
Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:
A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.
A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen.
1) LEITURA (Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus traz?)
Leitura do Evangelho segundo S. Mateus (3,1-12)
3,1Naqueles dias, veio João, o Baptista, pregar no deserto da Judeia, 2dizendo :«Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus». 3É dele que o profeta Isaías falou, dizendo: «Uma voz clama no deserto: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas”». 4João tinha a sua veste de pelos de camelo e um cinto de couro à volta dos rins. O seu alimento eram gafanhotos e mel silvestre. 5Acorria a ele gente de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região do Jordão; 6e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. 7Ao ver que muitos fariseus e saduceus vinham ao seu batismo, disse‑lhes: «Raça de víboras, quem vos mostrou como fugir da ira que está para vir? 8Produzi, pois, um fruto digno do arrependimento. 9Não presumais de vós mesmos, dizendo: ‘Temos por pai Abraão’, porque eu vos digo: destas pedras Deus pode suscitar filhos de Abraão. 10O machado já está posto à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo. 11Eu batizo-vos com água em ordem ao arrependimento; mas Aquele que vem após mim é mais forte do que eu e eu não sou digno de levar as suas sandálias. Ele batizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo. 12Tem a pá de joeirar na sua mão: limpará a sua eira e recolherá o seu trigo no celeiro; mas a palha, queimá-la-á num fogo inextinguível».
Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações:
- v. 1. Naqueles dias, veio João, o Baptista, pregar no deserto da Judeia.
(vv. 1-6: Mc, 1,2-6; Lc 3,3-6; Jo 1,19-23). “Naqueles dias” é uma indicação estereotipada de tempo (24,38; Mc 1,9). Estamos por volta do ano 3766 da cronologia judaica, ou seja, em 25/26 d.C. (cf. Lc 3,1; o ano judaico começa em setembro de cada ano), ocorrendo assim, com muita probabilidade, neste ano pastoral de 2025-2026, o Bimilenário (2.000 anos) do início da pregação de João Batista!
Depois de ter narrado a origem de Jesus (1,1-25), Mateus introduz a figura de João, apelidado pelo povo “o Batista” (Mt, 1ª vez de 7x), o último dos profetas do AT e Precursor do Messias (11,11-14), com o qual chegam ao fim 400 anos de silêncio profético (cf. Am 8,11).
Ao contrário de Zacarias, seu pai (cf. Lc 1,5-23), a missão de João não está ligada ao Templo, nem a Jerusalém, mas ao “deserto da Judeia”, onde viveu oculto até que “veio” (v. 13; Is 62,11) a manifestar-se a Israel (Lc 1,80). No AT, “o deserto” não é só o lugar do despojamento e da prova, mas também do encontro e do noivado com Deus (cf. Os 2,16s; Jr 2,2).
Longe de ser a figura histérica de um pregador exaltado, caracterizado como uma espécie de derradeiro exemplar do homem das cavernas, algo como um cro magnon redivivo, difundida pela indústria cinematográfica norte-americana de Hollywood, João Batista devia ser um homem de fogo, que falava abertamente e se impunha com a sua austeridade e coerência de vida, mas que simultaneamente era muito humano, humilde, amigo dos pobes, próximo dos pecadores e afastados, manifestando uma enorme ternura, misericórdia e compaixão para com eles, a ponto de no seu curto ministério de cerca de três anos (de 25 a 28 d.C.) ter atraído muitidões e a sua mensagem se ter rapidamente propagado entre as comunidades judaicas em toda a extensão do Império Romano, a ponto de a sua notícia e mensagem ter chegado a Lisboa e ter sido gravada numa pedra já em meados do séc. I.
Flávio Josefo dá este testemunho acerca de João Batista, onde reproduz a versão oficial sobre a prisão e morte de João Batista, que através dos Evangelhos sabemos ter sido outra, a denúncia da relação adúltera de Herodes Antipas com a sua cunhada Herodíades: «João, cognominado Batista, era um homem de grande piedade que exortava os judeus a abraçar a virtude, a praticar a justiça e a receber o batismo, para se tornarem agradáveis a Deus, não se contentando em evitar o pecado, mas unindo a pureza do corpo à da alma. Como uma grande multidão o seguia para ouvir a sua doutrina, Herodes, temendo que ele, pela influência que exercia sobre eles, viesse a suscitar alguma rebelião, porque o povo estava sempre pronto a fazer o que João ordenasse, julgou que devia prevenir o mal, para depois não ter motivo de se arrepender por haver esperado muito para remediá-lo. Por esse motivo, mandou prender João numa fortaleza, em Maqueronte... e ali ele foi morto. Os judeus atribuíram a derrota do seu exército [comandado por Herodes Arquelau na guerra contra o do rei Aretas IV, de Petra, por volta do ano 28-31 d.C.: Ant. 18,5,1], a um castigo de Deus, devido a esse ato tão injusto» (Ant 18,5,2).
No deserto, João “prega” (gr. kerýsso, Mt, 9x: 4,17; 10,7). “Pregar” é proclamar o querigma (gr. “pregão”), o ponto central da Boa-nova: a vinda do Messias (v. 11), que exterminará toda a iniquidade e dirigirá um novo êxodo (v. 3), numa caminhada de fé, caracterizada pela prática da justiça de cada membro do povo de Deus em relação aos pobres e necessitados (v. 9).
- v. 2. Dizendo :«Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus».
v. 2: At 13,24; 19,4. O querigma de João tem dois pontos.
O primeiro ponto é o apelo à conversão: “arrependei-vos” (4,17; 11,20s; 12,41). O verbo grego metanoeô significa “mudar de pensamento no íntimo e de atitude nas obras” (cf. Sr 17,24). No AT aplica-se sobretudo a Deus, que “se arrepende” (he. naḥam: Am 7,3.6; Jr 18,8; Jl 2,13.14; Jn 3,9.10; 4,2) do castigo com que ameaçara alguém e o perdoa, usando de misericórdia. “Arrepender-se” é mais que o “converter-se” do AT (he. shuv; gr. epistréphô: “mudar de direção”; “voltar para Deus”). Implica não só arrepender-se do pecado e deixar o mal (Sr 48,15; Jr 8,6), mas também abrir-se à novidade de Deus, acreditar nele e na Sua palavra, obedecendo-lhe e seguindo-o, imbuído dos Seus sentimentos.
Segundo ponto: o apelo à conversão é urgente porque “está próximo o Reino dos céus”.
“Reino dos céus” é, na Bíblia, uma expressão exclusiva de Mateus (30x), que a prefere a “Reino de Deus” (6,33; 12,28; 19,24; 21,31.43; cf. Is 52,7; Mq 4,7; Dn 2,44; Tb 13,2; Sb 10,10; Hen 84,2; bBer 12ª), para, à boa maneira judaica, evitar pronunciar o nome divino. É usada no judaísmo para indicar a oposição entre o Reino de Deus e os ídolos, as forças do mal e os poderes da terra. Representa a salvação futura e definitiva de toda a humanidade, social, política e espiritualmente, que chegará graças ao exercício da soberania do Deus único, Senhor de todas as coisas (Zc 14,9), o Qual estabelecerá a paz e a justiça, quer na terra, como no céu. Para que isto aconteça requer-se a livre submissão do homem a Deus, na aceitação da Sua vontade (mBer 2,2.5), difundindo-se o Reino dos céus à medida que cada pessoa o vai acolhendo, deixando que o seu coração seja transformado por Deus por ação do Espírito Santo, num coração capaz de amar e obedecer a Deus, pondo em prática os Seus mandamentos (cf. Ez 36,23-29; Jr 31,31-34).
"O Reino dos céus está próximo” porque: a) chegou o tempo (Mc 1,15) em que Deus o vai estabelecer na terra, entre os homens, cumprindo as promessas que fez no AT, b) enviando o Filho do Homem (Dn 7,14), o Messias, que o instaurará (Dn 7,18.22.27).
- v. 3. É dele que o profeta Isaías falou, dizendo: «Uma voz clama no deserto: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas”».
Mateus apresenta em seguida João. Ele é o arauto referido por Is 40,3 (cf. Is 35,8; 57,14; 62,10; Ml 3,1), citado, tal como em Mc 1,3, segundo a versão grega dos LXX, onde o deserto é apontado como o lugar onde se faz ouvir a voz do mensageiro, ao passo que no texto primitivo, hebraico, o deserto é o lugar onde se deve preparar o caminho do Senhor (“preparai no deserto”). Ao deslocar, com os LXX, a atenção do caminho que há que preparar no deserto para que o povo de Israel, liberto do cativeiro, por ele regresse da Babilónia a Israel, para o apelo a preparar "o caminho do Senhor" lançado pelo mensageiro no deserto, a mensagem anunciada pelo profeta espiritualiza-se e deixa de se dirigir apenas ao povo israelita que estava, cativo, no exílio da Babilónia, mas passa a dirigir-se a todos os que escutarem o apelo que Deus através do mensageiro que Ele enviou a profetizar no deserto, faz a todos os membros do Seu povo, não só aos que viviam na Galut ("cativeiro") da Babilónia, mas também na Diáspora ("dispersão"), bem como a todos os que viviam em Israel, mas andavam afastados de Deus e aos próprios gentios que, em qualquer parte, quisessem aderir ao único Deus vivo, o Deus de Israel,.
João é apresentado como sendo este mensageiro que fora anunciado pelo profeta do tempo do exílio, da escola de Isaías(o segundo- ou Deutero-Isaías), através do qual Deus anuncia ao seu povo, disperso no exílio e cativo na Babilónia que o seu resgate foi pago (cf. Is 35,10; 43,1; 44,22ss) e que o tempo da sua libertação chegou, sendo, por isso, o povo convocado e reunido para regressar à sua terra, num novo êxodo mais glorioso que o primeiro (o da saída da escravidão do Egito: Ex 19,1; Nm 33,38), pois neste êxodo será o próprio Senhor a vir ao seu encontro, restaurarando a Sua aliança com ele e estabelecendo com ele uma nova relação, levando-o de volta à terra prometida, caminhando Ele, como triunfante guerreiro e bom pastor, à sua frente (cf. Is 40,9ss). O mensageiro tem a missão de convocar o povo para se voltar para o Senhor e preparar o seu regresso do exílio com Ele. Como? Construindo juntos, para Deus, um caminho digno dele, largo, plano e reto, uma estrada calcetada (feita com camadas de pedras ou cascalhos) - neste caso, o caminho/vereda da justiça e da obediência à vontade de Deus, pondo em prática a Sua Palavra (cf. Sl 23,3; 25,4; 119,35.105) -, de modo que Deus possa passar por este caminho com o Seu povo e avançar nele sem obstáculos nem tropeços, de modo que a Sua visita seja gloriosa e a Sua marcha triunfal. Desta forma, a alma do povo, humilhada, estéril e atribulada, esburacada, acidentada e seca, tornada semelhante à infindável estepe do deserto, por causa dos seus sofrimentos e desilusões, causadas pelo seu próprio pecado e infidelidade, poderá acolher o perdão de Deus, ser libertado das suas cadeias e escuridão para ser coberto da glória pelo Senhor, caminhando com Ele com um entusiasmo ainda maior do que o experimentado durante o êxodo do Egito, assegurando-lhe o Senhor que o povo não deve temer nada, porque se o homem é frágil e inconstante e os seus sonhos são efémeros e fugazes, a fidelidade do Senhor ao Seu povo é eterna, a Sua palavra é estável, fiel e verdadeira, e cumprir-se-á certamente. É, pois, com a fidelidade e amor do Senhor para com ele, é na misericórdia do Senhor e na eficácia da Sua palavra que o povo, desterrado da sua terra, do seu futuro e da sua esperança, pode contar, é nelas que ele pode e se deve apoiar, é nelas que deve confiar, tornando-se assim capaz de percorrer o caminho de regresso à sua pátria, na companhia do próprio Deus, que avançará à sua frente.
Esta passagem de Isaías é agora é aplicada pelo evangelista à nova situação, onde aparece - como realmente é -, como uma promessa feita em linguagem poética, simbólica, embora verdadeira, que se começa a cumprir neste momento com João Batista, uma profecia em que o resgate, pago pelo próprio Deus, se traduzirá na remissão dos pecados (cf. Is 52,1-10; 53,10-12); o regresso do exílio e a volta à terra prometida no caminho de conversão e numa vida nova no Reino de Deus, sob a direção do Messias. João Batista é o mensageiro a que o Deutero-Isaías se refere nesta passagem, e Jesus (cujo nome, Ieshuah, que em aramaico, “Deus salva”, e, em hebraico, “salvação”) é o Messias, em quem é o próprio Deus redentor que, como bom pastor, vem ao encontro do seu povo para o salvar, não só a ele, mas também toda a humanidade, cumprindo assim as promessas mais universalistas do livro de Isaías.
Por esta razão, o evangelista transfere para Jesus as referências atribuídas a Deus no original hebraico: o título “Senhor” não é aplicado primariamente a Iavé, mas a Jesus; e “as veredas do nosso Deus” passam a ser as “suas veredas”, ou seja, as veredas de Jesus (da sua Pessoa, palavra, obras, caminho e exemplo). O evangelista sublinha assim a natureza divina de Jesus (cf. 1,23). De modo que o novo êxodo, que irá por Ele ser levado a cabo, será bem diferente do primeiro Êxodo, guiado por Moisés, e bem diverso de tudo o que os homens - os rabinos, o povo de Israel e os próprios gentios - alguma vez seriam capazes de imaginar (cf. Is 55,8-9; Rm 11,31-34; 1Cor 2,9s).
- v. 4. João tinha a sua veste de pelos de camelo e um cinto de couro à volta dos rins. O seu alimento eram gafanhotos e mel silvestre.
João usa uma “veste de pelos de camelo com um cinto de couro” à cintura: é a indumentária profética, neste caso, de Elias (2Rs 1,8; Zc 13,4). João é o Elias prometido (11,14; 17,13), enviado diante do Senhor a preparar o Seu caminho, cumprindo-se desta forma Ml 3,23 (cf. Sr 48,10).
A alimentação de João é frugal, destacando o seu ascetismo: “gafanhotos e mel silvestre”. O gafanhoto do deserto (da família dos acrídeos) abundava em Israel (cf. Na 3,15ss; Jl 1,4), podendo ser comido (Lv 11,22), cru ou assado, salgado ou mergulhado em mel. Era o alimento dos pobres, sendo ainda hoje consumido por alguns beduínos do deserto.
- v. 5. Acorria a ele gente de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região do Jordão.
O apelo de João dirige-se a todos os membros do povo de Deus. Acorrem sobretudo os mais simples do povo, aqueles que eram desprezados e tidos por notórios pecadores (11,19; 21, 31-32; Lc 3,10-14).
- v. 6. E eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados.
Quem acreditasse no seu anúncio e se arrependesse, desejando ser perdoado por Deus e entrar no seu Reino, era batizado por João no rio Jordão, “confessando os seus pecados”. A “confissão dos pecados” (gr. exomologuese) é a profissão pública de fé em Deus, bom, justo e santo, acompanhada do reconhecimento dos próprios pecados e do pedido de perdão a Deus (Is 38,10-20; Ne 1,5-11; Dn 9,4-19). Seguia-se-lhe o batismo, que consistia numa imersão na água (gr. baptizô, “mergulhar”: 2Rs 5,14), que, ao invés dos banhos rituais de purificação por imersão, dos judeus e dos essénio (he. mikvá), que se repetiam diariamente, se recebia apenas, administrado por outra pessoa (neste caso, João Batista), e uma só vez.
- v. 7. Ao ver que muitos fariseus e saduceus vinham ao seu batismo, disse‑lhes: «Raça de víboras, quem vos mostrou como fugir da ira que está para vir?
(vv. 7-10: Lc 3,7-9). João dirige-se também aos fariseus e saduceus que se consideravam puros e melhores que os outros. Ao ver que a conversão destes não era autêntica, usa palavras duríssimas. Chama-os “raça de víboras” (12,34; 23,33; Dt 32,33.35) e adverte-os da iminência da “ira de Deus” (Lc 21,33; Rm 1,18; 1Ts 1,10; Ef 5,6; Cl 3,6). A ira de Deus é o “castigo” através do qual Deus abandona alguém e o deixa sujeito às consequências do seu pecado, para o mover à conversão. A novidade em João é que ela não irá atingir apenas os gentios, como os judeus pensavam, mas todos os que não se converterem a Deus (também os judeus e os próprios batizados: cf. Hb 2,3).
- v. 8. Produzi, pois, um fruto digno do arrependimento.
Há que não perder tempo e praticar obras que traduzam uma autêntica conversão interior (cf. At 26,20).
- v. 9. Não presumais de vós mesmos, dizendo: ‘Temos por pai Abraão’, porque eu vos digo: destas pedras Deus pode suscitar filhos de Abraão.
Não basta ser do povo eleito. Deus não faz aceção entre judeus e gentios (At 10,34): só quem tiver fé e praticar as obras de Deus, como Abraão, entrará no Reino dos céus (Rm 4,12; Gl 3,7).
- v. 10. O machado já está posto à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo.
A conversão não pode ser adiada: o machado (Jr 46,22) já está posto à raiz (Is 5,24). Quem não se arrepender para praticar as obras de Deus será excluído do Seu povo e lançado no fogo (7,19; 13,40) inextinguível do inferno (v. 12; 18,8s; 25,41).
- v. 11. Eu batizo-vos com água em ordem ao arrependimento; mas Aquele que vem após mim é mais forte do que eu e eu não sou digno de levar as suas sandálias. Ele batizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo.
(vv. 11s: Mc 1,7s; Lc 3,15ss). Depois de afirmar que o batismo na água é apenas um sinal de conversão que exprime o desejo do perdão dos pecados, embora sem o poder dar, João passa ao segundo ponto do querigma, o anúncio da vinda daquele que o dá (26,28), o Messias, de quem apresenta a pessoa e a missão, cada uma delas em dois pontos.
1) O Messias é:
a) “o que vem” (11,3p; At 19,4; Jo 11,27; Hb 10,37; Ap 1,4) com poder (Is 40,9ss), o rei pobre, humilde, justo e salvador (21,9p; 23,39p; Zc 9,9), no qual vem o próprio Deus (Ml 3,1).
b) Ele é “o mais forte”, título dado a Deus (Is 40,10; Dn 9,4) e ao Messias (Is 9,5), pois vencerá Satanás, o pecado e a morte. Mateus sublinha a humildade de João, que não se acha digno de levar as sandálias do Messias (At 13,25), ou seja, descalçá-las (gr. bastázô), um serviço que só os escravos não judeus podiam fazer (bKet 96ª; bKid 22b), reputando-se assim o menor de todos (cf. 18,4; Jo 3,30; 1Cor 15,9; Ef 3,8).
Jesus “vem após” João (4,19; 10,38; 16,23s; Jo 1,15), porque “segue” o seu Precursor. Em Mateus Jesus e João têm sete pontos em comum: a sua missão começa no deserto (3,1.13-4,1), sendo descrita a partir de Isaías (3,3; 4,14s) e associada a Elias (3,4; 11,14; 17,10ss: 16,14); ambos fazem o mesmo apelo ao arrependimento (3,2; 4,17), acorrendo muito povo (3,5, 4,25); ambos acabam por ser martirizados (14,8s: 27,46-50), falando-se na sua ressurreição (14,2: 27,46; 28,7; embora só Jesus tenha ressuscitado).
2) A finalidade da missão do Messias é:
a) “batizar no Espírito Santo” (Jo 1,33; At 1,5; 11,16). O Espírito Santo é o dom messiânico por excelência (Is 9,5s; 11,2).
b) “E no fogo”: o fogo liga a pregação de João a Ml 3, associando a chegada do Messias (“o Anjo da Aliança”: v. 1) ao “Dia do Senhor” (v. 2; Jl 2,3; 3,3; Sf 1,18; 3,8; 2Pd 3,7), em que terá lugar o julgamento divino (vv. 2.19; Dt 32,22; Sl 21,10; Is 5,24; 66,15s; 2Pd 3,10ss). O fogo é símbolo do amor divino, que tomará posse do homem (Ex 3,2; Ct 8,6; Jr 20,9; At 2,3), imprimindo nele “o selo” da nova aliança, renovando-o, convertendo-o (cf. 1Rs 18,24.38), purificando-o de toda a impureza, aparência e falsidade (Nm 31,23; Zc 13,9; 1Cor 3,13ss), e fazendo dele uma oblação agradável a Deus.
- v. 12. Tem a pá de joeirar na sua mão: limpará a sua eira e recolherá o seu trigo no celeiro; mas a palha, queimá-la-á num fogo inextinguível».
João descreve a vinda do Reino dos céus com o Messias como a chegada do Dia do Senhor e a execução do juízo divino. O Messias está a chegar, a messe está preparada e o juízo é iminente. Não tarda que o Messias se manifeste, começando a joeirar (cf. Jr 15,7), separando os que dão bom fruto dos que estão vazios de boas obras, recolhendo os primeiros como trigo “no celeiro” do seu Reino (13,13) e queimando os últimos como palha no fogo inextinguível da condenação eterna (v. 10; 13,30; 25,41.46; Am 7,4; Is 66,24; Mc 9,43; 2Ts 1,8s; Ap 14,11; 20,10).
A pregação de João Batista termina assim da mesma maneira do que a de Jesus: numa alusão ao juízo final, em que os que praticam boas obras entram no Reino dos céus e são salvos, ao passo que aqueles que o não fazem são precipitados no fogo eterno (25,31-46).
Ler o Evangelho mais uma vez... Em silêncio, escutar o que Deus me diz no segredo...
2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)
a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio…
d) Partilha... e) Que frase reter? f) Como a vou / vamos pôr em prática?
- Que valores e prioridades contam na minha vida? Que atitude e gesto concreto de conversão vou adotar neste Advento?
3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?)
4) CONTEMPLAÇÃO… (Saborear a Palavra em Deus, deixando que ela inflame o coração)
Salmo responsorial Sl 72,2.7-8.12-13.17 (R. cf. 7)
Refrão: Nos dias do Senhor nascerá a justiça e a paz para sempre.
Ó Deus, dai ao rei o poder de julgar
e a vossa justiça ao filho do rei.
Ele governará o vosso povo com justiça
e os vossos pobres com equidade. R.
Florescerá a justiça nos seus dias
e uma grande paz até ao fim dos tempos.
Socorrerá o pobre que pede auxílio
e o miserável que não tem amparo. R.
Terá compaixão dos fracos e dos pobres
e defenderá a vida dos oprimidos.
Nele serão abençoadas todas as nações,
todos os povos da terra o hão de bendizer. R.
Pai-nosso…
Oração conclusiva:
Deus omnipotente e misericordioso, concedei que os cuidados deste mundo não sejam obstáculo para caminharmos generosamente ao encontro de Cristo, mas que a sabedoria do alto nos leve a participar no esplendor da sua glória. Ele que é Deus e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. T. Amen.
Ave-Maria...
Bênção final. Despedida.
5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na nossa vida)
Fr. Pedro Bravo, O.Carm.