27º domingo do Tempo comum, ano A – 4 de outubro de 2026



LECTIO DIVINA – Leitura orante da Palavra de Deus

Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:

A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.

A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen.

1) LEITURA (Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus traz?)

Leitura do Evangelho segundo S. Mateus (21,33-43)

Naquele tempo, disse Jesus aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: 21,33«Escutai outra parábola. Havia um homem, senhor da casa, que “plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e edificou uma torre”. Arrendou-a a uns agricultores e ausentou-se para longe. 34Ao aproximar-se o tempo dos frutos, enviou os seus servos aos agricultores para receber os seus frutos. 35Mas os agricultores agarram os servos dele, espancaram um, mataram outro e apedrejaram outro. 36Enviou de novo outros servos, em maior número do que os primeiros, e eles fizeram-lhes o mesmo. 37Por último, enviou-lhes o seu filho, dizendo: “Hão de respeitar o meu filho”. 38Mas, ao verem o filho, os agricultores disseram entre si: “Este é o herdeiro; vamos, matemo-lo e fiquemos com a sua herança”. 39E, agarrando-o, lançaram-no para fora da vinha e mataram-no. 40Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles agricultores?» 41Dizem-lhe: «Destruirá de forma horrível esses malvados e arrendará a vinha a outros agricultores, que lhe hão de entregar os frutos nos seus devidos tempos». 42Diz-lhes Jesus: «Nunca lestes nas Escrituras: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular; isto foi feito pelo Senhor e é admirável aos nossos olhos”? 43Por isso vos digo: ser-vos-á tirado o Reino de Deus e será dado a uma nação que produza os seus frutos».

Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações:

  • v. 33. «Escutai outra parábola. Havia um homem, senhor da casa, que “plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e edificou uma torre”. Arrendou-a a uns agricultores e ausentou-se para longe.

    vv. 33-46: Mc 12,1-12; Lc 20,9-19.

    O texto de hoje, a parábola dos vinhateiros homicidas, leva-nos ao Templo, um dia depois da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém (vv. 1-11.18). É a segunda das três parábolas que Jesus contou aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos do povo (v. 23) para ilustrar a recusa deles em aceitar o Reino de Deus, servindo ela, ao mesmo tempo, para chamar todos à conversão.

    A parábola compreende-se melhor à luz da situação da Galileia no tempo de Jesus. A terra estava quase toda nas mãos de grandes latifundiários que viviam na cidade ou no estrangeiro (como aqui) e arrendavam as diversas parcelas do terreno a camponeses que tinham perdido as suas próprias terras e lhes pagavam uma renda, entregando-lhes uma parte dos produtos recolhidos (como aqui e no v. 41). Eram: a) “a metade, um terço ou um quarto das colheitas”: mTan 16,1;  pDemai 6,1,4; Str-B 1,869s), ou b) uma determinada quantidade anual de azeite, vinho ou cereais; ou c) uma determinada quantia anual de dinheiro. A situação destes camponeses era difícil: depois de descontados os custos de produção, os numerosos impostos e a renda, mal ficavam com o necessário para se sustentar a si e à sua família. Nos anos agrícolas maus isto podia significar a miséria, provocando conflitos sociais e ocasionando a revolta daqueles, que se insurgiam contra os latifundiários ou a excessiva carga de impostos.

    Jesus retoma a parábola da vinha de Isaías, citando Is 5,1b-2, uma profecia que nele se cumprirá. A enumeração de cada um dos cinco trabalhos levados a cabo na vinha destina-se a sublinhar o cuidado e o amor do “senhor” (gr. kyriós: v. 40) a ela.

    O “homem, senhor da casa” (13,52; 20,1.11) é Deus. A expressão originalmente significa que, ao falar-se num "senhor da casa", se está a referir a um ser humano, e não a Deus, a quem caberia por definição o título "senhor da casa", sendo, por isso, necessário, caracterizar o personagem com sendo um ser humano. É um artifício subtil de Jesus para dar a entender que aquele homem afinal representa Deus.  

    A “vinha” simboliza o Povo de Deus (Is 5,7; Jr 12,10).

    Em geral, a vinha em Israel era cercada por uma “sebe” ( “com uns quatro palmos de altura”, c. 90 cm: mKil 4,2-4; sebe que é a Torá: TQid 1,11) para impedir que fosse invadida ou devastada por animais domésticos ou selvagens (Nm 22,24; Sl 80,13; Is 5,5); o “lagar”, coberto (Jz 6,11), onde se fazia o vinho (Dt 15,14; 16,30; Jl 2,24; Is 63,2; Ap 14,19s; 19,15); a “torre” (melhor que a habitual cabana: Jb 27,18; Is 1,8) que albergava a sentinela que a guardava e dela cuidava (Is 27,3; cf. Dt 32,10), donde ela, ou o proprietário, podiam “ver sem serem vistos” quem lá estava e o que se fazia na vinha (Midr  Pv 16,11; ExRab 2.3).

    A vinha podia ser arrendada a um grupo de “agricultores” (mPea 5,5). Os deveres do arrendatário eram fixados em parte por contrato, em parte tendo em conta o direito consuetudinário e os costumes locais. O contrato podia ser de curta, média ou longa duração (perpétuo).

  • v. 34. Ao aproximar-se o tempo dos frutos, enviou os seus servos aos agricultores para receber os seus frutos.

    “Os frutos dele”: os frutos da vinha são de Deus, do seu  Reino (v. 43), pois devem-se à graça de Deus (cf. 1Cor 3,6s; Sl 92,14; Is 55,10s; 61,11). Os “servos” (gr. doúlos), “enviados” (gr. apostélein: 2Rs 2,2-6; Is 6,8; 3x aqui) pelo senhor ”ao aproximar-se o tempo dos frutos” (alusão à vinda próxima do Reino de Deus: 3,2; 4,17; 10,7; Mc 1,15), são os profetas (22,3; 23,34; Lc 11,49; Jr 7,25s; 25,4; 29,19; 35,15; 44,4; 2Rs 17,13; 2Cr 24,19) e os seus sucessores, os discípulos de Jesus (5,12; 23,34; 1Ts 2,15).

  • v. 35. Mas os agricultores agarram os servos dele, espancaram um, mataram outro e apedrejaram outro.

    Estes servos são os profetas e os discípulos que ao longo da história foram tantas vezes perseguidos e mortos pelos chefes judaicos (v. 23), “os agricultores” (22,6; 1Rs 19,10. 14; Jr 20,2; 26,21ss; Ne 9,26; 2Cr 24,20s; At 7,58s; possível alusão a “Tiago, o Justo”, “o irmão do Senhor” atirado do pináculo do Templo e apedrejado até à morte em 62 d.C.: cf. Eusébio, Hist. Ecl. 2,1,5).

  • v. 36. Enviou de novo outros servos, em maior número do que os primeiros, e eles fizeram-lhes o mesmo.

    Apesar disso, o senhor não deixa de enviar outros servos (22,4), “em maior número”, sublinhando o amor cego e fiel que dedicava à sua vinha, bem como a importância que dava aos frutos sazonais, que, mesmo lá de longe, pedia. Mas estes servos tiveram a mesma sorte que os anteriores.

  • v. 37. Por último, enviou-lhes o seu filho, dizendo: “Hão de respeitar o meu filho”.

    “Por último” (Hb 1,1s) envia-lhes  o seu filho único (“o meu Filho”: 3,17; 17,5; Sl 2,7; At 13,33; Hb 1,5; 5,5; Mt resume Mc 12,6, não lhe chamando “amado”), mostrando a que extremo chegava o seu amor à vinha e aos frutos dela (Jo 3,16; Rm 5,10; 8,3.32; Gl 4,4; 1Jo 4,9s.14), a ponto de lhe dar mais valor do que ao seu próprio e único filho. Em Jesus Cristo, Deus mostra, por assim dizer, que nos amou mais do que a Si mesmo.

  • v. 38. Mas, ao verem o filho, os agricultores disseram entre si: “Este é o herdeiro; vamos, matemo-lo e fiquemos com a sua herança”.

    Tal amor, porém, não foi correspondido pelos agricultores, que resolvem matar “o filho” (vv. 37-38: 3x), que é “o herdeiro” (Hb 1,2), uma alusão clara a Jesus.

    Quando o contrato de aluguer era perpétuo (como aqui, uma forma primitiva de enfiteuse, distinguida pelos rabinos do usucapião: mBB 3,3), o foreiro tinha direitos reais, que lhe asseguravam o domínio útil do bem alugado, garantindo-lhe a posse, fruição e até transmissão por herança do mesmo, desde que o foro fosse pago ao senhorio, obrigação esta que nunca prescrevia. O homicídio do filho seria, pois, um crime inútil, que para nada servia, senão para mostrar quão duro, perverso e obstinado era o coração daqueles “agricultores” (cf. Is 46,12; 48,4; At 7,51s).

  • v. 39. E, agarrando-o, lançaram-no para fora da vinha e mataram-no.

    Os agricultores executam o que tinham combinado e matam “o Filho” (v. 38) “fora da vinha”, ou seja, fora dos muros de Jerusalém (Jo 19,17; Hb 13,12s).

  • v. 40. Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles agricultores?»

    Que fazer perante uma situação tão grave, pergunta-lhes Jesus.

  • v. 41. Dizem-lhe: «Destruirá de forma horrível esses malvados e arrendará a vinha a outros agricultores, que lhe hão de entregar os frutos nos seus devidos tempos».

    A resposta, muito dura, emitida como sentença, é ironicamente dada pelos chefes judaicos, os primeiros visados pela parábola (v. 45; cf. 26,25.64; 2Sm 12,5s): a) o senhor “destruirá os maus” – tais agricultores – “de forma horrível”, literalmente “má”, uma alusão ao cerco, tomada e destruição de Jerusalém pelas tropas romanas de Tito, em 70 d.C. (24,20ss), um acontecimento que já tinha ocorrido quando Mateus escreve o Evangelho, concluído cerca de uma década depois; b) tirar-lhes-á a vinha das mãos; e c) confiá-la-á a outros que lhe produzam “os frutos” – “frutos” está no plural, porque, além da vinha, se cultivavam na terra outros produtos (Ex 23,11; Dt 8,8; Ag 2,19; Lc 13,6) – e lhe entreguem a parte acordada nos seus devidos tempos.

  • v. 42. Diz-lhes Jesus: «Nunca lestes nas Escrituras: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular; isto foi feito pelo Senhor e é admirável aos nossos olhos”?

    Jesus declara-lhes que é o que acontecerá, cumprindo-se assim as Escrituras, o que tinha sido anunciado no Sl 118,22-23, que cita (At 4,11; Rm 9,33; 1Pd 2,4ss): “a pedra”, Jesus (Dn 2,44s); “rejeitada pelos construtores”, os chefes judaicos, que vão “condenar à morte” e “entregar (Jesus) aos gentios para que seja escarnecido, flagelado, crucificado e morto” (20,19) pelas forças romanas de ocupação; “tornou-se a pedra angular” (Ef 2,20) da Igreja (cf. 16,18).

  • v. 43. Por isso vos digo: ser-vos-á tirado o Reino de Deus e será dado a uma nação que produza os seus frutos».

    “A nação” (gr. éthnos; he. gói: Is 26,2; 1Pd 2,9; Ex 19,6) que Jesus anuncia, é “o povo (he. ‘am, gr. laós) que será criado” (Sl 102,18), a Igreja, formada pelos verdadeiros filhos de Abraão (Rm 9,6ss; Gl 6,16), aqueles que escutam a Palavra de Deus anunciada por Jesus e O acolhem, aderindo a Ele pela fé e produzindo no tempo devido “os frutos do Reino” que Deus quer, que lhe agradam e a que tem direito (3,8ss; 7,21; 8,10ss; Jo 15,8. 16; Rm 6,22; Gl 5,22; Ef 5,9; Cl 1,6; Hb 12,11; 13,15; Tg 3,18; Ap 22,2).

    A presente parábola tem assim uma dupla finalidade. Por um lado, explica porque é que os judeus, os primeiros destinatários da Boa nova, não passaram de uma minoria nas comunidades cristãs: porque, fiados em serem filhos de Abraão, membros do Povo eleito, não deram bom fruto, enquanto os gentios o fizeram. Por outro, adverte os gentios que, se Deus os elegeu e eles acolheram Jesus com fé, foi para porem em prática o Evangelho, produzindo “frutos de justiça” (Am 6,12; Fl 1,11), “os frutos” (4x no texto: vv. 34.41.43) “bons” (12,33), que Deus quer e espera receber (13,23); caso contrário, também eles serão excluídos (7,22s).

    Ler o texto outra vez... Em silêncio, escutar o que Deus diz no segredo...

2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)

    a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio…
    d) Partilha… e) Que frase reter? f) Como a vou / vamos pôr em prática?

  • O meu compromisso com o Reino de Deus é sincero e empenhado?
  • Quando se trata de fazer opções, deixo-me levar pelo comodismo, o medo e a instalação, ou pelo amor e a vontade de servir o Reino?
  • Que frutos produzo eu? E que frutos me pede o Senhor?

3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?)

4) CONTEMPLAÇÃO… (Saborear a Palavra em Deus, deixando que ela me inflame o coração)

Salmo responsorial                               Sl 80,9.12-16.19-20 (R. Is 5,7a)

Refrão: A vinha do Senhor é a casa de Israel.

Arrancastes uma videira do Egito,
expulsastes as nações para a transplantar.
Estendia até ao mar as suas vergônteas
e até ao rio os seus rebentos.        R.

Porque lhe destruístes a vedação,
de modo que a vindime quem quer que passe pelo caminho?
Devastou-a o javali da selva
e serviu de pasto aos animais do campo.            R.

Deus dos Exércitos, vinde de novo,
olhai dos céus e vede, visitai esta vinha.
Protegei a cepa que a vossa mão direita plantou,
o rebento que fortalecestes para Vós.       R.

Não mais nos apartaremos de Vós:
fazei-nos viver e invocaremos o vosso nome.
Senhor Deus dos Exércitos, fazei-nos voltar,
iluminai o vosso rosto e seremos salvos.       R.

Pai-nosso…

Oração conclusiva:

Deus todo-poderoso e eterno, que, na abundância do vosso amor, cumulais de bens os que Vos imploram muito além dos seus méritos e desejos, pela vossa misericórdia, libertai a nossa consciência de toda a inquietação e dai-nos o que nem sequer ousamos pedir. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. T. Amen.

Ave-Maria...

Bênção final. Despedida.

5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na nossa vida)

PB (para sugestões, perguntas ou correções, contactar p.f. Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ter o JavaScript autorizado para o visualizar.)

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