18º Domingo do Tempo comum, ano A – 2 de agosto de 2026

Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:

A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.

A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen.

1) LEITURA (Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus traz?)

Leitura do Evangelho segundo S. Mateus  (14,13-21)

Naquele tempo, 14,13quando Jesus ouviu dizer que João Baptista tinha sido morto, retirou-se dali num barco para um lugar deserto, apartado. Tendo-o ouvido, as multidões, vindas das cidades, seguiram-no a pé. 14Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão, encheu-se de com­paixão dela e curou os seus enfermos. 15Ao cair da tarde, os discípulos aproximaram-se dele, dizendo: «O lugar é deserto e a hora avançada. Manda embora as multidões, para que vão às aldeias comprar alimento para si». 16Mas Jesus disse-lhes: «Não precisam de ir; dai-lhes vós de comer». 17Eles, porém, dizem-lhe: «Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes». 18Disse-lhes Ele: «Trazei-mos cá». 19E depois de ter ordenado às multidões que se reclinassem sobre a erva, tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao Céu, pronunciou a bênção, partiu os pães, deu-os aos discípulos e os discípulos às multidões. 20Todos comeram e ficaram saciados. E dos pedaços que sobraram recolheram doze cestos cheios. 21Ora, os que comeram eram cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.

     Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações:

  • v. 13. Quando Jesus ouviu dizer que João Baptista tinha sido morto, retirou-se dali num barco para um lugar deserto, apartado. Tendo-o ouvido, as multidões, vindas das cidades, seguiram-no a pé.

    vv. 13-21: Mc 6, 31-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-13; cf. 15,32-39p.

    O episódio de hoje, a multiplicação dos pães, é o único milagre de Jesus narra­do pelos quatro Evangelhos. Tanto Marcos como Mateus referem uma segunda multiplicação de pães (15,32-39p). Em Mateus, o episódio insere-se na quarta parte do seu Evangelho, “A Igreja, primícias do Reino dos Céus” (13,53-18,35), dependendo ele, neste relato, de Marcos, que resume, perdendo, porém, a sua narrativa muito da vivacidade e clareza que tem em Marcos.

    O presente texto tem duas partes: a) introdução e enquadramento da cena (vv. 13-14); b) o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes (vv. 15-21).

    No capítulo anterior, no “discurso das parábolas” (13,1-52), Jesus tinha apresentado o mistério do Reino dos céus. Agora pergunta-se: como é que os interlocutores de Jesus reagiram? A respos­ta é dada na secção narra­tiva da qual faz parte este texto (13,53-17,27). Nesta secção, em geral, a comunidade judaica vai respondendo de uma forma cada vez mais negativa à mensagem, gestos e pessoa de Jesus; Jesus volta-se então para os seus discípulos, a cuja formação se dedica de forma especial.

    No início da sua vida pública, ao ouvir que João Batista tinha sido preso, Jesus tinha-se "retirado" para a Galileia (4,12p); agora, quando o informam que João fora decapitado a mando de Herodes Antipas I (v. 12), tal como o narra a passagem anterior (vv. 1-12), Jesus “retira-se” (gr. anakhoréo, “afastar-se”, “fugir”, “pôr-se a salvo”: Ex 2,15; Nm 16,24; Js 8,15; 1Sm 19,10; 25,10; 2Sm 4,4) “dali”, ou seja, de sua casa (13,36), em Cafarnaum. Trata-se duma atitude prudente da parte de Jesus. Ele sabia bem que a "versão oficial" que tinha sido posta a circular era que Herodes tinha mandado prender João Batista e encarcerá-lo, acorrentado, como se fosse um temível criminoso, numa masmorra da fortaleza de Maqueronte (v. 3), não porque este tivesse denunciado a relação adúltera de Herodes com a sua cunhada Herodíades, mas antes por motivos (falsos) de paz e tranquilidade públicas, ou seja, de segurança de Estado, versão esta que Flávio Josefo regista nos seus escritos, sem suspeitar sequer do verdadeiro móbil, apontado pelos Evangelhos: "Herodes, temendo que [João Batista], pela influência que exercia sobre [as multidões], viesse a suscitar alguma rebelião, porque o povo estava sempre pronto a fazer o que João ordenasse, julgou que devia prevenir o mal, para depois não ter motivo de se arre­pender por ter esperado muito para o remediar. Por esse motivo, mandou prender João numa fortaleza, em Maqueronte… e ali foi morto” (Ant. 18,5,2). Se isto tinha acontecido ao Precursor, com maior razão poderia também acontecer a Jesus. uma vez que a quantidade de pessoas que a Ele acorria era muito superior à que vinha ter com João Batista. Por isso, Jesus, a fim de evitar um confronto com Herodes (cf. 13,32), que residia em Tiberíades, a poucas milhas dali, achou melhor sair por uns dias de Cafarnaum, por precaução, a fim de deixar que as coisas acalmassem.

    É uma nota importante na narrativa deste episódio em Mateus, que, desta forma, começa a estabelecer logo desde o início, uma ligação temática entre o episódio da multiplicação dos pães e a instituição da Eucaristia, na Última Ceia, também ela narrada imediatamente a seguir ao início da trama de morte de Jesus, anunciada pela combinação da traição de Judas (26,14-16). 

    Embora Mateus o omita, sabemos por Marcos que a decisão de Jesus deixar Cafarnaum naquela ocasião também teve a ver com os seus discípulos, que tinham estado absorvidos por um intenso labor apostólico, tendo chegado agora o momento de todos descansarem um pouco, nalgum lugar sossegado, longe das multidões (Mc 6,31).

    Por isso, Jesus decide partir com eles “num barco” (vv. 22.24.29.32s; 13,2), ou seja, por mar, a fim de evitar ser seguido, por terra, pelas multidões. É mais uma nota importante: o “barco”, nos Evangelhos (40x) é uma cifra da missão da Igreja. Mateus dá a entender que, apesar do plano de Jesus, o seu labor missionário e o dos seus discípulos ainda não tinham chegado ao seu termo.

    Jesus parte, pois, de barco, com os seus discípulos, “para um lugar deserto”. "Deserto", não significa aqui "árido", "desolado" (pois o lugar está coberto de erva: v. 19), mas no sentido semita de:"despovoado", “não habitado”, ou seja, como se acrescenta logo a seguir, "apartado".

    A palavra “deserto”, porém, é intencionalmente escolhida por causa do seu significado teológico. O “deserto” é, no AT, o lugar do encontro e do noivado de Deus com o seu povo, do Seu cuidado e desvelo para com ele (cf. Os 2,16; 11,1-4; Jr 2,2; Dt 1,31; 2,7).

    O termo destina-se, desta forma, a evocar o dom do maná a Israel, libertado do Egito, durante os quarenta anos em que ele peregrinou no deserto, depois de ter sido libertado da escravidão do Egito e antes de ter entrado na Terra prometida. A Eucaristia, da qual a multiplicação dos pães é figura, será o verdadeiro maná do Povo de Deus.

    Esta intenção redacional de Mateus é sublinhada pelo termo seguinte, repetido no próximo versículo (v. 14): “as multidões”. O uso do plural é típico de Mateus (24x), que nelas vê não só o grande número de pessoas de todo o género e proveniência que acorre a Jesus, não apenas de Israel, mas também dos gentios (4,24-25; Mc 3,8; cf. Nm 20,20), mas também as primícias das futuras comunidades cristãs, provindas de todos os povos, línguas e nações da terra (cf. Ez 23,24 LXX; Dn 3,4), que integrarão a Igreja, as quais Mateus convida a nelas ver prefiguradas.

    Entretanto, o povo viu que Jesus tinha partido de barco com os seus discípulos para outro porto ("margem") do lago e logo percebeu para onde se dirigiam. Esse lugar é tradicionalmente identificado com o local onde foi construída a Igreja da multiplicação dos pães e dos peixes, em Tabgha, ao pé de Cafarnaum. O povo vai então a pé, atrás dele, correndo por terra e chega lá antes de Jesus aportar e descer para terra firme. O desejo de Jesus passar uns momentos a sós com os seus discípulos, num lugar apartado, longe das multidões, para todos poderem descansar e não dar pretextos a Herodes para se sentir incomodado por Ele, fica frustrado logo à partida. E Jesus prossegue decididamente o seu labor e missão apostólicas.

    Tal como Mc, Mt só refere aqui "as multidões vindas das cidades", não mencionando as pessoas que vinham das aldeias, algo muito provável neste caso, dado o lugar onde se encontravam. É mais uma nota que liga o presente episódio à instituição da Eucaristia na Última Ceia, na "cidade" (26,18). Mateus escreve numa época em que a maior parte das comunidades cristãs, apesar de numerosas, ainda se circunscrevia, em grande parte, apenas às cidades. O evangelista torna assim a cena mais próxima dos seus destinatários.

    Ao repetir o verbo “ouvir” do início da frase, onde tinha por sujeito Jesus, e aplicá-lo aqui às multidões, Mateus diz que ao “ouvir” elas (neste caso), a notícia que Jesus tinha saído dali de barco com os discípulos, "seguiram” (Mt, 7x: 4,25; 8,1; 12,15; 19,2; 20,29, 21,9) Jesus a pé, por terra. Ambos os verbos, “ouvir/escutar” e “seguir”, são termos técnicos do discipulado. Nas "multidões" (no plural) que “escutam” Jesus e o “seguem”, Mt vê presentes as futuras comunidades eclesiais.

    As "multidões" seguem Jesus sem saber o que se irá passar. Elas seguem-no porque querem estar com Ele, escutá-lo e trazer-lhe os seus enfermos para que Ele os cure. O evangelista sublinha assim que muito mais do que a fome corporal, é a fome espiritual, do coração (cf, 4,4; 5,6;  6,31-34), que atrai as pessoas a Jesus, pois só Ele e o Pai podem saciar esta fome ínsita no mais profundo do ser humano. Isto da parte das multidões. Já da parte dos discípulos, mostra que o verdadeiro repouso, o único descanso restaurador, só se encontram na comunhão íntima com Jesus e com o Pai, em união com os irmãos, através da Eucaristia, mediante a qual se participa, já aqui na terra, no banquete do reino dos céus (cf. Sl 23).

  • v. 14. Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão, encheu-se de com­paixão dela e curou os seus enfermos.

    Ao “desembarcar” (lit: “sair do barco”: vv. 54s), Jesus “vê” (gr. eíden, Mt, 10x): o verbo “ver” está no mesmo tempo, modo e pessoa em que é aplicado a Deus no relato da criação e no episódio da sarça ardente (Gn 1, 8x; Ex 3,4; cf. Dt 2,6; Is 30,19; Nm 24,,4). O olhar de Jesus é o olhar misericordioso e compassivo de Deus.

    “Uma numerosa multidão” (gr. oklós polýs, lit. "muita multidão"): neste caso, a expressão, no singular, refere-se ao número de pessoas (cf. v. 21; 2Cr 20,15; Jr 31,8). O adjetivo “muito” (gr. polýs) evoca, porém, o êxodo no qual uma “multidão” composta de numerosas pessoas também partiu com Moisés e Israel do Egito (Ex 12,38). Jesus é o novo Moisés que guia, conduz e alimenta com o novo maná, o novo pão "supraessencial", descido do céu (6,11), o novo povo de Deus, rumo à pátria eterna, o Reino dos céus.

    O adjetivo "muito" (gr. polýs) evoca ainda, de uma forma muito especial, Is 53,11-12, onde se apresenta a obra do Servo de Iavé: "o meu Servo, o justo,.. justificará a muitos, porque levará sobre si as iniquidades deles; por isso, Ele herdará muitos..., porque derramou a sua vida na morte,... carregou com os pecados de muitos e intercedeu pelos transgressores". Este tema surge aqui não só porque a morte do Precursor, João Batista (11,9-10), prefigura a morte de Jesus, "que veio para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (20,28), mas também porque alude à Eucaristia, onde Jesus declara que o cálice com vinho é o cálice do seu "sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para a remissão dos pecados" (26,28). Se a multiplicação dos pães é uma figura da Eucaristia, a Eucaristia é o dom sacramental e a presença eficaz e atuante da morte redentora de Jesus Cristo, que se "dá" a si mesmo, por amor, em favor da salvação da humanidade.

    Daí a nota seguinte: “e encheu-se de compaixão dela”. O verbo "comover-se intimamente", "encher-se de compaixão" (gr. splankhnízomai: 9,36; 15,32p) no NT é utilizado quase só referido a Deus, a Jesus e a pessoas que refletem os seus senti­mentos. Indica uma comoção interna, visceral, que provoca intimamente em alguém um profunda compaixão pelo outro e a leva a socorrê-lo, num gesto espontâneo de solidariedade, que se traduz em obras de misericórdia, destinadas a ajudar essa pessoa a sair da situação em que se encontra. Jesus é a expressão visível, o sacramento encarnado, do Deus libertador e salvador (cf Ex 34,6; Sl 86,5.15; Sl 103,8; 145,8s; Jl 4,2). A Eucaristia será o memorial (Sl 111,4) em que Jesus continuará a perpetuar e renovar a sua presença e gestos de amor aos seus discípulos e a todos os que a Ele acorrerem com féd, em toda a parte, ao longo dos tempos.

    Com o seu olhar divino, Jesus não vê apenas "uma numerosa multidão", uma mole de gente, anónima, mas está atento a cada um dos rostos, a cada uma das pessoas, por detrás das quais se esconde uma história, por vezes sofrida e dramática, com os seus problemas e necessidades, os seus anseios e dores, as suas lutas e reveses, as suas dores e enfermidades, os seus sofrimentos e deplorável situação, não só a nível individual, mas também familiar e comunitário.

    A compaixão de Jesus traduz-se em gestos: “e curou” (gr. therapeýo, Mt, 16x: 4,24; 8,16; 12,15; 15,30; 19,2; 21,14), “os seus enfermos”, ou seja, não apenas os doentes, mas também os débeis (gr. árrostos, “sem forças”, “enfermo”, lat. infirmus, “não firme”: Mc 6,13; 16,18; cf. 1Sm 2,4; Ez 34,4; Sr 7,35; 1Cor 11,30), os corpos, as almas, as mentes e os corações das multidões que a Ele acorrem.

    Ao curar os enfermos, Jesus mostra que não só é o Messias, mas também Deus. De facto, os judeus afirmavam que no tempo do Messias não haveria enfermos ou doentes no seio do povo de Deus, pois o próprio Deus os curaria, tal como Ele tinha prometido e como isso tinha acontecido no Êxodo, nos tempos de Moisés: "Ele fez sair o seu povo... e entre as suas tribos não havia um enfermo" (Sl 105,37; cf. Ex 15,26; 23,25; Dt 7,15; Sl 103,3; Jub 23,29-30; Hen 25,5-796,3; 4Esd 8,52-54; etc.: Str-B 1, 593-596).

  • v. 15. Ao cair da tarde, os discípulos aproximaram-se dele, dizendo: «O lugar é deserto e a hora avançada. Manda embora as multidões, para que vão às aldeias comprar alimento para si».

    Começa agora a parte central do episódio.

    “Ao cair da tarde”: a expressão, repetida em 26,26, remete diretamente para a Última Ceia, na qual Jesus instituirá a Eucaristia.

    O dia está a chegar ao fim, e “os discípulos aproximam-se” de Jesus, uma expressão retirada do versículo paralelo Mc 6,35, que só aparece em Mt e por ele é usada repetidas vezes (11x).

    Eles lembram a Jesus que o lugar é deserto e o dia se aproxima do termo: "a hora é avançada", uma nota que evoca "a hora" em que o Filho do homem é entregue" (26,45), entrega esta que se consuma na sua paixão e morte de cruz, mas já se começou a realizar na Útima Ceia (26,2.24) e se renova em cada Eucaristia.

    Começando a cair a tarde e não tendo “as multidões” alimento, elas devem ser despedidas por Jesus para que possam ir “comprar alimento para si” (cf. Gn 42,7; 43,4.22.25; Dt 2,6) e para os seus. As pessoas no tempo de Jesus tinham apenas duas refeições principais por dia: a da manhã (o desjejum), entre as 9 e as 12h; e a ceia, ao cair da tarde, mais completa, com alimentos cozinhados. Por isso, não comer ao fim do dia era deixar as pessoas passar fome e experimentar fraqueza. Ao apresentar os discípulos a pedir a Jesus que mande embora as multidões que não o querem deixar, Mateus dá novamente a entender que a verdadeira fome que assola aquelas multidões (e nelas, o ser humano) é a da vida plena que só Jesus pode dar. Como? Ensinando também os seus discípulos a partilhar. É o que Jesus afirma já a seguir.

  • v. 16. Mas Jesus disse-lhes: «Não precisam de ir; dai-lhes vós de comer».

    vv. 16-20: 2Rs 4,42-44.

    Jesus, porém, do seu lado, também não se quer separar da multidão e diz aos seus discípulos: “Não precisam de ir”, ou seja, “de partir” (gr. apérkhomai: Gn 42,26.33; 45,17). E ordena-lhes: “dai-lhes vós de comer”. Jesus desafia diretamente os seus discípulos a partilhar o que têm com os que não têm de comer. Um desafio que também se encontra no episódio do AT que serve de referência a este: a multiplicação de pães por Eliseu, alimentando cem pessoas com o que lhe tinha sido dado (2Rs 4,42s). 

  • v. 17. Eles, porém, dizem-lhe: «Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes».

    Os discípulos fazem a listagem dos bens disponíveis e dizem que eles (Jesus incluído), só têm “cinco pães” (16,9) “e dois peixes”. Os pães eram o que eles tinham levado consigo para comerem nesse dia (cf. Mc 6,8). Já os peixes não seriam peixes crus, tal como tinham sido pescados no mar ou comprados na lota, mas provavelmente "peixes assados" ou então, como então era mais comum e ainda hoje acontece nos portos piscatórios, peixe seco, o peixe que então era habitualmente usado como provisão.

    Os pães eram "cinco". "Cinco" é o número que na Sagrada Escritura simboliza a bondade, a  graça e a benevolência divinas, pois foi no quinto dia que Deus criou as aves e os animais aquáticos e em que, pela primeira vez, "abençoou" criaturas suas (he. barak; gr. eulogéo: Gn 1,22). O mesmo verbo "abençoar", no mesmo tempo, voz e pessoa é usado no v. 19. A multiplicação dos pães é o sinal concreto da benevolência, bondade e graça divinas de Jesus em relação aos homens (v. 21). E o mesmo é a Eucaristia instituída na Quinta-feira santa.

    O "peixe" era para os primeiros cristãos o símbolo de Jesus Cristo, porque "peixe" em grego diz-se ichthys, o acróstico cristão formado pelas iniciais da frase em grego que, traduzido para o português, significa: “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”. Os peixes são dois, pois “dois” é o número que designa o homem (cf. Gn 1,27: "E Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou"), nesta caso a nova humanidade regenerada pela palavra de Cristo e o batismo (cf. 1Pd 1,23; Tt 3,5). O peixe representa assim para os primeiros cristãos simultaneamente "Jesus Cristo" e os cristãos. Desta forma, aquele que se alimenta da Eucaristia comunga Jesus Cristo, une-se a Ele e é por Ele transformado em Cristo, para se tornar naquilo que comungou: noutro Cristo que vive unido a Ele e aos irmãos (cf. 18,20).

    A soma de ambos, os pães e os peixes, dá sete. Sete simboliza a plenitude: os discípulos dão tudo o que têm e nele recebem tudo o que Deus dá ao homem. Sete é também o número de nações gentias que habitavam Canaã e foram expulsas para que Israel dela tomasse posse, segundo a promessa de Deus a Abraão (Dt 7,1; At 13,19). Pela participação na Eucaristia, o homem já começa a participar do banquete da verdadeira terra prometida, o reino dos Céus.

  • v. 18. Disse-lhes Ele: «Trazei-mos cá».

    Jesus manifesta a sua autoridade e ordena aos discípulos que lhe tragam o que têm; eles fazem-no.

  • v. 19. E depois de ter ordenado às multidões que se reclinassem sobre a erva, tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao Céu, pronunciou a bênção, partiu os pães, deu-os aos discípulos e os discípulos às multidões.

    Jesus mandou então ao povo que se “reclinasse sobre a erva”. As pessoas comiam habitualmente sentadas na terra (15,35). “Reclinar-se” para comer só acontecia nos banquetes, em que as pessoas comiam reclinados em poltronas, voltadas para a mesa, à boa maneira romana.

    O banquete era para os judeus o lugar do encontro, da fraternidade e da amizade, onde os convivas estabeleciam laços de família e comu­nhão. Reclinar-se à mesa com alguém significava estabelecer laços profundos, íntimos, familiares, com ele. Por isso, o “banquete” é, para Jesus, o símbolo por excelência do mundo novo que há de vir, o Reino dos céus, no qual todos os homens se sentarão à mesa de Deus como membros do seu povo (8,11; 22,1-14).

    A presente nota é uma alusão à ceia pascal judaica, em que os convivas comem reclinados à mesa, apoiados sobre um cotovelo, indicando desta forma que são pessoas livres (cf. Jo 13,12.25; 21,20; Lc 22,27), pois o escravo e os servos permaneciam de pé numa refeição. Jesus inaugura uma nova Páscoa. A nota de haver erva no local evoca o Sl 23,2 e Ez 34,13s, apresentando Jesus como o Messias, o Bom Pastor do Povo de Deus (10,7s).

    Os gestos que Jesus faz a seguir são praticamente os mesmo que Ele fez na última Ceia, quando instituiu a Eucaristia:

    1) "tomou" (gr. lambáno) “os cinco pães e os dois peixes”; "tomou o pão" (26,26), "tomou o cálice" (26,27)

    “Ergueu os olhos ao céu”, um gesto típico de Jesus na oração (Mc 7,34; Jo 11,41; cf. At 7,55; Sl 123,1; Is 6,1-2), muito raramente anotado em poucas passagens do AT (cf. Is 6,1-2; Ez 1,26ss). Geralmente, um judeu orava voltado para Jerusalém (Sl 123,1). Ao levantar os olhos ao céu na sua oração, Jesus indica que vai partir para a verdadeira Jerusalém, a Jerusalém do alto, o Reino dos céus, a casa do Pai.

    2) “pronunciou a bênção” (gr. eulogéo, lit. “bendizer”). O primeiro momento de uma refeição era "bendizer", pronunciar a bênção ritual. O mesmo acontece na ceia eucarística (26,26). Entre os judeus, todas as refeições começavam com a bênção do pão (bBer 35a; 46a; mBer 6,1.6-7; 7,1; 8,7). A “bênção” é uma fórmula de ação de graças com que se agradece a Deus pelos seus dons. Isso significa reconhecer que aquilo que se possui é um dom de Deus. Dado por Ele a quem? A uma só pessoa ou família? Sendo Deus Pai de todos, cuidando Ele de todos e amando a todos da mesma forma, “bendizer” significa reconhecer que determinado dom veio de Deus e que, por isso, pertence a todos os seus filhos. Aquele que recebeu esse dom não é seu dono, é apenas um adminis­trador a quem Deus o confiou, para que o cultive e ponha ao serviço dos outros com a mesma gratuidade com que o recebeu. Os bens postos à disposição de cada um são dons do Pai, destinados a serem colocados ao serviço de todos. Por isso, se diz no Pai-nosso: “O pão nosso... nos dai hoje” (6,11).

    3) “Partiu os pães”: a “fração do pão” é o gesto pascal eucarístico por excelência feito sobre o pão do meio (26,26; 1Cor 10,16). Em Lucas é sinónimo de Eucaristia (Lc 24,30.35; 9,16; At 2,46; 20,11).

    4) “E deu-os aos discípulos” (26,26; Mc 14,22; Lc 22,19; 24,30; cf. At 27,35). É o gesto pascal de Jesus: dar-se a si mesmo a eles na Eucaristia.

    “E os discípulos [deram-nos] às multidões”: uma vez que a multiplicação dos pães é uma prefiguração da Eucaristia, não é Jesus quem reparte com e dá diretamente o pão repartido às multidões, mas os apóstolos, pois foi a eles que Ele confiou a Euca­ristia: "Fazei isto em memória de mim" (Lc 22,19; 1Cor 11,24s).

    Mateus vinca de tal modo o paralelismo entre a multiplicação dos pães e a Eucaristia, que, ao invés de Marcos, se esquece por completo dos peixes, que o primeiro não deixa de mencionar (Mc 6,41.43).

  • v. 20. Todos comeram e ficaram saciados. E dos pedaços que sobraram recolheram doze cestos cheios.

    “Todos comeram e ficaram saciados” (Sl 132,15; 107,9; cf. 5,6): é uma alusão ao maná (Ex 16,8.12; Nm 11,7-9.31s; Sl 78,25), Segundo a apoca­líptica judaica, o maná deveria cair novamente do alto no tempo do Messias, devendo então reinar grande abundância: “Naquele tempo … o Messias começará a sua revelação….Do alto cairá de novo grande quantidade de maná; dele comerão eles naqueles anos, por terem participado do final dos tempos” (2Apoc.Bar. 29,3.8).

    O milagre da multiplicação dos pães evoca desta forma também Is 55,1: “Ah, vinde às águas, todos vós,que tendes sede; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço”.

    “Dos pedaços que sobraram” alude à multiplicação dos pães por Eliseu (2Rs 4,43-44). No Êxodo, não se devia conservar o maná até ao dia seguinte (Ex 16,19), exceto à sexta-feira, para se guardar o “descanso” sabático (gr. anápausis: Ex 16,22ss; Sl 22,2). Na Eucaristia, Jesus introduz os seus discípulos, o novo Povo de Deus, no seu descanso, fazendo-os participar assim no banquete do Reino dos céus (cf. Ex 24,10ss; Ap 19,9), alimentando não apenas os seus corpos, mas saciando sobretudo os seus corações.

    “Doze cestos”. “Doze” é o número das tribos de Israel que formam o povo de Deus (19,28; Gn 49,28; Ex 24,9): a Eucaristia é alimento do novo povo de Deus. Os “cestos” (he. dud; gr. kóphinos) eram portáteis, de tamanho médio, podendo ter 38 cm ou mais de alto, feitos de fibras vegetais flexíveis, sendo mais largos no fundo do que nas bordas. Serviam sobretudo para levar alimentos (Jz 6,19).

    Eram bem mais pequenos do que o spyrís, o “cesto” ou alcofa (15,37; 16,10; Mc 8,8.20), que servia para transportar grandes quantidades de provisões ou de mercadorias, podendo mesmo servir para carregar objetos e transportar pessoas (At 9,25).

    Ora, o milagre foi da multiplicação dos pães, não da multiplicação dos cestos. Donde vieram então os doze cestos? Isto indica que as pessoas tinham levado consigo cestos com man­timentos. Mas ninguém queria mostrar o que trazia. Ao ver Jesus repartir o que possuía, começaram também a partilhar uns com os outros o que traziam. A multiplicação dos pães foi, desde modo, simultaneamente um milagre da par­tilha e da multiplicação dos pães, não sendo possível determinar com exatidão onde acabou um e começou o outro. Tal como a Eucaristia, que é um milagre da partilha, sendo da partilha que ela nasce, à partilha que ela leva e a partilha que ela ensina (cf. 1Cor 16,2; 9,5-15; At 2,44-47; 4,34s).

    Porquê a insistência dos evangelistas no facto de se terem recolhido as sobras e guardado as mesmas em cestas, neste caso doze, servindo de reserva para as doze tribos de Israel, ou seja, de reserva para todo o (novo) povo de Deus?

    Sabemos que os primeiros cristãos celebravam a Eucaristia todas as semanas, sábado à noite, quando começava o primeiro dia da semana (At 20,7; 1Cor 16,2). Levavam consigo o que tinham poupado ao longo da semana no jejum (jejuavam dois dias por semana: Lc 18,12; Did. 8,1), e entregavam-no ao bispo, que o distribuía aos necessitados através dos diáconos (cf. Did. 4,5-8). Na celebração eucarística, além do pão maior que se consa­grava e partia, para dele todos comun­garem (1Cor 10,17), consagra­vam-se também os pães mais pequenos que cada um trazia consigo, de casa, para a Eucaristia. Estes eram dispostos em volta do altar e eram consagrados juntamente com o pão grande, não sendo comungados na celebração eucarística, onde só se comungava do pão grande, mas entregues no final da Eucaristia a cada família, que levava cada uma um para sua casa (7,6), envolto num pano (o corporal), não raro dentro da cesta que tinha servido para trazer os alimentos e bens a partilhar, sendo a Eucaristia depois guardada depois numa divisão reservada da casa, num lugar escondido (“o segredo”: 6,6), para aí, nessa divisão, toda a família se reunir cada dia, ao longo da semana, junto ao lugar onde se achava o Corpo do Senhor, para orar, para cada um dos seus membros cada dia comungar dele (cf. At 2,42.46; Josef A. Jungmann, Missarum sollemnia, vol. 2. 5. Aufl., Herder, Freiburg i.Br. 1962, n. 514Catechismus Romanus, nn. 466.1183), como se pede no Pai nosso: “o pão nosso sobre-essencial (gr. epioúsios) nos dai hoje (gr. sêmeron)” (6,11; cf. Jungmann, o.c. vol. 2, n. 391).

  • v. 21. Ora, os que comeram eram cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.

    Mateus conclui informando que “os que comeram eram cerca de 5.000 homens” o que, segundo a maneira de contar de então, em que se mencionavam apenas os varões (Ex 12,37), “sem contar mulheres e crianças”, deveria equivaler a cerca de 20.000 pessoas.
    O número de comensais é novamente um múltiplo de cinco: 5 x 1000, indicando 5 a graça de Deus e 1000 o número equivalente a uma multidão. A graça de Deus, manifestada em Jesus Cristo, e por Ele dada aos homens, só é por Ele plenamente comunicada aos seus discípulos através da Eucaristia, na qual se repete o milagre, agora não da multiplicação dos pães, mas da única e total doação de Jesus Cristo aos seus como único alimento capaz de saciar quer o corpo quem a alma dos seus discípulos. 
    A expressão "ora, os que comeram" é literalmente repetida na segunda multiplicação dos pães (15,38), sendo o verbo o mesmo usado na instituição da Eucaristia (26,26). Ressalta-se assim novamente a ligação entre os dois milagres da multiplicação dos pães e a instituição da Eucaristia. É através desta que Jesus continua realmente presente junto dos seus, com toda a sua plenitude. Chamando-os não só a saciar-se dele, mas também a partilhar a graça recebida, levando-o à humanidade faminta de paz, de justiça, de amor, de salvação, de esperança, de sentido, de plenitude, de alegria, de vida eterna.

    Ler o texto outra vez... Em silêncio, escutar o que Deus diz no segredo...

2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)

    a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio…
    d) Partilha… e) Que frase reter? f) Como a vou / vamos pôr em prática?

  • Jesus acolhe todos e ensina os seus discípulos a partilhar. Sinto-me também responsável pela resolução dos problemas dos outros?

  • Como me situo face aos bens? Vejo os bens que Deus me concedeu como “meus” ou como dons que Deus depositou nas minhas mãos para eu administrar e partilhar, mas que pertencem a todos os homens?

  • Quão importante é a Eucaristia na minha vida? Que faço para me abrir a toda a sua riqueza?

3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?)

4) CONTEMPLAÇÃO… (Saborear a Palavra em Deus, deixando que ela me inflame o coração)

Salmo responsorial                           Sl 145,8-9.15-16.17-18 (R. cf. 16)

Refrão:  Vós abris, Senhor, a vossa mão e saciais a nossa fome.

O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
O Senhor é bom para com todos
e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.     R.

Todos têm os olhos postos em Vós
e a seu tempo lhes dais o alimento.
Abris as vossas mãos
e todos saciais generosamente.     R.

O Senhor é justo em todos os seus caminhos
e perfeito em todas as suas obras.
O Senhor está perto de quantos O invocam,
de quantos O invocam em verdade.     R.

Pai-nosso…

Oração conclusiva:

Mostrai, Senhor, a vossa imensa bondade aos filhos que Vos imploram, e dignai-Vos renovar e conservar os dons da vossa graça naqueles que se gloriam de Vos ter por seu Criador e sua providência. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. T. Amen.

Ave-Maria...

Bênção final. Despedida.

5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na nossa vida)

Fr. Pedro Bravo, O.Carm.

 

file documentFolheto para fazer a LD em grupo

Liturgia do dia

  • Sábado da semana XVIII
    S. Domingos, presbítero – MO Branco – Ofício da memória. Missa da memória. L 1: Hab 1, 12 – 2, 4; Sl 9 (10), 8-9. 10-11. 12-13 Ev: Mt 17, 14-20 * Na Ordem Franciscana – S. Domingos de Gusmão, presbítero, Fundador da Ordem dos Pregadores – FESTA * Na Ordem dos Franciscanos Capuchinhos – S. Domingos de Gusmão, presbítero – FESTA * Na Ordem de São Domingos – S. Domingos, presbítero, Fundador da Ordem dos Pregadores – SOLENIDADE * I Vésp. do domingo – Compl. dep. I Vésp. dom.