Carta circular à Família Carmelita por ocasião
da beatificação do Venerável Fulton J. Sheen
«Quero agarrar-me ao Carmelo, porque amo o seu amor a Jesus».
Queridos irmãos e irmãs do Carmelo:
A 24 de setembro de 2026, a Igreja regozija-se com a beatificação do Venerável Arcebispo Fulton J. Sheen, em Saint Louis, no Missouri. Para a Família Carmelita, este é um motivo de especial alegria. Fulton Sheen não foi apenas um admirador do Carmelo, nem um pregador que encontrou inspiração nos nossos santos. Foi membro professo da Ordem Terceira Carmelita. A 17 de julho de 1948, na capela do Whitefriars Hall, em Washington, D.C., fez a sua profissão, que foi recebida pelo Prior Geral da Ordem, o P. Kilian Lynch, O. Carm.
Ao celebrar a sua beatificação, gostaria de convidar toda a Família Carmelita — frades e monjas, irmãs, membros do Carmelo Secular (Ordem Terceira), pessoas associadas às nossas comunidades e todos aqueles que encontram um lar espiritual nas nossas igrejas, santuários, colégios e centros — a dar graças por esta vida cristã extraordinária e reconhecer nela algo do dom do próprio Carmelo.
Uma vida extraordinária
Fulton John Sheen nasceu a 8 de maio de 1895 em El Paso, Illinois, no seio duma família de ascendência irlandesa. Ordenado a 20 de setembro de 1919, viria mais tarde a servir a Igreja como bispo e arcebispo, ao mesmo tempo que se convertia nçum dos mais reconhecidos mestres e comunicadores católicos do século XX.
Prosseguiu os seus estudos, primeiro na Universidade Católica da América e depois na Europa, sobretudo na Universidade de Lovaina (Bélgica), onde concluiu um doutoramento em filosofia e, em 1925, obteve o prestigiado título de Agrégé en Philosophie (ndt: “Agregado em Filosofia”) com a máxima distinção. Também lecionou teologia no Saint Edmund’s College, em Ware (Inglaterra), e adquiriu experiência formativa na área pastoral e da pregação em Londres, na igreja de São Patrício, no Soho, e na catedral de Westminster. Depois de aprofundar os seus estudos na Sorbonne de Paris e no Angelicum de Roma, regressou aos Estados Unidos e, em 1926, integrou o corpo docente da Universidade Católica da América.
A sala de aulas não era mais do que um dos locais onde se evidenciava o seu extraordinário dom de comunicação. A partir de 1930, a sua voz tornou-se familiar a milhões de pessoas através do programa de rádio The Catholic Hour (ndt: “A hora católica”). Em 1950, foi nomeado diretor nacional da Sociedade para a Propagação da Fé; em 1951, foi sagrado bispo e o seu programa de televisão *Life is Worth Living* (ndt: “A vida é digna de ser vivida”) rapidamente o levou a milhões de lares todas as semanas. Em 1966, foi nomeado bispo de Rochester, cargo do qual se demitiu em 1969, tendo continuado a escrever, a pregar e a ensinar até à sua morte, a 9 de dezembro de 1979.
A magnitude do seu sucesso junto do público pode, por vezes, ocultar a amplitude da sua formação intelectual. Sheen fez parte daquela extraordinária renovação intelectual e literária católica que marcou o mundo anglófono durante a primeira metade do século XX. Tratava-se do mundo de G. K. Chesterton e Hilaire Belloc, Ronald Knox e, mais tarde, Evelyn Waugh, Graham Greene e outros que levaram umas sólida criatividade católica, consciente de si mesma, a entrar em diálogo com a cultura moderna. Nos Estados Unidos, essa renovação mais ampla encontraria as suas próprias vozes distintas em figuras como Dorothy Day, Thomas Merton e Flannery O’Connor.
Sheen era mais filósofo e teólogo do que romancista, mas habitava esse mesmo mundo de solidez intelectual e compromisso criativo. Lia muito sobre filosofia, literatura, história, psicologia e ciências, e tinha um dom especial para aliar o pensamento sério a uma expressão memorável.
Nenhum escritor influenciou o seu estilo mais profundamente do que G. K. Chesterton. A relação entre ambos começou muito cedo. O primeiro livro de Sheen, God and Intelligence in Modern Philosophy (“Deus e a inteligência na filosofia moderna”), publicado em 1925 a partir dum trabalho resultante dos seus estudos de doutoramento, contava com uma introdução de Chesterton. O jovem filósofo norte-americano tinha simplesmente entrado em contacto com um dos escritores católicos mais célebres do mundo anglófono, tendo-lhe pedido que a escrevesse. Chesterton aceitou.
A ligação foi significativa. Sheen aprendeu muito com o gosto de Chesterton pelo paradoxo, com a sua capacidade de fazer com que o familiar parecesse novo e com a sua convicção de que o cristianismo amplia, em vez de limitar, a razão e a criatividade humanas. Sheen conduziria essas qualidades a uma nova era da comunicação. As aulas, a imprensa escrita, a rádio e a televisão tornaram-se espaços onde a fé se podia encontrar com a experiência humana contemporânea.
Sheen foi um escritor extraordinariamente prolífico, autor de sessenta e quatro livros e sessenta e cinco brochuras, além de colunas periódicas na imprensa.
Um carmelita
No entanto, por trás da figura pública escondia-se outro Sheen.
A sua profissão em Whitefriars Hall, a 17 de julho de 1948, não foi um gesto isolado. Nessa altura, já há muito que se sentia atraído pela espiritualidade carmelita. Conhecia os escritos de Santa Teresa de Jesus e de São João da Cruz, e desenvolveu um amor especialmente profundo e duradouro a Santa Teresa de Lisieux.
Já na década de 1920, tinha estabelecido relações de amizade com as freiras carmelitas de New Albany, no Indiana. Na sua correspondência com elas, descobrimos até que ponto valorizava o apostolado oculto da oração. Numa época em que o seu próprio ministério público se tornava cada vez mais visível, compreendia que a fecundidade mais profunda da Igreja permanece frequentemente oculta.
Uma frase que escreveu às irmãs parece quase explicar a sua profissão no Carmelo: «Quero agarrar-me ao Carmelo porque amo o seu amor por Jesus. Recuso-me a renunciar a ele e, tal como o cego de Jericó (Mc 10, 46-52), continuarei a clamar a Ti, sem cessar, para que cures a minha cegueira e os meus males».[1]
É uma descrição maravilhosamente simples do Carmelo. No coração da nossa tradição não se encontra, em primeiro lugar, um método de oração, um ministério concreto ou mesmo a grande história que herdámos. Trata-se duma Pessoa. O Carmelo existe para viver em fidelidade a Jesus Cristo, para procurar o seu rosto, para permanecer na sua presença e, transformados por esse encontro, servir o seu povo.
Isso constituía também o cerne da espiritualidade de Sheen. A fonte da sua extraordinária atividade era uma vida de oração, centrada especialmente na Eucaristia. Ao longo da sua vida adulta, manteve-se fiel à sua Hora Santa diária. Antes das palavras, havia silêncio; antes da comunicação, a comunhão; antes do apostolado, o encontro com Cristo.
Há algo profundamente carmelita nesse ritmo.
«Só se pode amar uma pessoa»
Talvez seja Santa Teresa de Lisieux quem nos permita ver com maior clareza o encontro entre a espiritualidade própria de Sheen e a do Carmelo. Ele reconheceu que a sua «pequena via» não era um programa de aperfeiçoamento espiritual. Era uma forma de desviar o olhar de nós próprios para o dirigir para Cristo. Como dizia aos seus ouvintes ao falar de Teresa: «Nunca se pode apaixonar por uma abstração. Só se pode amar uma pessoa».[2]
Para Sheen, esta foi a grande descoberta de Teresa de Lisieux. A santidade não começa por nos preocuparmos com a nossa própria perfeição, mas por nos apaixonarmos por Jesus Cristo. A partir desta relação, tudo o resto vai ocupando, pouco a pouco, o lugar que lhe corresponde.
Há aqui uma mensagem importante para a nossa própria vida carmelita. Até mesmo a prática religiosa pode tornar-se egocêntrica: os nossos sucessos e fracassos, os nossos planos, estruturas e preocupações. Teresa reorienta continuamente o nosso olhar. Sheen compreendeu-a bem. Começa por Cristo. Olha para Ele. Ama-O. Deixa que Ele te transforme.
E então acontece algo mais.
O amor transforma-se em missão.
Sheen ficava fascinado com o facto de Teresa, enclausurada num mosteiro carmelita e sem nunca ter viajado para as missões, se ter tornado Padroeira das Missões. A sua explicação ia diretamente ao cerne da sua vocação: amava tanto Cristo que queria que Ele fosse conhecido em toda a parte. «O amor torna-nos missionários. Quando deixamos de amar, deixamos de ser missionários», concluiu Sheen.[3]
Aí, Sheen encontrou em Teresa algo que também explicava a sua própria vida.
Os seus anos na Sociedade para a Propagação da Fé levaram-no por todo o mundo e puseram-no em estreito contacto com a vida missionária da Igreja. Pregou e viajou pela Europa, África, Ásia, Oceânia e América Latina, desde o Reino Unido e a Irlanda até ao Quénia, Uganda e África do Sul; desde a China, Japão, Coreia e Vietname até à Austrália e Nova Zelândia; e desde a Argentina até ao Brasil. Angariou somas avultadas para as missões, mas a angariação de fundos nunca foi o sentido mais profundo desse trabalho. A missão significava dar a conhecer Cristo.
Contemplação e missão não eram, portanto, opostas para ele. Formavam um todo.
Esta visão continua a ter muito valor para o Carmelo. O coração contemplativo não está fechado em si mesmo. Quanto mais profundo é o encontro com Cristo, mais o coração se abre.
Uma amizade que se aprofundou no Carmelo
A relação de Sheen com o Carmelo encontrou uma expressão especialmente calorosa na Irlanda, a terra dos seus antepassados, e, sobretudo, na igreja carmelita da Whitefriar Street, em Dublin. Ele visitou aquele lugar em quatro ocasiões durante a última década da sua vida.
Em julho de 1969, pregou durante a novena de Nossa Senhora do Monte Carmelo. Em agosto de 1971, regressou por ocasião da celebração do sétimo centenário da chegada dos carmelitas à Irlanda. Em outubro de 1973, regressou por ocasião do centenário do nascimento de Santa Teresa de Lisieux. Por fim, durante a Semana Santa de 1975, regressou mais uma vez, pregando de forma especial na Sexta-Feira Santa, no dia 28 de março.
A visita de 1973 merece ser especialmente recordada. Na Whitefriar Street, proferiu uma série de onze palestras sobre Santa Teresa de Lisieux, por ocasião do centenário do seu nascimento. Essas palestras foram posteriormente publicadas no livro do arcebispo Fulton Sheen intitulado Santa Teresa. Uma história inesquecível de amor (St. Thérèse: A Treasured Love Story. Irving, TX: Basilica Press, 2007).
Continuam a ser algumas das expressões mais calorosas e acessíveis da sua espiritualidade carmelita. A imagem de Teresa que Sheen apresenta não é sentimental. É corajosa, intensamente viva, missionária e apaixonadamente enamorada de Cristo. A sua «pequena via» abre a algo imenso: a transformação da vida quotidiana através do amor.
O facto destas conferências terem sido proferidas numa igreja carmelita de Dublin reveste-se de especial significado. Sheen, como membro professo da família carmelita, falava, perante os carmelitas, duma das grandes santas do Carmelo.
Maria e a Eucaristia
Há outros dois aspetos da vida de Sheen que os carmelitas reconhecerão imediatamente: o seu amor a Maria e o seu amor à Eucaristia.
A sua mãe consagrou-o à Santíssima Virgem no seu batismo e Sheen renovou essa consagração na sua Primeira Comunhão. A devoção mariana foi uma constante ao longo da sua vida. Rezava o terço, escrevia e pregava frequentemente sobre Maria e escolheu como lema episcopal algumas palavras retiradas do antigo hino Stabat Mater: «Da per Matrem me venire» («Concede-me chegar a Ti através da Mãe»).
O seu amor a Maria esteve sempre centrado em Cristo. Esse é também o instinto mariano do Carmelo. Maria desvia a atenção de si mesma para o seu Filho. Ensina-nos a escutar a Palavra, a meditar nela, a abrir espaço para Deus e a responder-Lhe.
A Eucaristia ocupava, igualmente, um lugar central na vida de Sheen. A sua Hora Santa diária foi o fio condutor oculto que atravessou décadas de ensino, viagens, escrita e comunicação pública. Recorda-nos uma verdade que o Carmelo nunca deve esquecer: a fecundidade das nossas vidas não depende, em última instância, do quanto alcançamos, mas da profundidade da nossa comunhão com Deus.
Sheen sentia também uma verdadeira afinidade com o Oriente cristão. Como sacerdote, fez parte do clero que participou na Divina Liturgia bizantina, celebrada pelo beato Nicolau Charnetsky durante o Congresso Eucarístico de 1932, em Dublin, na Irlanda. Mais tarde, em 1955, celebrou a Divina Liturgia pontifical em inglês durante a peregrinação ao Monte Santa Macrina, em Uniontown, seguindo a tradição católica bizantina rutena.
Vale a pena viver a vida
O título do programa televisivo mais famoso de Sheen, Life is Worth Living (“Vale a pena viver a vida”), poderia servir quase como um resumo da sua mensagem.
Para Sheen, vale a pena viver a vida porque ela provém de Deus e tende para Deus. A pessoa humana não pode, em última análise, ser compreendida em termos de utilidade, produtividade, prazer ou função social. Fomos criados para algo mais.
Essa convicção permitiu a Sheen dirigir-se a muitos para além dos limites da comunidade católica. Judeus e protestantes, crentes e não crentes escutavam-no. Ele era capaz de partir de algo universal — o desejo de felicidade, a experiência da solidão, o amor, o sofrimento, o medo, a culpa ou a esperança — e conduzir o ouvinte para questões mais profundas.
Era capaz de o fazer porque levava a sério tanto a fé como a pessoa humana.
A sua formação intelectual permitia-lhe abordar a filosofia, a psicologia, a sociologia, a literatura e a ciência sem permitir que nenhuma delas reduzisse o mistério da pessoa humana. O seu dom consistia em passar do familiar para o desconhecido, da vida quotidiana para o eterno.
Isto continua a ser um desafio e um estímulo para a Família Carmelita nos dias de hoje. Vivemos rodeados de formas de comunicação que Sheen dificilmente teria conseguido imaginar. No entanto, a questão é essencialmente a mesma: como anunciar o Evangelho de tal forma que as pessoas do nosso tempo reconheçam que ele diz respeito às suas vidas?
O Carmelo tem algo de diferente a oferecer. Numa cultura de extraordinário ruído, distração e rapidez, somos portadores de uma tradição de silêncio, escuta e interioridade. Mas a contemplação nunca é uma fuga do mundo. Permite-nos ver o mundo mais profundamente e amá-lo mais verdadeiramente.
O próprio Sheen encarnava, em certa medida, este paradoxo: intensamente contemplativo e extraordinariamente comunicativo; enraizado na tradição e atento às possibilidades do presente.
Neste sentido, Sheen foi um pioneiro daquilo a que a Igreja viria mais tarde a chamar a Nova Evangelização: apresentar o Evangelho perene com um ardor renovado, uma expressão renovada e um uso criativo dos meios de comunicação disponíveis na sua época. No entanto, para Sheen, o ponto de partida nunca foi a técnica, mas sim um encontro pessoal com Jesus Cristo, do qual brotava naturalmente o desejo de O dar a conhecer.
Um lugar na família do Carmelo
Queridos irmãos e irmãs, a beatificação não consiste apenas em honrar alguém que viveu no passado. A Igreja apresenta-nos uma vida para que o Evangelho possa ser reconhecido de novo no presente.
Fulton Sheen viveu uma época de enormes mudanças sociais, políticas e tecnológicas. Foi testemunha do surgimento de novas formas de comunicação, do avanço da secularização, da luta entre as grandes ideologias políticas e de profundas questões sobre a liberdade e a dignidade humanas.
Ele enfrentou esse mundo não afastando-se dele, mas contribuindo com aquilo que, em primeiro lugar, tinha recebido na oração. Rezava com profundidade. Refletia com seriedade. Comunicava-se com criatividade. Amava a Igreja. Amava Maria. Amava a Eucaristia. Amava as missões. E, no centro de tudo, amava Jesus Cristo.
Por isso, o Carmelo atraía-o. E talvez por isso, por ocasião da sua beatificação, as suas próprias palavras possam ressoar com especial força em nós: «Quero agarrar-me ao Carmelo porque amo o seu amor a Jesus». Que isso seja verdade também para nós.
Que as nossas comunidades e lares religiosos, as nossas igrejas, escolas, santuários e centros sejam lugares onde se conheça e ame Jesus Cristo. Que a nossa oração nos torne mais atentos às necessidades do mundo. Que a contemplação aprofunde, em vez de diminuir, o nosso desejo missionário. Que Maria nos ensine a escutar, a meditar e a responder. E, juntamente com Santa Teresa de Lisieux e o Beato Fulton Sheen, que possamos redescobrir que, quando se ama verdadeiramente Cristo, o coração não pode guardá-Lo só para si.
Com afeto fraterno e em alegre ação de graças,
P. Desiderio García Martínez, O. Carm., Prior Geral
Roma, 24 de setembro de 2026
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[1] https://ocarm.org/en/item/6844-fulton-j-sheen-new-blessed-with-carmelite-ties
[2] Fulton J. Sheen, Archbishop Fulton Sheen’s Saint Thérèse: A Treasured Love Story (ndt: "Santa Teresa: uma história de amor comovente"). Irving, TX: Basilica Press, 2007.
[3] Fulton J. Sheen, Archbishop Fulton Sheen’s Saint Thérèse: A Treasured Love Story. Irving, TX: Basilica Press, 2007.