O Castelo de Teresa

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Teresa de Ávila apresentou aos 62 anos de idade um resumo da sua vida de oração. Imaginou a sua viagem espiritual como uma viagem desde o exterior de um castelo todo de cristal até ao aposento central onde vivia o Rei. Da parte de fora estava escuro, fazia frio e havia barulho. O Rei, no centro do castelo, convida a alma, o indivíduo, para uma união profunda. À medida que a alma avança através do castelo, a escuridão dá lugar à luz, o frio ao calor, e as criaturas que fazem ruído distraem cada vez menos.

A viagem até ao centro do castelo acontece através de sete quartos, sete mansões, sete moradas. São sete etapas na relação da alma com Deus. Todos os quartos da superfície exterior do castelo são as primeiras moradas, talvez “um milhão”, mais ou menos. A seguinte fila de quartos representa as segundas moradas, e assim sucessivamente, até que a alma chega ao centro. Teresa disse que é como um palmito que tem muitas folhas a envolvê-lo.

Imagem: da periferia ao centro

A imagem de Teresa descreve uma viagem desde a periferia até ao centro da nossa vida. Nesta imagem Deus não está noutro lugar, Deus “está sempre lá”. Santo Agostinho rezou: “Tu estavas dentro, mas eu estava fora: Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo”.

Uma das transições mais difíceis para os cristãos é passar do moralismo para a moral cristã. O moralismo parte do princípio que se sou bom, sou premiado e se sou mau sou castigado. É a moral da criança, mas que logo se aplica a Deus. Eu acredito que se sou bom, ganho o amor de Deus. Pelo contrário, se peco, Deus retira-me o seu amor.

A moral cristã afirma que eu sou amado antes mesmo de fazer algo, seja bom ou não. Não posso comprar o amor de Deus. Não o posso ganhar. Não posso dar nada em troca. Eu não tenho que acalmar Deus para que Ele me ame. Deus ama-me na vida, e continuará a amar-me ao longo da minha vida. Não posso afastar o seu amor de mim. Pode ser que não acredite nele, pode ser que eu o rejeite, mas Deus não anda longe. Deus “está sempre lá”.

Problema: não nos conhecemos a nós mesmos

O problema, disse Santa Teresa, é a “nossa falta de auto-conhecimento”. Disse: “se não me conheço, não te posso conhecer, meu Deus”. Mas, não posso conhecer-me a mim mesmo, se não sei quem és Tu. Acreditamos que Deus se manifesta através da sua criação. Nós mesmos somos o primeiro com que nos encontramos com a criação de Deus. Karl Rahner perguntava-se se sabíamos o que nos diz Deus na oração. Nós sabemos o que lhe dizemos na oração. Mas o que nos diz Deus? A resposta de Rahner é que somos o que Deus nos disse na oração. Ao ouvir a palavra “somos”, começamos a ouvir com maior clareza o que Deus nos diz. No entanto, Teresa ensinou-nos que não podemos conhecer-nos a nós mesmos, se não conhecemos Deus. Só desde a relação com Deus é que nos entendemos mais claramente a nós mesmos e a Deus.

Teresa conta que nos primeiros 18 anos da sua vida na Encarnação estava perdida. Quando estava com as coisas de Deus, queria estar com as coisas do mundo. Ao contrário, quando estava com as coisas do mundo, queria estar com as coisas de Deus.

Por “mundo”, acredito que Teresa entendia que continuava metida nas noticias de Ávila através das conversas que mantinha no locutório e através de outros meios de comunicação. Por “coisas de Deus” queria dizer que trabalhava arduamente para que a considerassem no convento uma monja observante.

Um dia, quando estava diante de uma estátua de Cristo “muito chagado”, um “Ecce Homo”, que levaram para o convento, Teresa caiu de joelhos e disse que não se levantaria até que ficasse curada. O encontro com Cristo “muito chagado” curou-a. Pôs-se de pé, livre de indecisões e, pouco tempo depois, começou a planear a reforma do Carmelo.

O que aconteceu?

Teresa não disse o que exactamente foi curado, mas podemos supor o que lhe aconteceu conhecendo as nossas próprias necessidades. Talvez a nossa pergunta mais profunda seja: Somos amados? Somos essencialmente bons? O que temos que realmente mereça a pena? Qual é o nosso valor? Teresa deu-se conta do que tinha vindo a pedir à sociedade, aos que viviam ao seu redor, e à própria vida religiosa: que a valorizassem e a reconhecessem. Estava a tentar ser reconhecida pela sociedade, que a considerassem uma boa religiosa. Procurou ser reconhecida desde fora.

Neste encontro com “Cristo chagado”, talvez se tenha dado conta de que as aquelas feridas eram por amor a ela. Não tinha que demonstrar aos que a rodeavam que era adorável e digna. Teresa percebeu que tinha um imenso valor e dignidade, simplesmente porque Deus a amava. A sua dignidade vinha de Deus que estava no centro da sua vida.

Solução: a oração e a reflexão

“A porta para entrar neste castelo é a oração” (2 M 1, 11) e a reflexão, escreveu Santa Teresa. O que nos mantém na periferia da vida é um sem fim de preocupações e inquietações. Ela menciona “os passatempos e negócios e alegrias e confusões deste mundo” (2 M 1, 2). Por outras palavras, em lugar de termos um centro na nossa vida, temos muitos centros que atraem a nossa atenção.

As muitas preocupações, os muitos centros fragmentam-nos. A oração é o que nos liberta da nossa vida dissipada e fragmentada fora do castelo e de estar na periferia da nossa vida.

Na história do castelo de Teresa, o chamamento é feito pelo Rei que está no centro. Na oração, é Deus quem nos fala primeiro e quem inicia a relação. Deus chamou-nos à vida, e continua a chamar cada vez mais profundamente na nossa vida. Nós somos essencialmente ouvintes do chamamento de Deus. A Regra do Carmelo realça que o silêncio é necessário para ouvir o chamamento de Deus. O Carmelita está sempre expectante, aperceba-se da proximidade de Deus. Na oração, todas as nossas palavras são um esforço para dizer uma só palavra, a de Deus.

Quando nos comprometemos a situar o Mistério no centro das nossas vidas, todos os outros amores menores se reordenam. Os muitos centros que nos deslocam para a periferia da nossa vida, orientam-se em torno do central. Identidade e valor ocupam agora o centro da nossa vida. Os outros amores e interesses encontram o seu justo lugar na vida. O convite que procede do centro do castelo liberta-nos para deixar a periferia e continuar a viagem.

O único grande problema, segundo a opinião de Teresa, é deixar a oração. Quando deixamos de orar, deixamos de escutar, e quando deixamos de escutar é muito difícil ouvir o suave sibilo do pastor. Um teólogo resumiu deste modo a mensagem de Teresa: “um olhar atento, fiel e permanente às nossas profundidades e ao nosso centro é a melhor forma de cooperar com Deus, o qual está a  reorientar a nossa vida”.

Objectivo: a união com Deus

O objectivo da viajem é a união com Deus no amor. À medida que a alma escuta mais atentamente e responde com maior generosidade, faz-se mais profunda a relação com o Mistério no centro da nossa vida. Acreditamos que Deus nos chama sempre para sermos mais plenamente humanos, para uma liberdade maior e para uma união mais íntima.

Nesta viagem para o centro da nossa vida, o ser nasce ao encontrar-se com Deus. Quanto mais Teresa foi capaz de dizer “Deus” na sua vida, tanto mais foi capaz de dizer de si mesma (Teresa).

A compreensão carmelita da viagem fala de transformação. Na Regra do Carmelo, o carmelita está obrigado a colocar a armadura de Deus, ou seja, a estar disponível para que Deus o possa revestir de virtude. E as actuais Constituições, nº 17, afirmam: “A contemplação constituí o itinerário interior do carmelita, que arranca da livre iniciativa de Deus que o toca e o transforma em vista da unidade de amor com Ele, elevando-o a poder gozar gratuitamente de ser amado por Deus e viver na sua presença amorosa. É esta uma experiência transformante do amor de Deus soberano. Este amor esvazia-nos dos nossos modos humanos limitados e imperfeitos de pensar, amar e agir, transformando-os em divinos”.

John Welch, O. Carm.

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