Novena de Nossa Senhora do Carmo 2026 – 2º dia, 8 de julho

Tema: “O puríssimo Coração de Maria, caminho de santidade"

Dia 2 – "Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus" (Mt 5,3)

Meditação. Estamos hoje no segundo dia da novena em honra de Nossa Senhora do Carmo. Como dissemos ontem, ao longo desta novena vamos procurar conhecer melhor o Imaculado Coração de Maria, servindo-nos para isso do melhor método, ou seja, à luz das bem-aventuranças – esse texto magnífico com que Jesus começa o Sermão da Montanha, no Evangelho de S. Mateus (5,3-12) – de modo a aprender dele o “caminho de santidade”, a fim de, imitando a puríssima Virgem Maria e por ela guiados, chegarmos à santidade, que mais não é senão a plenitude da vida cristã, que consiste na perfeição da caridade.

Perguntemo-nos antes de mais: o que são as bem-aventuranças?

“Bem-aventurado” significa “feliz”. Feliz não com uma felicidade qualquer, mas com a felicidade do céu. As bem-aventuranças são um anúncio profético, de cariz sapiencial, da bem-aventurança eterna do Reino dos Céus, ou seja, da felicidade plena, junto de Deus, no céu. Anúncio profético que, enquanto palavra de Deus, começa sempre por um convite, ao qual se segue uma promessa. A primeira parte, o convite, é aquilo que Deus diz ao homem para fazer; a promessa, é o que Deus realiza na vida daquele que o põe em prática.

As bem-aventuranças são nove: são como que nove janelas, nove frestas, que Jesus, logo no início da sua pregação, abre aos seus discípulos, para que eles, através delas, possam contemplar já aqui, sobre a terra, o Reino dos Céus, vendo como é que ele se manifesta, se torna presente e se vai realizando na vida daquele que crê, ao longo da sua peregrinação sobre a terra, alcançando a sua plenitude na pátria celeste, na comunhão eterna com Deus. Desta forma, as bem-aventuranças são também as nove portas através das quais se pode entrar no Reino dos céus e as nove vias pelas quais há que avançar nele para alcançar a plenitude da vida. Não há outra maneira de o fazer: quem quiser entrar no Reino dos céus, pertencer-lhe e viver nele tem de se identificar com alguma das bem-aventuranças – uns, mais com uma, outros, mais com outra; mas cada um deles, pelo menos, com alguma delas –, pois só fazendo-o, se poderá tornar semelhante a Jesus e a Maria, que as encarnaram na própria vida.

Meditemos hoje na primeira bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus”.

Jesus abre e conclui as bem-aventuranças com uma afirmação onde destaca o dom da graça de Deus: “porque deles é o Reino dos céus” (v. 10). Ninguém pode encetar o caminho de Jesus, seguir o Evangelho, se não tiver recebido primeiro o dom da graça de Deus e por Ele tiver sido regenerado: “Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3,5). É pela fé no anúncio do Evangelho que recebemos o dom da graça de Deus e é sendo regenerados pelo Espírito Santo no batismo, que entramos no seu Reino, sendo então capazes de pôr em prática a sua palavra.

Também em Maria o que tem primazia é o dom da graça de Deus: a sua imaculada Conceição. Graças a ela, Maria tornou-se morada do Espírito Santo e transparente à sua ação. E é movida pelo Espírito Santo, que ela se entrega totalmente a Deus e toda a sua vida de todo o coração e se Lhe rende incondicionalmente pela fé: “Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).

Nesta bem-aventurança Jesus fala da pobreza em espírito. S. João da Cruz esclarece-o, dizendo que a pobreza em espírito é a pobreza interior da vontade humana: “Não pretendemos falar da pobreza material que não despoja o coração ávido dos bens deste mundo; mas ocupamo-nos da desnudez do gosto e do apetite, que deixa a alma livre e vazia de tudo, mesmo possuindo muitas riquezas. Efetivamente, não são as coisas deste mundo que ocupam a alma ou a prejudicam, pois lhe são exteriores, mas somente a vontade e o apetite que nela estão e a inclinam para estes mesmos bens” (Sub. 1,4,4). Por isso ensina: “Para chegares a possuir tudo, não queiras possuir coisa alguma” (Sub. 1,13,11).

A primeira nota do Coração Imaculado de Maria é que ele é pobre, despojado de si mesmo, totalmente desprendido de todas as riquezas. Maria é pobre em espírito: ela reconhece que tudo o que tem lhe veio e vem de Deus e nada quer ter de seu, a começar pela sua vontade, os seus planos e desejos. Por isso se intitula a si mesma, por duas vezes, como “a escrava do Senhor”, nos dois únicos textos do Novo Testamento em que a palavra ocorre:[1] a) na anunciação: “Eis a escrava do Senhor” (Lc 1,38); b) e no Magnificat: “O Senhor pôs os olhos na humildade da sua escrava (lit.; he. ‘amah; gr. doúle). O Poderoso fez em mim grandes coisas” (Lc 1,48-49; cf. 1Sm 1,16!).

Os ricos dão do que lhes sobra (cf. Lc 21,4), mas os pobres, partilhando tudo o que têm e nada mais tendo para dar, dão-se a si mesmos. Por isso são tão generosos. Estes são os verdadeiros “pobres em espírito”: os humildes, que tudo dão, para se darem a si mesmos, recebendo a boa nova com um coração de pobre, desejoso de aprender, de caminhar, se deixar guiar, de acolher, de partilhar.

São “pobres em espírito” também aqueles que ao escutar a Palavra se arrependem sinceramente, não confiando nos seus próprios méritos, reconhecendo que nada do que têm é seu, mas que tudo é dom de Deus (cf. 1Cor 4,7; Tg 1,17). São pobres porque criam espaço dentro de si para a Palavra de Deus, não se guiando pelo seu próprio critério, mas confiando a Deus a direção da própria vida, deixando-o entrar nela com a sua sabedoria e constante novidade (cf. Papa Francisco, Alegrai-vos e exultai [AE] 67). São pobres em espírito porque não se apoiam, nem gloriam em si mesmos, pretendendo ser o centro e a medida de tudo. Por isso, mesmo quando são desprezados e odiados pelos outros (cf. Pv 14,20; 19,4.7), continuam a abrir-se a eles, a amá-los e a acolhê-los como irmãos, reputando-os como sendo superiores a si mesmos (cf. Fl 2,3) e consi­derando-se ditosos por os ter como seus irmãos (cf. 2Ts 2,13). Fazem tudo para viver em comunhão com eles e estão sempre desejosos de os servir (cf. 23,11) e assistir nas suas necessidades, nada querendo para si sós, mas tudo partilhando com os outros, em especial com os mais necessitados (cf. 25,37ss; Lc 17,10), levando uma vida austera e essencial (cf. AE 70). Tornam-se assim semelhantes a Jesus, que “sendo rico, Se fez pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza” (2Cor 8,9).

Foi o que fez Maria, como S. Teresinha do Menino Jesus tão bem o diz a respeito dela: “Sei que, em Nazaré, ó Mãe, cheia de graça, viveste pobremente, não querendo nada mais, nem arroubamentos nem milagres nem êxtases, embelezam a tua vida, ó Rainha dos eleitos!. O número dos pequenos é bem grande na terra, eles podem sem receio erguer os olhos para ti: é pela via comum, incom­parável Mãe, que te apraz caminhar, guiando-os para o céu” (P 52,17).

Revisão de vida. Perguntemo-nos: sou pobre no meu íntimo, no meu coração? A que é que ainda estou apegado? O que posso partilhar hoje? Com quem?

Ação. Procuremos aproveitar algum gesto ou comentário que nos humilham para abandonar o orgulho e a autossuficiência. Partilhemos algo a que estamos apegados com algum necessitado e confiemos inteiramente na providência de Deus.

Oração

A tua íntima pobreza, Maria, é aquela fé e confiança absoluta, postas só em Deus. Só a Ele procuras, em primeiro lugar, acima de tudo e de qualquer coisa do mundo, abrindo-lhe assim o vale profundo da tua humildade, que pode conter Jesus, o Oceano do Amor.

Pai de infinita sabedoria, faz que acolhendo com fé viva a Tua palavra aprendemos a pôr só em Ti a esperança da salvação. Por Cristo, nosso Senhor. Amen.

V. Maria, Mãe do coração puro, mulher das Bem-aventuranças,
R. Roga por nós, para que sigamos fielmente o teu Filho.

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[1] O termo doúle ("escrava"), só ocorre mais uma vez no Novo Testamento, em At 2,18, mas apenas como citação de Jl 3,2: "E sobre os meus escravos e as minhas escravas derramarei, naqueles dias, o meu Espírito e profetizarão".