,31). De facto, Ele e o Pai são um (10,30), e único é o seu desígnio (5,30; 6,39-40) e a sua ação (10,37-38), sendo o Pai, que está nele, que faz as obras (14,10).
No entanto, diz agora esta prece em voz alta, não porque Ele ou o Pai isso precisem, mas para que todos os que o ouvirem possam saber que o Pai sempre o escuta e responde, tal como o voltará a repetir mais tarde (12,30) e assim acreditem que foi o Pai que o enviou (5,23.30.36-37; 6,39.44.57; 8,16.18.29.42; 10,36; 12,49; 14,24; 17,21.25; 20,21).
- v. 43. Dito isto, bradou com voz forte: «Lázaro, vem para fora».
Depois, apenas com a sua palavra, tal como dissera (5,23), Jesus impera sobre a morte e “clamando, com voz forte” manda Lázaro sair do sepulcro e vir “para fora”, ou seja, para a Sua luz (cf. vv. 9.37; Ef 5,14), mostrando assim que a morte física do morto não interrompe a vida do discípulo (cf. v. 25). Tal como é a palavra de Jesus que faz Lázaro sair da morte e voltar à vida, também a vida nova do discípulo vem pela fé em Jesus, fé esta que nasce da escuta da palavra de Deus (2,22; 4,39.51.50; 5,24; 8,31; 17,20; Rm 10,17; Gl 3,2.5).
“Bradou” (gr. ekraugasen, do verbo kraugázô, “gritar”: 12,13; 18,40; 19,6.12.15) distingue-se de “clamar” (gr. krazô: 1,15; 7,28.37; 12,44). O “brado” de Jesus brota diretamente da sua oração, como diz o início desta frase: “dito isto”.
“Com voz forte”: não só para Lázaro o ouvir, no lugar onde o colocaram, completamente enfaixado, dentro da gruta (v. 34), mas também para que “a multidão” que “rodeava” Jesus o ouvisse e assim acreditasse que Jesus era o Messias, o Filho de Deus, enviado pelo Pai ao mundo (v. 27) para o salvar do poder da morte e lhe dar a vida.
- v. 44. O morto saiu, com as mãos e os pés enfaixados com ligaduras e o seu rosto envolvido num sudário. Diz-lhes Jesus: «Desligai-o e deixai-o ir».
Lázaro, “o morto” (gr. tehtnêkôs, particípio perfeito, indicando que já há algum tempo – quatro dias – se tinha consumado a sua morte) obedece à voz de Jesus e vem para fora, enfaixado como estava, tendo o rosto envolvido num sudário, como era habitual os judeus sepultarem. Estes detalhes – as ligaduras e o sudário – sublinham a realidade da morte, do mesmo modo que a referência de Marta ao quarto dia (v. 39), indicando que o seu cadáver já tinha começado a corromper-se. O texto evidencia um paradoxo: o que sai do sepulcro estava morto e ostenta todos os atributos da morte; no entanto, porém, sai por si mesmo, porque está vivo.
Entretanto, Jesus intervém junto dos presentes e diz-lhe para desligarem Lázaro e deixarem-no ir. Não basta ter ressuscitado do mortos: Lázaro precisa de ser “desligado”, ou seja, libertado, “soltado” (At 2,24; Sl 102,21; cf. Sl 18,6; 116,3), das “ligaduras” que ainda o atam e do sudário (gr., do lat. sudarium, “lenço”) que lhe cobria o rosto (20,7) para conseguir caminhar livremente.
Normalmente os judeus, aos cadáveres, antes de serem sepultados, rapavam primeiro os pelos do corpo, depois lavam o corpo por imersão ou com água corrente (he. mikvá, gr. báptisma: cf. At 9,37; Mc 10,38; Lc 12,50), a seguir ungiam-no com perfumes, depois envolviam-no num lençol (he. çadiyn; Jz 14,12; Pv 31,24; gr. sindôn: Mc 15,46p) ou em panos de linho (gr. ithónion: 19,40; 20,5-6; Lc 24,12; cf. bKet 14; bMQ 27b.4), sendo o rosto coberto com um lenço (lat./gr. sudarium: 20,7; bMQ 27a.24).
As “ligaduras” (gr. keiría: só aqui e em Pv 7,16, na Sagrada Escritura) de que se fala aqui, deviam destinar-se a envolver as mãos e os pés do cadáver com o lençol ou os panos de linho, prendendo-os, e segurar o lenço no rosto, não sendo atestadas em nenhuma outra passagem. Elas são o símbolo das cadeias da morte que tinham “prendido” Lázaro (cf. Ct 7,6; Jr 10,1; At 12,6) e, neste caso, também das amarras do pecado (cf. 1Jo 3,8; Ap 1,5) e do “muro” dos preceitos da Lei (cf. Ef 2,14-15) que podem impedir os discípulos, renascidos do alto e vivificados pelo Espírito Santo (20,22), de caminhar livremente segundo a palavra de Jesus (cf. 8,31; Rm 8,2-6.9-11).
“Deixai-o ir”: é o mandato que Jesus dá aos que por Ele foram miraculados, indicando com isto que as suas preces – ou as preces dos outros por eles – foram atendidos (Mt 8,13p), estando agora reabilitados para começar uma vida nova, retomando, com autonomia pessoal, o seu lugar no seio da família, no trabalho e na comunidade crente (Mt 8,4p; 9,6; Mc 5,19).
Em João, “ir” (gr. hypágô) evoca aquele que renasceu do pelo Espírito (3,8), seguindo doravante Jesus, “caminho, verdade e vida”, que os conduz ao Pai (14,4-6), e dando muito fruto (15,16). É assim que glorificando Jesus, vivendo como seus discípulos, glorificam o Pai: “Nisto é glorificado o meu Pai: em que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos” (15,8).
- v. 45. Então muitos judeus, que tinham vindo ter com Maria, ao verem o que fizera, acreditaram nele.
A perícope termina com a reação normal do homem ao encontro com Jesus e à manifestação da Sua glória: acreditar nele (1,15; 2,11.23; 7,31; 12,42). A vida é a aspiração suprema do homem, a sua luz (1,4; 4,39; 8,12). E Jesus mostra que é Ele que dá a verdadeira vida, a vida que vence a morte. A forma como muitos judeus que tinham vindo consolar Maria por causa da morte do seu irmão, se encontraram com Jesus, foi seguir uma das suas discípulas, Maria. O mesmo que aconteceu com André e João (1,37), Simão Pedro (1,41), Natanael (1,45), os samaritanos (4,39.41-42), etc.
Maria é agora a única entre os três a ser mencionada: ela é figura da comunidade cristã, que vive unida, formando um com Jesus e o Pai e uns com os outros (17,21) e dando testemunho dele com a sua palavra (17,20), para que o mundo creia (17,21). Tal é também o objetivo de todo o verdadeiro discípulo e autêntica comunidade cristã: dar testemunho de Jesus e levar aqueles que recebem o seu testemunho a Jesus, presente no meio deles, para que escutando a sua Palavra, acreditem nele e tenham a vida eterna (20,31).
Ler o texto outra vez... Em silêncio, escutar o que Deus me diz no segredo...
2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)
a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio…
d) Partilha e) Que frase reter? f) Como a vou / vamos pôr em prática?
- Pelo Batismo, recebemos a vida nova que Jesus nos dá. Tenho sido coerente com esse dom, fazendo da minha vida uma dádiva de amor?
- Ao longo da nossa existência, convivemos com situações em que fomos tocados pela morte daqueles a quem amamos… e é natural que fiquemos tristes pela sua partida. A nossa fé ajudou-nos a viver esta situação? Como?
3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?)
4) CONTEMPLAÇÃO… (Saborear a Palavra em Deus, deixando que ela inflame o coração)
Salmo responsorial (↗partitura) (↗mp3) Sl 130,1-8 (R. 7)
Refrão: Junto do Senhor a misericórdia,
junto do Senhor a abundância da redenção.
Do profundo abismo chamo por Vós, Senhor,
Senhor, escutai a minha voz.
Estejam os vossos ouvidos atentos
à voz da minha súplica. R.
Se tiverdes em conta as nossas faltas,
Senhor, quem poderá salvar-se?
Mas em Vós está o perdão,
para Vos servirmos com reverência. R.
Eu confio no Senhor,
a minha alma espera na sua palavra.
A minha alma espera pelo Senhor
mais do que as sentinelas pela aurora. R.
Porque no Senhor está a misericórdia
e com Ele abundante redenção.
Ele há de libertar Israel
de todas as suas faltas. R.
Pai-nosso…
Oração conclusiva:
Senhor nosso Deus, concedei-nos a graça de viver com alegria o mesmo espírito de caridade que levou o vosso Filho a entregar-Se à morte pela salvação dos homens. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. T. Amen.
Ave-Maria...
Bênção final. Despedida.
5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na nossa vida)
Fr. Pedro Bravo, O.Carm.