A propósito de Jacinta e Francisco

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No meio das pequenas, médias e grandes notícias sobre quase tudo e quase nada, foi com júbilo – como católico e português –  que soube da canonização dos pastorinhos de Fátima, Jacinta e Francisco, que o povo cristão, já há muito, havia consagrado como memórias vivas de santidade.


Nestas ocasiões é frequente ouvirem-se vozes desvalorizando ou troçando da ideia cristã da santidade. Bem sei, também, que os santos estão “fora de moda” na sociedade hedonista, relativista, de curto-circuito entre dinheiro e consciência, subjugada à “ditadura das banalidades”, carente de exemplaridade, fóbica em relação ao transcendente. Oscar Wilde haveria de, com sarcasmo, antecipar, no seu tempo, esta ideia, ao dizer que a diferença entre um santo e um pecador, é que o santo tem sempre um passado e o pecador tem sempre um futuro…


Ser santo é a versão com fé da exemplaridade laica. Uma expressão da Graça Divina, mas também da condição livre de se ser pessoa e da convicção de que só a partir do nosso interior se pode transformar o que nos é exterior. Ser santo é, também, uma forma de subversão vivida na ausência de qualquer forma de poder, que é onde se deve revelar toda a presença de Deus. Escreveu D. Saraiva Martins que a santidade não consiste em fazer nada de extraordinário ou de “exótico”, longe do alcance do homem comum, mas sim fazer sempre e bem as coisas ordinárias, na família, no trabalho, na sociedade, na educação, na vida pública, na vocação.


A santidade assenta na fé vivida e no serviço testemunhado, como também em regras de vida que estão ao alcance de todos, com ou sem fé. No fundo, sabendo-se que o mais difícil de alcançar é o simples, que o mais possível de alcançar é o que mais impossível parece, que o maior alimento do direito é o dever, que o mais aparentemente insignificante sacrifício pode ser o mais virtuoso, que a mais radical sinceridade é irmã gémea da verdade, que a mais austera perseverança é irmã gémea da bondade, que o heroísmo é a persistência paciente na luta de cada dia, que a fraternidade é o coração da inteligência e a inteligência do coração, que na autenticidade está o coração do comportamento, que a mais minúscula verdade supera as mais poderosas mentiras, que a mais insignificante das perfeições é preferível à mais sonante das imperfeições, que o exemplo é o caminho mais curto para o bem e o mais contagiante para os outros, e que o optimismo radica na esperança, na virtude, no trabalho e que o pessimismo radica na indiferença.


No caso dos dois mais jovens beatos não-mártires Jacinta e Francisco, enquanto intercessores e como modelos de santidade, a sua canonização é também um encorajamento para fortalecer uma Igreja que pugne, cada dia, pela opção preferencial pelos pobres, pelos últimos, pelas crianças.


Nestas alturas, é recorrente apelar-se à separação completa entre o Estado e a Igreja. Porém, a laicidade do Estado não implica a laicidade da sociedade. A sociedade é plural e livre no sentido religioso e é errado confundir, neste plano, Estado e Sociedade. A louvável e imperativa neutralidade religiosa do Estado não significa neutralidade por omissão, indiferença, abstenção, ignorância ou desconhecimento dos fenómenos religiosos e muito menos hostilidade.


Não entendo, por isso, a omissão de alguns órgãos de soberania, sempre tão pródigos e rápidos em felicitar outras personagens e destacar outros acontecimentos e em formular votos de congratulação por dá cá aquela palha.


Esta simbólica distinção honra a portugalidade no Mundo, mesmo se vista fora do contexto estritamente religioso.

 

António Bagão Félix, Público de 27 de Março de 2017

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