LECTIO DIVINA – LEITURA, NO ESPÍRITO, DA PALAVRA DE DEUS
Acolhimento. Sinal da cruz. Oração inicial. Invocação do Espírito Santo:
A. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
T. E acendei neles o fogo do vosso amor.
A. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado
T. E renovareis a face da terra.
A. Oremos. Senhor, nosso Deus, que iluminastes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, tornai-nos dóceis às suas inspirações, para apreciarmos retamente todas as coisas e gozarmos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. T. Amen.
1) LEITURA (Que diz o texto? Que verdade eterna, que convite/promessa de Deus traz?)
Leitura do Evangelho segundo S. Mateus (5,1-12)
Naquele tempo, 5,1ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-se. Os seus discípulos aproximaram-se dele 2e Ele, abrindo a boca, ensinava-os, dizendo: 3”Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 5Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. 6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9Bem-aventurados os artífices da paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10Bem-aventurados os que são perseguidos por causa justiça, porque deles é o reino dos Céus. 11Bem-aventurados sois, quando, por causa de mim, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem toda a espécie de mal contra vós. 12Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa. Pois foi assim que perseguiram os profetas que vieram antes de vós”.
Ler a primeira vez… Em silêncio, deixar a Palavra ecoar no coração… Observações:
Mateus apresenta Jesus como o Filho de Deus que recapitula em si a história da salvação, cumprindo em si as promessas, figuras e gestas do AT, levando-as à plenitude, da qual tornará participante o novo Povo de Deus (cf. 21,43), que reunirá e formará por gentes de todas as nações (10,18; 12,18.21; 24,14; 28,19).
Com as bem-aventuranças, Mateus, que já dissera que Jesus ensinava e pregava (4,17.23), começa a transmitir-nos o seu ensinamento, que condensa principalmente em cinco discursos, dos quais o primeiro é o de hoje, o “Sermão da Montanha” (cc. 5-7: Lc 6,20-49), a magna charta do Reino (4,23), que se abre com a presente perícope, as bem-aventuranças, sem dúvida o texto religioso mais sublime da humanidade.
- v. 1. Ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-se. Os seus discípulos aproximaram-se dele.
v. 1: Lc 6,17.
Antes de apresentar o Sermão da montanha, Mateus introdu-lo, enquadrando-o no cenário em que o pretende situar.
“Ao ver” (gr. idôn: “vendo”) é uma alusão a Deus que no Sinai diz a Moisés: “Vendo, vi a aflição do Meu povo no Egito, ouvi o seu clamor… conheço os seus sofrimentos” (Ex 3,7). Jesus “vê”, com o olhar e as entranhas de Deus, “as multidões”.
Mateus usa este plural para incluir entre os ouvintes de Jesus, não só os seus conterrâneos judeus, mas também os gentios, não apenas as pessoas da sua época, mas as de pessoas de todos os tempos e lugares (4,23-25!; cf. 8,1.18; 9,36; 14,15.19.22.23; 15,29ss. 39), compostas por aqueles que “jaziam nas trevas e na sombra da morte” (4,16), que o “seguem” (4,25), “vêm” a Ele, representando todos os povos (cf. Sb 6,2; 8,10), a quem se destina o Evangelho (28,18ss). Desde o início, o Evangelho irrompe como boa nova de salvação de destino e alcance universais.
Jesus “subiu ao monte” (14,23; 15,29; cf. Lc 6,17: Jesus desceu do monte a uma planície), do qual “desceu” no final do sermão (8,1). Jesus sobe não para se pôr acima dos outros, mas para a todos poder ver e por todos poder ser visto e ouvido (cf. 4,8).
No AT, “o monte” é o lugar da revelação e do encontro com Deus (cf. Gn 22,2; Ex 3,1; 1Rs 19,8; Sf 3,11; Is 52,7), onde acorrerão todos os povos para escutar a Palavra de Deus, conhecer a Sua vontade e aprender a seguir os Seus caminhos (Is 2,3).
“O monte” tem em Mateus um valor simbólico, aparecendo nele a palavra “monte” (gr. óros) 16 vezes, designando os oito montes que refere no seu Evangelho: (i) o monte da tentação (4,8); (ii) o m. da pregação (5,1=8,1); (iii) o m. sobre o qual está construída a cidade (a Igreja; não é computado pelos exegetas: 5,14); (iv) o m. da oração (14,23); (v) o m. da multiplicação dos pães (15,29); (vi) o m. da transfiguração (17,1.9; 17,20 = 21,21); (vii) o m. das Oliveiras (21,1 = 24,3; 26,30); (viii) e o m. da aparição do ressuscitado e do grande mandato (28,16).
A confluência nos vv. 1-2 dos termos “Galileia”, “monte”, “ensinar”, “discípulos” e “aproximar-se” repete-se na conclusão do Evangelho (28,16.19s), formando uma inclusão com ele: o ensinamento que os discípulos irão transmitir a todas as gentes é o mesmo que receberam de Jesus.
A menção de Jesus “subir ao monte” destina-se a apresentar Jesus como o novo Moisés que “subiu ao monte” Sinai, por duas vezes, para receber a Lei de Deus e a transmitir ao povo, em Seu nome (Ex 19,3; 24,15.18). Ao acrescentar que “os seus discípulos vieram ter com Ele”, Mateus não se refere tanto à primeira vez que Moisés subiu ao Sinai (embora a ela aluda), pois o povo, perante a ameaça divina, não se aproximou (cf. Ex 19,12s.15-22), com medo de morrer (Ex 20,19), mas sobretudo à segunda vez, quando Moisés, depois do povo ter pecado, adorando o bezerro de ouro, subiu ao Sinai (Ex 34,4) e, passados quarenta dias, dele desceu, trazendo na mão as tábuas da Lei, “e todos os filhos de Israel vieram ter com ele, e ele ordenou-lhes tudo que o Senhor lhe tinha dito” (Ex 34,32), renovando em seguida a Sua Aliança com o Seu povo (Ex 34,10.27).
Pela semelhança com esta subida de Jesus “ao monte” e, ao mesmo tempo, em razão do contraste dela com as duas subidas de Moisés ao Sinai aqui referidas, o evangelista mostra que: a) o regime do temor servil do AT dá lugar em Jesus ao convívio fraterno de Deus com o homem e à intimidade da sua relação com ele, como a de um pai com o seu filho; 2) Jesus é mais que Moisés (cf. 12,41s), pois Moisés transmite a palavra que recebeu de Deus, ao passo que Jesus a pronuncia por própria autoridade (vv. 18.20.22.28.32.34.39.44; 6,2.5.16.25.29; 7,29); 3) a palavra de Jesus destina-se a todos os homens, sejam eles judeus ou gentios (v. supra); 4) esta palavra dirige-se a pecadores (cf. 9,13), com os quais Ele não vai apenas renovar a aliança, mas, selar a nova Aliança (no Seu sangue: 26,28).
A subida de Jesus “ao monte” tem finalmente a ver com a última e derradeira subida de Moisés “ao monte”, desta vez o Nebo (cf. Dt 34,1), antes de morrer, para daí contemplar a Terra Prometida, que Deus iria dar aos filhos de Israel (cf. Nm 27,12s; Dt 32,49.52) e ele não entraria, mas seria Josué (gr. Iesous!), a nela introduzir o Povo de Deus (Dt 31,7. 23). Jesus é o novo Josué que introduzirá o Povo da nova aliança na verdadeira “terra” prometida (cf. v. 5), a pátria definitiva do Reino dos céus.
Tendo subido ao monte, Jesus, antes de começar a falar, “senta-se”, à boa maneira dos rabinos, para ensinar (cf. 23,2; Lc 5,3). Os seus discípulos “aproximam-se”, vêm ter com Ele e sentam-se a seus pés (cf. Lc 10,39; At 22,3), para O escutar e d’Ele receber a revelação definitiva de Deus (24,35) e aprender a fazer a Sua vontade (cf. 7,24).
- v. 2. E Ele, abrindo a boca, ensinava-os, dizendo.
Como a sabedoria (12,42), Jesus “abre a boca” (na assembleia, gr. ekklesia: Sr 24,2) e, como rabino, “ensina” a Palavra de Deus ao povo, “explicando o seu sentido para que todos pudessem compreender” (Ne 8,8). O verbo “ensinar” está no imperfeito, que indica uma ação incompleta, ainda não terminada, sublinhando que nessa altura Jesus começou a ensinar e que desde então Ele ainda o continua a fazer (através dos seus discípulos, ao longo das gerações, em toda a terra, até à consumação do tempo: 28,19s).
No seu ensino (he. lamad; gr. didaskalía), Jesus não promulga uma nova “Lei” (Mt, 8x: 5,17.18; 7,12; 11,13; 12,5; 22,36.40; 23,23), feita de normas, prescrições e mandamentos, incapazes de dar a vida. De facto, na Sagrada Escritura, nunca aparece a expressão “Lei da vida”, dizendo-se apenas que é pelo cumprimento dos mandamentos que o homem viverá (Lv 18,5; Ne 9,29; Br 4,1; Ez 20,11.13.21; Lc 10,28; Rm 10,5; Gl 3,12; Dt 4,1; 6,24; 8,1).
Jesus, ao invés, proclama a sabedoria do Reino (13,19), a verdadeira “árvore da vida”, que dá a vida eterna (Pv 3,18; 11,30; 15,4; cf. Gn 2,9; 3,22.24), muito superior, por isso, à lei mosaica.
Só Jesus, enquanto Filho de Deus, conhece o Pai e sabe o que Deus tinha em mente quando deu a Lei a Moisés. Por isso, só Ele pode mostrar o que é que Deus realmente quer e o que é que, de facto, Lhe agrada (11,27). E tal como Moisés fixou por escrito a Lei (he. Torá, “ensino”: Ex 34,27s; Dt 31,9; cf. Jo 1,45; 7,19) em cinco “rolos” ou livros (o Pentateuco), também Jesus, em Mateus, pronuncia cinco discursos (5-7; 10; 13; 18; 24-25), sendo o primeiro, o inaugural este, o “Sermão da montanha” (cc. 5-7), onde Jesus apresenta o Reino dos céus e resume o seu programa de vida.
As “bem-aventuranças” são um género literário já usado no AT que aparece: a) em fórmulas de ação de graças (Sl 32,1s; 33,12; 84,5.6.13); b) em exortações a uma vida sábia e prudente (Pv 3,13; 8,32.34; Sl 1,1), c) e como anúncio profético da alegria messiânica (Is 30,18; 32,20). São sempre anúncio de uma alegria que vem de Deus e que só Ele pode dar (Br 4,4). Por isso, se chamam “bem-aventuranças”: porque respondem ao desejo fundamental de todo o ser humano, ser feliz, mostrando-lhe como o pode ser, não lhe prometendo, porém, uma felicidade individual, intransmissível, terrena e temporária (cf. 1Cor 15,19), mas a verdadeira felicidade, a do “Reino dos céus”, ou seja, a felicidade perfeita, eterna, plena e comunicativa de Deus, que ninguém pode alcançar graças aos seus esforços, porque é puro dom de Deus, oferecido a todos os homens e se recebe por meio da fé em Jesus Cristo (cf. Rm 3,22; Gl 3,14.22).
Há duas versões das bem-aventuranças: a de Mateus e a de Lucas. A versão de Mateus é mais desenvolvida, espiritualizada e posterior à de Lucas, mais primitiva, só com quatro bem-aventuranças (6,20b-23), seguidas por outras tantas lamentações proféticas, dispostas, segundo o estilo semita, num rigoroso paralelismo antitético (6,24-26).
As bem-aventuranças em Mateus são nove (3 x 3, sendo três o número divino), dispostas numa sequência de 8+1. Trata-se dum artifício sapiencial (cf. Sir 25,7-11), em que, tendo-se enunciado os comportamentos que se querem inculcar, se remata a série com um último, que é o desdobramento do anterior e que a todos os outros inclui e sintetiza, conferindo a unidade a todo o conjunto. Também aqui, às oito primeiras bem-aventuranças, que são formuladas na terceira pessoa do plural (“eles”), se acrescenta a última, que é formulada na segunda pessoa do plural (“vós”), e que a todas retoma, fornecendo a chave da sua interpretação, e as completa, endereçando-as diretamente aos discípulos de Jesus, a quem elas se aplicam de forma singular.
Cada uma das bem-aventuranças refere-se mais a um ou a outro termo do duplo mandamento do amor a Deus e ao próximo (cf. 22,35-40), ligando ambos entre si, de modo a fazer progredir os discípulos de Jesus, passo a passo, no caminho da verdadeira santidade, rumo à plenitude da vida cristã, só alcançável na perfeita comunhão com Deus, que se consumará na bem-aventurança eterna do Reino dos céus.
A primeira (v. 3) e a oitava bem-aventuranças (v. 10) terminam com a mesma promessa: “porque deles é o Reino dos céus”, formando uma inclusão semítica, à qual se acrescenta a nona bem-aventurança, que recapitula e une as oito anteriores. No interior desta inclusão, as bem-aventuranças formam um quiasma, disposto em forma concêntrica.
As primeiras oito bem-aventuranças ("oito" é o número da eternidade), dividem-se em duas séries de quatro. A primeira série de quatro “bem-aventuranças” (A-C) detém-se mais na atitude interior dos seus destinatários, saudando a felicidade daqueles que confiadamente se entregam a Deus, para fazer a Sua vontade, tendo-o a Ele como o seu tudo; as outras quatro (D-A’) definem o comportamento cristão, de modo que, enquanto no primeiro grupo se contemplam estados de espírito e situações, no segundo se propõem os gestos próprios, as ações características dos discípulos de Cristo. Chegamos à seguinte disposição: 
Cada bem-aventurança compõe-se de duas partes, segundo o esquema habitual da Palavra de Deus: a) um convite, seguido b) de uma promessa. No convite, Deus diz ao homem o que deve fazer para responder ao seu apelo; na promessa, diz o que Ele próprio fará na vida daquele que Lhe respondeu afirmativamente. A primeira parte, é da responsabilidade do homem, para ser feita por ele, ajudado pela graça de Deus; a segunda parte, é da responsabilidade de Deus, que a realiza, cumprindo a sua promessa. Por isso, na segunda parte, na maior parte das promessas (exceto v. 8) ou se usa um circunlóquio para referir Deus (“Reino dos céus”, “a terra”, “céus”) ou se recorre ao passivo divino (“serão consolados”, por Deus, subentende-se) para, à boa maneira judaica, evitar pronunciar o Nome divino (Nm 23,19; Ez 36,36; Lc 1,38.45; 1Ts 2,13).
Por sua vez, o primeiro membro de cada bem-aventurança compõe-se de dois elementos: a) a saudação profético-sapiencial: “bem-aventurados” (v. infra); b) a situação, atitude ou comportamento pessoal a que se refere. Já na segunda parte da bem-aventurança, a promessa, declara-se o motivo da bem-aventurança, a forma como Deus vai agir: “porque” (gr. óti).
O que são as bem-aventuranças? Não são uma lei, porque as leis podem sempre ser contornadas; não são uma utopia, porque a utopia, nunca se realiza sobre a terra; não são uma moral, porque não consistem em normas exteriores; não são um conjunto de princípios éticos, porque não dependem só do bom comportamento e do esforço humanos. São um anúncio profético, de cariz sapiencial, da felicidade eterna do Reino dos Céus (cf. v. 2), tal como ela pode ser experimentada e vivida já aqui, sobre a terra, por aqueles que acolhem com fé “o Evangelho do Reino” (4,23).
Porque anúncio profético, as bem-aventuranças são palavra de Deus que realiza aquilo que anuncia na vida daquele que a acolhe com fé e a põe em prática (24,34-35; Nm 23,19; Sl 48,9; Is 55,10-11; Ez 36,36; 37,14; Lc 1,38.45; 1Ts 2,13).
E enquanto anúncio profético, elas são "Evangelho", alegre notícia, boa-nova daquilo que Deus vai fazer na vida daqueles que ninguém espera ou supõe que alguma vez possa ou venha a ser feliz. São, assim uma apresentação, logo no início, da mensagem de Jesus, repetida nove vezes, de forma diferente, apontando-a como boa-nova, Evangelho de Deus, oferecido à humanidade (cf. Is 52,7; 40,9; Na 1,15; Rm 10,15).
Tal como Deus fez Moisés subir o monte e do alto lhe deu a contemplar a Terra prometida, antes do povo nela entra (e onde ele não entrou: v. supra), também Jesus, logo no início da sua pregação, faz os seus discípulos subir ao monte da sua palavra (cf. 7,24) – onde Ele se senta e continua a ensinar todos os homens de todos os tempos que a Ele acorrem (cf. v. 14; Is 2,3) – para aí os fazer contemplar a meta, dando-lhes a vislumbrar algo da verdadeira Terra prometida, o Reino dos céus, de modo que, animados por tão grande esperança, não desfaleçam pelo caminho, mas avancem com um entusiasmo crescente até verem a Deus na plenitude final (cf. Sl 84,6-8), onde Jesus, como verdadeiro Josué, entrará (ao invés de Moisés), para depois aí os introduzir, como novo Povo de Deus, a quem já dá a saborear, aqui sobre a terra, através da fé e da esperança, a plenitude final, que lhes "está preparada desde a fundação do mundo" (24,34), "a vida eterna" (25,46) para a qual Ele os conduz (7,13-14).
Desta forma, as bem-aventuranças são como que as nove janelas que Jesus, logo no início da sua pregação, abre aos seus discípulos, para através delas os fazer contemplar, já aqui, sobre a terra, “como que num espelho” (1Cor 13,12; 2Cor 3,18), a meta, o Reino dos Céus (cf. Ex 24,10), mostrando-lhes como é que ele se começa a manifestar, se torna presente e se vai realizando, ao longo da sua peregrinação sobre a terra, rumo à pátria celeste, a plenitude do Reino dos céus.
Enquanto boa-nova, "Evangelho", cada bem-aventurança começa com a palavra “bem-aventurado” (gr. makários: “feliz”, “abençoado”). Este adjetivo traduz nos LXX, o verbo hebraico ‘esher, que significa “ir em frente”, “seguir diretamente”, “avançar” (Sl 1,1). Cada bem-aventurança pode, pois, traduzir-se desta forma: “Avante, sigam em frente, sempre a direito, sem medo e com alegria, os pobres em espírito, os que choram, os mansos, rumo à meta (cf. Fl 3,13s), a felicidade plena do reino dos Céus!”
Desta feita, as bem-aventuranças são também as nove portas através das quais se pode entrar no Reino dos céus e as nove vias pelas quais há que caminhar para progredir e poder alcançar a plenitude da vida, na perfeita comunhão com Deus e com os irmãos.
Não há outra maneira de o fazer: quem quiser entrar no Reino dos céus, pertencer-lhe e viver nele tem de se identificar com alguma das bem-aventuranças – uns, mais com uma, outros, mais com outra; mas cada um com, pelo menos, alguma delas –, pois só assim poderá ser "o discípulo como o seu Mestre e o servo como o seu Senhor (10,25), Jesus, a imagem viva e acabada de todas elas, que as ensina e realiza na vida daquele que n'Ele crê, porque Ele próprio viveu cada uma delas e a todas elas realizou (cf. 5,19), para que elas se pudessem cumprir na vida daqueles que abraçarem a primeira de todas as bem-aventuranças, a da fé: "Bem aventurada a que acreditou no cumprimento daquilo que lhe foi dito da parte do Senhor" (Lc 1,45); e: "Bem-aventurados os que não viram e acreditaram" (Jo 20,29).
Longe de serem uma utopia, um ideal distante, que só algumas pessoas de exceção, com muito esforço, ao longo de muitos anos, poderiam alcançar, as bem-aventuranças são a porta que Deus abre aos homens nas situações mais adversas em que se podem encontrar, para que, entrando por elas, possam abraçar, desde logo, o Reino de Deus, que vem ao seu encontro, se lhe revela e dá em Jesus Cristo, bastando para tal escutar o Evangelho, arrepender-se e acreditar nele (3,2; 4,17; Mc 1,15). Por isso, começam e terminam com a mesma promessa, formulada no presente do indicativo: "porque deles é o Reino dos céus" (vv. 3.10).
Introduzidas as bem-aventuranças, Mateus passa ao seu enunciado.
- v. 3. Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus.
v. 3: Lc 6,20.
Com este anúncio, que introduz o seu ensino, Jesus proclama uma boa nova revolucionária, que introduz uma novidade, desconcertante e radical, em relação ao AT e ao sentir geral da humanidade. Faz, no início do seu primeiro discurso, aquilo que ninguém antes tinha feito: pôr em primeiro lugar os pobres, aqueles que não têm nome, em quem ninguém repara, de quem ninguém fala e em quem quase ninguém pensa. Ao mencionar os pobres em primeiro lugar (26,10), Jesus dá prioridade e capta a benevolência do grupo de pessoas que compõe a esmagadora maioria da humanidade, não só na sua época, mas também em toda a terra, nos nossos dias.
Com efeito, no AT não era a pobreza, mas a riqueza, que era considerada uma bênção de Deus (cf. Gn 13,2; 24,35; 26,13s; 30,43; 32,6; 33,11; Lv 26,3-10; Dt 28,2-13; 1Rs 3,13; 10,14-25; Sl 112,3), sendo a pobreza tida como maldição (cf. Pv 13,18; 28,22; 30,8s) e olhada com desprezo pelos rabinos (cf. Pv 6,10; 10,15; 20,13; 23,21), que reputavam os pobres como mortos: “Quatro são considerados mortos e estes são: os pobres, os cegos, os leprosos e os que não têm filhos” (bAZ 5a,17-18; bNed 64b.6). O mesmo acontece com a maioria das pessoas, cuja maior ambição é ser rica.
Com Jesus dá-se o oposto. Ele não elogia a miséria material, a pobreza e a necessidade enquanto condições sociais, mas exalta a atitude de desapego, a humildade e a total dependência de Deus que os pobres têm.
Nos LXX, o termo “pobre” (gr. ptôchós) traduz o hebraico anaw (pl. anawin), os “pobres de Iavé”, desprovidos de recursos, influência social e meios, que só têm a Deus por auxílio, pondo n'Ele toda a sua esperança. São estes pobres que são objeto de especial solicitude por parte de Deus (cf. Sl 9,19; 34,19; 40,18; Is 14,32; 29,19; 57,15; Tg 2,5), é a eles que se destina antes de mais o Evangelho (cf. Lc 2,10) e é a eles que Jesus se dirige e foi enviado em primeiro lugar, como anuncia Isaías e o próprio Senhor o declarou na sinagoga de Nazaré: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu; enviou-me a pregar a boa-nova aos pobres, a curar os quebrantados de coração, a anunciar a redenção aos exilados e a liberdade aos prisioneiros; a pregar um ano da graça do Senhor…; para consolar os tristes” (Is 61,1-2; cf. Lc 4,18-19).
É a partir desta passagem, onde há uma estreita ligação entre os pobres e os quebrantados de coração, que se formulam as quatro primeiras bem-aventuranças (vv. 3-6), das quais as próximas três são o desdobramento desta bem-aventurança fundamental, que o próprio Jesus liga a Is 61,1, confirmando que é o Messias prometido: “os pobres são evangelizados” (11,5).
Certamente os pobres que Jesus visa aqui são, em primeiro lugar, os literalmente pobres, como Lucas expressamente o declara (Lc 6,20). Mas enquanto Lucas atenta mais à sua condição externa, Mateus, ao precisar que são "os pobres em espírito" destaca mais a sua atitude interior, não só para sublinhar o estado de espírito que os caracteriza, mas também para neles incluir os pobres que o não são por triste necessidade ou por condição social (como é o caso de Mateus, que era publicano: 9,9; 10,3), mas cuja atitude interior se assemelha à deles: "Deixarei no meio de ti um povo pobre (gr. praús, "manso") e humilde (gr. tapeinós; cf. v. 5; 11,29) e eles confiarão no nome do Senhor" (Sf 3,12).
A expressão “pobres em espírito” aparece em hebraico pela primeira vez em Is 66,2: “Eis para quem olharei: para o pobre e quebrantado de espírito que treme diante da minha palavra”, seguido por Qumran, na “Regra da Guerra” (1QM 14,7), onde é usado no mesmo sentido de Isaías. Uma expressão sinónima ocorre no Sl 34,19 LXX: “o Senhor está perto dos corações quebrantados e salvará os humildes de espírito (gr. toús tapeinoús tô pneumati)”.
“Os pobres em espírito” não são os “pobres de espírito” (os simplórios, ingénuos, tolos), nem os pobres com mentalidade de ricos: são aqueles que se sentem e vivem como pobres (8,18; cf. Sf 3,12), acreditam nos pobres (11,25s) e neles veem os primeiros destinatários da Boa Nova (Lc 4,18). São pobres “em espírito” (Sl 34,19), ou seja, no Espírito, porque, esvaziando-se de si mesmos (cf. Fl 2,7) e despojando-se do próprio eu, ao escutar a Palavra, arrependem-se sinceramente (4,17; Sl 51,19; Is 57,15) e procuram pô-la em prática, não se apoiando nas suas próprias forças (cf. Jr 17,5), nem confiando nos seus próprios méritos (Lc 18,10-14), reconhecendo que nada do que têm é seu (Lc 17,10), mas que tudo é dom de Deus (cf. 1Cor 4,6s!; Tg 1,17), a quem confiam o rumo e a direção da própria vida e do qual tudo esperam e recebem.
Não se ensoberbecem, erigindo-se como o centro e a medida de tudo, mas gloriam-se apenas no Senhor (cf. Jr 9,22s; 1Cor 1,27s). Por isso, mesmo quando são desprezados e odiados pelos outros (Pv 14,20; 19,4.7; Is 66,5), continuam a acolhê-los, vendo neles irmãos, a quem estimam como sendo superiores a si mesmos (Fl 2,3), considerando-se ditosos e sentindo-se agradecidos por os ter como irmãos (cf. 2Ts 2,13), deixando-se corrigir por eles (18,15s), tudo fazendo para viver em comunhão com eles, estando sempre prontos para servir o próximo (cf. 23,11s) e o assistir nas suas necessidades, nada querendo para si mesmos, mas tudo partilhando com eles, em especial com os mais necessitados, esquecendo-se de si mesmos (cf. 25,37-39; Lc 17,10).
São, em particular, aqueles que não acumulam tesouros na terra (6,20) e que, buscando “em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça” (6,33), tudo deixam (cf. 19,27), de tudo se desprendem e tudo vendem para dar aos pobres (cf. 19,21), de modo a adquirir o “tesouro escondido” e a “pérola preciosa” (13,44.46) do Reino dos céus. São também "os perseguidos por causa da justiça” (v. 11), humilhados, oprimidos, rejeitados, espoliados dos seus bens e encarcerados por causa da fé em Cristo (cf. v. 11; 1Ts 1,6; 2,14; 3,3-4; 2Cor 8,2; Hb 10,34; Tg 1,12; 1Pd 1,6).
Esta pobreza voluntária que Jesus assumiu e com a qual nos veio enriquecer (cf. 2Cor 8,9), implica a renúncia ao uso egoísta dos bens, dons e capacidades que se possuem (riquezas, carismas, dotes, tempo, sensibilidade, habilidades), para os partilhar, pôr à disposição e ao serviço dos outros, em especial dos necessitados.
Tal pobreza não é facultativa, mas está no coração do Evangelho, sendo a porta de entrada no Reino (cf. 19,23-26). Porque só os pobres em espírito aceitam receber, como as crianças (cf. 11,25s; 18,3s), o que Deus lhes quer dar, como e quando quiser, estando assim abertos e dispostos a acolher o Seu Reino.
Eles são “pobres em espírito”, no sentido do dativo instrumental (gr. en pneumati: “no” ou “pelo” Espírito) porque só é capaz de viver esta pobreza com alegria quem foi regenerado por Deus e repleto do seu Espírito (cf. 1Jo 5,1.4).
Porque será tão importante a pobreza em espírito para entrar no Reino de Deus? Porque o rico dá coisas, do que lhe sobra, ao passo que o pobre, que nada tem, nada tendo para dar, dá-se a si mesmo (cf. 1Rs 17,12-15; Mc 12,42s).
A promessa feita aos pobres em espírito é que “deles é o Reino dos céus” (v. 10; cf. 18,3s; 23,8-12; Mc 10,14; Lc 18,16s; Tg 2,5). No AT, Deus tinha prometido que “Ele (= o Rei Messias: Targ Ps 72,1) julgará o teu povo com justiça e os teus pobres com retidão” (Is 72,2); e que o Ungido pelo Espírito Santo “julgará os pobres (he. dalîm) com retidão e arguirá com equidade os pobres (he. ‘anawin) da terra” (Is 11,4). Jesus declara aqui, enquanto Messias, nesta bem-aventurança, que é a primeira, qual é a sua sentença sobre estes pobres: “deles é o Reino dos céus”!
O verbo “ser” está no presente, indicando que os pobres de espírito já possuem o Reino. Isto só é possível, na fase pré-pascal em que fala, se se entender que é em Jesus, o Emmanuel (1,23), que o Reino se torna presente.
Na situação, porém, em que Mateus escreve, depois de Jesus ter realizado a obra da salvação, significa que esta promessa (tal como as restantes bem-aventuranças) se realizará em virtude do Espírito Santo que Ele, ressuscitado, enviará aos seus discípulos, para permanecer sempre com eles, até ao fim dos tempos (28,20), estabelecendo neles o Seu Reino e deles fazendo a Sua morada (cf. Ez 37,14; Lc 17,21; Rm 14,17; Cl 1,27). É desta forma que Jesus já começa a dar o Reino àqueles que o acolhem e nele creem, fazendo-os entrar nele, dando-lho já a saborear (1Pd 2,3; Sl 34,9; cf. Sl 36,8; 63,6; 119,103; Ct 2,3; Hb 6,4s) e fazendo-os participar na sua alegria, enquanto aguardam a posse plena dele, na bem-aventurança eterna, na glória celeste.
A primeira bem-aventurança aponta assim, logo desde o início do Sermão da Montanha, para a realização escatológica das promessas de Deus, na plenitude final, advinda da comunhão com Deus, a qual já começa aqui, na terra, em e por Jesus Cristo, como tinha sido prometido: “Naquele dia, os surdos ouvirão as palavras do Livro e, libertos da escuridão e das trevas, os olhos dos cegos verão. Os pobres alegrar-se-ão cada vez mais no Senhor e os indigentes entre os homens exultarão no Santo de Israel” (Is 29,18ss).
- v. 4. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
v. 4: Lc 6,21b.
A segunda bem-aventurança é um desdobramento da primeira. Enquanto a primeira refere a atitude do pobre diante de Deus, nesta destaca-se mais o seu estado de espírito interior. Nela constata-se uma alusão ainda mais clara a Is 61,1-6 do que na anterior. Jesus diz que “os que choram” (gr. oi penthountes) serão consolados” (gr. paraklêthêsontai, passivo divino), e em Is 61,2 LXX diz-se que o Ungido pelo Espírito (o Messias: Is 61,1), veio “para consolar (gr. parakalésai) todos os que choram (gr. toús penthoúntas)”, acrescentando no versículo seguinte: “para dar aos que choram (gr. penthousin) em Sião glória em vez de cinza, o óleo da alegria aos que choram (gr. penthousin), um manto de glória em vez de um espírito abatido” (Is 61,3 LXX).
Deus não tem prazer no sofrimento do homem, nem é Ele que envia desventuras e tribulações. Nos profetas, “os que choram” são os que foram despojados de tudo, que sofrem injustiças, prepotências e humilhações (cf. Is 61,7). São também os que choram porque veem os outros sofrer (cf. Sl 35,14; Rm 12,15); os que choram porque aguardam a resposta de Deus, que, por vezes, parece tardar (cf. Jr 14,17; Lc 18,7).
Especialmente aqui visados são, segundo a conceção rabínica, “os pobres em espírito” (v. 3) que “se arrependem” (3,2; 4,17) e fazem penitência, a fim de acolher o Messias e receber o Reino de Deus (cf. jTaan 1,1.63d).
Uma das missões do Messias, segundo os rabinos, seria a de ser o “Consolador” (he. Mênachem: Is 51,12) destes “pobres em espírito” que fazem penitência e choram por causa dos seus próprios pecados (cf. Is 57,18; Jr 50,4; Lm 1,9.15; Br 1,5) e dos pecados do seu povo, pois sabem que foi o pecado que provocou a sua ruína e humilhação (cf. Sl 137,1; Ne 1,4; Is 22,4; Jr 9,1; 13,17; Jl 2,17; Tb 13,14; Lc 19,41-44).
Os que choram são também os que anunciam a Palavra, incompreendidos, passando por dificuldades, enfrentando adversidades e sofrendo perseguições, sabendo que “é necessário passar por muitas tribulações para entrar no Reino de Deus” (At 14,22; cf. Rm 8,35s; 2Cor 1,3-6.8; 8,2; 1Ts 1,6; 3,3s).
A promessa é que “eles serão consolados” pelo próprio Deus (cf. Sl 71,21; 86,17; 126,5-6; Is 12,1-6; 35,3-4; 40,1; 41,10-14; 49,13; 51,3.12; 52,9; 57,15-19; 60,1-3; 61,2-3; 62,1-12; 66,10-14; Zc 1,17; Tb 13,16; 2 Cor 1,3-7; 2 Ts 2,16s) que Se dará Ele mesmo a eles por meio de Jesus Cristo, seu Filho, na graça do Espírito Santo (cf. Is 61,1-3; 40,1-2; Sir 48,24).
- v. 5. Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
A terceira bem-aventurança é praticamente uma citação do Sl 37,11 LXX: “os mansos herdarão a terra”. “Manso” (gr. praús) é o outro termo grego que nos LXX traduz o hebraico anaw (pl. anawin: v. 3) ou o seu sinónimo ‘aniy, significando ambos “pobre”, “humilde”, “aflito”, como atesta o profeta Sofonias na passagem já citada no v. 3: "Deixarei no meio de ti um povo pobre (gr. praús, "manso") e humilde (gr. tapeinós); e eles confiarão no nome do Senhor" (Sf 3,12).
Desta forma, as três primeiras bem-aventuranças estão ligadas pelo termo hebraico anaw ("pobre"), sendo, por isso, sinónimas. Enquanto que na primeira bem-aventurança se ressalta a atitude do pobre diante de Deus, na segunda sublinha-se o seu estado interior, ao passo que na terceira bem-aventurança se destaca a sua atitude em relação aos outros.
Quem são “os mansos”? São os brandos, os dóceis, os pobres em espírito, os humildes para consigo mesmos (Sir 10,28) e para com os outros (Sir 3,17; 4,8; 1Pd 3,4s). São os que foram privados dos seus direitos e dos seus bens, que são oprimidos e que, embora sem se resignar, suportam a injustiça, sem se deixar levar, pela ira, não guardando ressentimento, nem cultivando sentimentos de ódio ou de vingança, nem pagando o mal com o mal (cf. 5,39-42; Rm 12,17-21; 1 Cor 13,4s; 1Ts 5,15; 1Pd 3,8s), mas construindo a paz (NuRab 11,7), porque só esperam no Senhor e só nele confiam (Sf 3,12).
Esta mansidão, fruto do Espírito Santo (Gl 5,23), era a grande virtude de Moisés (Nm 12,3; Sr 45,4), devendo ser uma das notas do Messias (Sl 45,5). É assim um dos traços fundamentais a) quer de Jesus (21,5; cf. 2Cor 10,1), “manso e humilde de coração” (11,29) – que a encarna num sentido mais radical e pleno que Moisés, humilhando-se “até à morte e morte de cruz” (Fl 2,8) –, b) como dos seus discípulos (Gl 6,1; Ef 4,2; Cl 3,12; 2Tm 2,25; Tt 3,2; Tg 3,16; 1Pd 3,16).
A promessa é que “eles herdarão a terra” (Sl 37,11; Is 61,7 LXX; Dt 4,38; Hen 5,7). Não “a terra” prometida a Abraão e à sua descendência (Gn 13,15) – porque então Jesus teria dito: “terão a sua parte na terra” –, mas “a terra”, com artigo, ou seja, não uma parte, mas toda a terra (cf. Rm 4,13), a verdadeira e definitiva “terra” prometida que é “o mundo futuro” (cf. 19,28; Lc 20,35; Is 30,8; 66,22), o Reino dos céus para onde eles caminham como estrangeiros e peregrinos (cf. Lv 25,23; 1 Cor 6,9 s; Gl 5,21; cf. Fl 3,20; Hb 11,10.14.16), o Deus vivo, que já começam a saborear cá, na terra (v. 3; 19,29), por meio de Jesus, graças ao Espírito (cf. 2Cor 1,22; 5,5; Ef 1,13-14).
- v. 6. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
v. 6: Lc 6,21a.
A quarta bem-aventurança evoca o Sl 107,5s.9: “Estavam famintos e sedentos, a vida já os abandonava. E na sua aflição gritaram ao Senhor e Ele livrou-os das suas angústias. Saciou a alma sedenta e encheu de bens a alma faminta”.
Jesus não fala aqui tanto da justiça humana, retributiva (do do ut des: “dou para que tu dês”: CIC, Dig. 2,14,7,2), nem apenas da justiça social, distributiva (reddere unicuique quod suum est, “dar a cada um o que é seu”: CIC, Inst. 1,1,1; STh 2-2, q.58, a.1, pr. – justiça esta, porém, que leva à falta de pão e de paz, fazendo que, enquanto poucos têm muito, a que chamam “seu”, a muitos falta o necessário para viver), mas da justiça de Deus, que “quer que todos os homens se salvem” (1Tm 2,4; cf. Is 56,1; 61,11; Jr 9,22s; 23,5s; Dn 7,22), e que a todos a estende (cf. Sl 145), sem fazer aceção de pessoas (cf. Dt 10,17; Jb 34,19; At 10,34; Rm 2,11; Ef 6,9; Cl 3,25; Tg 2,1.9; 1Pd 1,17).
No AT, "a justiça" é fundamentada na natureza de Deus, no Seu amor, caracterizando-se pela defesa dos mais débeis e a proteção dos oprimidos. Está sempre associada à equidade, à retidão e à integridade nas Suas relações com o homem e, consequente, às mesmas virtudes nas relações dos homens uns com os outros. Está intrinsecamente ligada à Sua aliança com o seu povo, exigindo o cumprimento da Lei, a denúncia da corrupção e a união da justiça com a graça e a misericórdia.
Deus é sempre justo em todas as suas ações e julgamentos. Ele é imparcial e perfeito, tratando todos com equidade; Ele não se limita a aplicar a justiça, mas personifica-a: “Ele é a Rocha, as suas obras são perfeitas e justos são todos os seus caminhos! Deus é fiel, sem iniquidade, Ele é justo e reto” (Dt 32,4). Deus é justo e reto não porque retribui conforme os méritos de cada um, mas porque, com o seu amor, “torna justos e retos” aqueles que são maus. Para o homem, a “justiça foi feita” quando o culpado foi punido; para Deus, a “justiça é feita” quando o pecador se torna justo, o pequeno é escutado, o necessitado é ajudado, o oprimido libertado.
A justiça de Deus chama o homem a agir com justiça na sua vida diária em relação ao próximo, adequando a sua vontade e comportamento à vontade de Deus (3,15), obedecendo-lhe (Dt 6,25) e tratando os outros com amor e equidade, defendendo os oprimidos e vivendo de acordo com os princípios de retidão que Ele ensinou (23,23; Lv 19,15; Sl 146,7; Jr 7,5ss; 1Jo 3,10).
A justiça de Deus realiza-se quando, no quadro da comunidade humana, concebida como um corpo harmónico, cada ser humano ocupa o seu lugar, nele tendo voz, valor, vez e vida, e nele contribuindo para o bem de todos, de modo que cada um dos outros tenha também voz, valor, vez e vida no seio da comunidade.
Neste sentido, “justiça de Deus” é, no AT, sinónimo de vontade de Deus, sendo justo aquele que a cumpre.
A palavra “justiça” (Mt, 7x: 3,15; 21,32, das quais 5x no Sermão da Montanha: vv.10.20; 6,1.33) aparece pela primeira vez na Escritura ligada à fé em Deus: “Abrão creu no Senhor e isso foi-lhe creditado como justiça” (Gn 15,6; cf. Rm 4,3; Tg 2,23; Sl 4,6), daí resultando que, crendo em Deus, Abraão viveu segundo a Sua vontade (cf. Gn 22,18), permitindo que a bênção de Deus se estendesse a todas as gentes (cf. Gn 18,18s; Sl 98,2; Jr 4,2).
É desta justiça que fala a quarta bem-aventurança, a justiça de que têm fome e sede aqueles “pobres em espírito”, que reconhecem que, por si mesmos, não são capazes de alcançar uma justiça que tenha valor diante de Deus (cf. v. 20), mas que, apesar disso, anseiam por ela, sabendo que ela é um dom que só Deus lhes pode conceder. Por isso, arrependem-se e pedem-na a Deus, esforçando-se cada dia por pôr em prática a Sua vontade na sua própria vida e esforçando-se por que ela se estenda e chegue a todos os homens, pondo em Deus toda a sua confiança. Trata-se, assim, não tanto da justiça humano, em sentido jurídico, mas da justiça de Deus que se obtém pela fé em Cristo, justificando, pelo Espírito, todo aquele que nele crê (cf. Lc 18,7-8; Rm 3,21-26; 1Cor 1,30; Fl 3,9; 2Pd 1,1).
Esta noção de justiça está em oposição à noção de justiça de Israel, que ele quis estabelecer por si mesmo, com a sua sabedoria e força, endurecendo-se no pecado: “Porque não conhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à justiça de Deus” (Rm 10,3).
Dar a conhecer a verdadeira justiça, a de Deus, e levá-la até aos confins da terra é a obra do Messias (cf. Is 9,6s; 45,8; 61,10; Jr 23,5-8; 33,15s), que, para o fazer, recebe a plenitude do Espírito Santo (Is 11,4s), a fim de purificar (cf. Is 4,4) e reconduzir o povo de Israel a Deus (cf. Zc 8,7s) e o apascentar com justiça (Ez 34,16), de modo a trazer também a justiça eterna à terra (cf. Dn 9,24), levando-a, sem desanimar, a todas as nações (cf. Is 42,6).
O que se veio a realizar em Cristo e por meio dele, através dos seus discípulos, que hão de levar a Boa nova até aos confins da terra. Por isso, esta quarta bem-aventurança, tal como a oitava ("os que são perseguidos por causa da justiça"), inclui o anúncio do Evangelho (cf. Rm 1,17).
“Bem-aventurados” são "os que têm fome e sede de justiça”. O verbo está no presente do indicativo: eles são bem-aventurados porque nunca deixam de ter fome e sede de justiça, uma vez que: a) estão num contínuo processo de conversão, procurando progredir nela e pondo-a em prática, sem se acomodar, nem desanimar ou desistir; b) desejando e tudo fazendo para que ela chegue a todos, como sabem ser a vontade de Deus.
Assim, quem recebe a justiça de Deus que vem pela fé em Cristo e a põe em prática, quanto mais recebe, tanto mais fome e sede dela tem, e quanto mais fome e sede dela tem, tanto mais a recebe e tanto mais se empenha na sua prática e na implementação da mesma entre os homens. Ele faz sua a própria sede e fome de justiça que Deus tem, a fome e sede de que se cumpra a sua vontade, ou seja, que a salvação chegue a todos e reine em toda a terra!
A promessa é que, quem tem tal fome e sede de justiça, preferindo a justiça de Deus que vem pela fé (cf. Gl 2,16; Rm 3,21s; Fl 3,9; Hb 11,7), à sua própria justiça e à justiça das suas obras (cf. 2Pd 1,1), trabalhando pelo bem e a salvação dos homens (cf. Is 26,9; 45,8; Am 8,11s) “será saciado” com a única coisa que realmente é capaz de saciar o coração humano: fazer a vontade de Deus, repleto da justiça, paz, amor e alegria de Deus, que lhe vêm do Espírito Santo (cf. Sl 63,2.6; 107,9; Is 12,3; 41,18; 44,3; 51,1-8; 55,1ss; Jo 4,10; Rm 14,17; Gl 5,22), em união com Cristo (cf. Jo 6,35), na expectativa da visão de Deus, que lhes saciará todos os seus desejos e ânsia (cf. Sl 36,9-10; 42,3; Ap 7,15-16; 21,6; 22,17) de justiça: “nós aguardamos, segundo a sua promessa, novos céus e nova terra, em que habita a justiça” (2Pd 3,13).
- v. 7. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
A quinta bem-aventurança está no centro e é o coração das bem-aventuranças. Com ela começa a segunda parte das bem-aventuranças, em que se atenta mais ao comportamento cristão, propondo-se as atitudes, os gestos próprios e as ações dos discípulos de Cristo.
A primeira delas é a misericórdia que, no NT, é sinónimo do amor e da justiça: “Já te foi dito, ó homem, o que é bom, o que o Senhor te pede: nada mais do que praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com o teu Deus" (Mq 6,8). De facto, a forma através da qual se põe em prática a justiça e o amor de Deus, de acordo com a Sua vontade, é a misericórdia (cf. v. 48), como Jesus declara: “Ide, pois, e aprendei o que significa: Misericórdia eu quero, e não sacrifício. Com efeito, eu não vim chamar justos mas pecadores” (9,13; cf. 23,23; Os 6,6).
A misericórdia de que aqui se fala não se refere apenas à filantropia de quem distribui esmolas – embora passe obrigatoriamente por ajudar os necessitados (6,1-4) –, mas sobretudo à imitação de Deus, que tem entranhas de misericórdia para com aqueles que sofrem (cf. Ex 34,6s).
Na Sagrada Escritura, a misericórdia, mais do que um sentimento de compaixão e piedade, é uma ação em favor do necessitado que precisa de ajuda (cf. Ex 22,26; Sl 112,4; Lc 1,54.72). “Ser misericordioso” é ter um coração que vê a miséria do outro e age para o acudir na sua necessidade e diminuir a sua dor: “o que tem misericórdia dos pobres é bem-aventurado” (Pv 14,21; bShab 151b.12-14). O melhor exemplo é o do bom samaritano que viu o homem agredido pelos bandidos e usou de misericórdia para com ele (cf. Lc 10,37).
"Bem-aventurado" é aquele que, imitando a misericórdia de Deus (cf. Lc 6,36), perdoa as ofensas (18,33) e faz o bem, mesmo aos inimigos, aos injustos e ingratos para com ele (cf. 5,45-48; Lc 6,35-38).
A promessa é que “estes alcançarão misericórdia” (Pv 17,5 LXX) por ocasião do juízo final, no último dia (Tg 2,13; 1Pd 2,10; 1Tm 1,13.16; cf. Sl 37,26), sendo-lhes redimidas todas as faltas (cf. 1Pd 4,8; Pv 10,12) e oferecida a entrada no Reino que lhes “está preparado desde a fundação do mundo” (25,34).
- v. 8. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
A sexta bem-aventurança vem em continuidade das anteriores, supondo a pobreza em espírito daqueles que se esquecem de si; o arrependimento dos que choram; a mansidão dos que não guardam ressentimento; o desejo dos que têm fome e sede da justiça de Deus; e da prática da misericórdia, que purifica de todo o pecado (cf. Lc 11,41; v. infra). O que também acontece com a próxima bem-aventurança.
“Puros (ou limpos) de coração” (Sl 24,4; 73,1; 1Tm 1,5; 2Tm 2,22; Gn 20,5 LXX) são aqueles que procedem com intenção sincera, reta e leal, sem maldade (cf. 15,17-20; 23,25s; Is 1,16.25), duplicidade ou segundas intenções (cf. Tg 4,8), com a finalidade de enganar os outros, mas com um coração de criança (18,3s) e simplicidade (cf. Gn 20,5; Sl 24,3s; Pv 22,11), esquecendo-se de si mesmos, procuram ter uma atitude e um comportamento em tudo conformes à vontade de Deus, vivendo na esperança de um dia se tornarem semelhantes a Ele, no amor (1Jo 3,3).
Alimentam-se da Palavra de Cristo (cf. Jo 13,10s; 15,3) e rejeitam os ídolos (cf. Ez 36,25) – inclusive o da desobediência (cf. 1Sm 15,23) e o do dinheiro (cf. Cl 3,5) –, para não terem dois senhores (cf. 6,24; Lc 16,13) e amarem a Deus sem desvios (1Cor 7,35). São também os que não julgam (cf. 7,1-2; Lc 7,37s; Rm 2,1ss; Tg 4,11), que, sem guardar ressentimento, perdoam de todo o coração (6,12.14-15; 18,22.35; Ef 4,32; Cl 3,13), para amar, com boa consciência, sem hipocrisia e com sinceridade, os outros (1Tm 1,5; 1Pd 1,22).
"Puros de coração" são ainda os que partilham com os pobres o que possuem (Lc 11,41), fazendo o bem, sem aceção de pessoas (Tt 1,15), vivendo, quanto deles depende, em paz com todos (Rm 12,18; 2Cor 3,11).
Porque pobres em espírito, sabem que o coração puro é um dom de Deus (Jr 31,33-34; 33,8; Ez 36,25-29), “a cujos olhos nem o céu é puro” (Jb 15,15) e que “até nos seus anjos encontra defeitos” (Jb 4,18), reconhecem-se pecadores e arrependem-se cada dia para, perdoados por Deus (cf. 1Jo 1,9), viver, como novas criaturas, na Sua presença, animados pelo Seu Espírito, determinados em fazer em tudo a vontade dele (Sl 51,10-11.4), através da prática das boas obras (Tt 2,14).
A promessa é que eles "verão a Deus” (Ap 22,4; Hb 12,14), ou seja, “verão”, nesta terra, o Reino de Deus (cf. Jo 3,3) e o Seu amor em ação (cf. 1Jo 3,1ss; Ex 34,6s), reconhecendo a Deus na pessoa dos irmãos, em especial dos mais pequenos e necessitados (cf. 25,34-40), enquanto esperam contemplar a face de Deus (cf. Ex 33,20-23; Sl 42,3), na visão clara do seu rosto, no céu (cf. 18,10; Jo 1,18; 5,37; 2Cor 5,7).
- v. 9. Bem-aventurados os artífices da paz, porque serão chamados filhos de Deus.
Na Sagrada Escritura, a “paz” (he. shalom) não é a mera ausência de guerra; indica a harmonia com Deus, com os outros, consigo mesmo e com a própria criação (cf. Is 11,1-9); implica a justiça, a boa convivência entre os homens e as nações, a casa, o trabalho, a prosperidade, a saúde, a educação e a alegria do estar juntos, numa palavra: o bem-estar total.
Os profetas, em particular, anunciam a paz como dom de Deus, a paz messiânica, consoladora, plenitude dos bens prometidos por Deus, que há de reinar na terra por meio do Messias, graças ao dom do Espírito Santo (Mq 5,5; Is 9,5s; 11,1-12,6; 52,7; 53,5; 57,19; 66,12; Rm 14,17; Gl 5,22; Fl 4,7).
Paz bem diferente da paz terrena (10,34), paz que Jesus traz (Lc 2,14; 19,38.42), anuncia por meio do Evangelho (Jo 16,33; At 10,36; Ef 2,17) e que, através da Sua morte (Ef 2,14) e ressurreição, instaura com toda a criação (Cl 1,20) e dá aos seus discípulos (cf. Lc 24,36; Jo 14,27; 20,19.21.26; 2Ts 3,16), para que nela vivam (cf. 1Pd 3,11; Sl 34,15) e a anunciem (10,13; Ef 6,15). Paz que brota dum coração puro (2Tm 2,22) que conhece a Deus (cf. 2Pd 1,2; Tg 3,17) e que se traduz na comunhão com Deus e com os irmãos por meio de Cristo (Rm 5,1; Ef 6,15; Cl 1,20).
“Artífices da paz” (“pacificadores”, “construtores da paz” ou “promotores da paz”: Pv 10,10 LXX; Tg 3,18) são os que, como Cristo, nossa paz (Cl 1,20), vivem em paz uns com os outros (Rm 14,18), se empenham e contribuem para que essa paz seja cada vez mais possível no interior das suas comunidades (Rm 14,19; 1Cor 7,15; 2Cor 13,11; Ef 4,3; Cl 3,15) e para cada homem, acudindo aos necessitados com os seus bens (Tg 2,16).
“Bem-aventurados” são os que constroem a paz sem recorrer à opressão, à violência, à coação ou ao uso das armas, esforçando-se por pôr fim às guerras e aos conflitos; são os que procuram levar os contendedores ao diálogo, os inimigos à reconciliação; são os que perdoam de coração, os que fazem o bem a quem lhes fez mal (Rm 12,17-21), os que, em vez de procurar o seu próprio interesse, fomentam a concórdia e constroem a comunhão fraterna (cf. Ef 4,3); são os que amam os inimigos e oram pelos que os perseguem (v. 44).
A promessa é que eles “serão chamados filhos de Deus” (Os 2,1; cf. Mt 5,45; Lc 6,35; Rm 9,26; Ef 5,1), “o Deus da paz” (Rm 15,33; 16,20; 1Cor 14,33; Fl 4,9; 1Ts 5,23; Hb 13,20), tal como Cristo, nossa paz (Ef 2,14, Mq 5,4; Is 9,6), cujas obras imitam, progredindo na santidade, a fim de viver com Ele na plenitude do Seu reino (Hb 12,14), participando da sua ressurreição (cf. Lc 20,35s).
- v. 10. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa justiça, porque deles é o reino dos Céus.
v. 10: cf. 1Pd 3,14.
O paradoxo das bem-aventuranças, como dom de Deus, que, por meio de Cristo, torna os discípulos participantes da vida futura, atinge o seu ponto mais alto na oitava e nona bem-aventuranças, onde não só os pobres e os oprimidos são declarados “bem-aventurados”, mas também aqueles que estão a experimentar uma efetiva perseguição, precisamente por causa da sua retidão, ou seja, por causa da justiça que praticam e na qual procuram progredir, empenhando-se na promoção da paz, como Jesus diz nas bem-aventuranças anteriores, onde aponta “o caminho da (nova) justiça” do Reino (v. 20; 21,32).
O tema das perseguições é particularmente importante em Mateus (7x; gr. diôkô, “perseguir”, 6x: vv. 11.12.44; 10,23; 13,21; 23,34; diôgmós, “perseguição”: 13,21), refletindo muito provavelmente a situação das comunidades para quem ele escreve o Evangelho. Comunidades estas compostas por numerosos judeo-cristãos, que saíram da Judeia e de Jerusalém, aquando a vinda das tropas romanas comandadas por Tito, no ano 67 d.C., obedecendo à palavra de Jesus (24,15-18; Lc 21,20-21), judeo-cristãos estes muito preocupados, tal como os judeus do seu tempo, com o tema da retribuição divina.
Mateus mostra-lhes nestes dois versículos, que eles não se devem alarmar com tal situação (cf. 1Pd 4,12-14), assegurando-lhes que a sua recompensa junto de Deus é grande.
Nesta bem-aventurança, Jesus refere-se à justiça em geral, ou seja, à retidão das relações do homem com Deus e com os seus semelhantes (cf. v. 6), embora não exclua os que são perseguidos por causa da justiça de Deus, no sentido da justiça que se alcança de Deus por meio da fé em Cristo. Mas a complementação desta bem-aventurança com a próxima, leva-nos a não restringir o seu horizonte apenas aos discípulos de Jesus, uma vez que Ele em todas estas primeiras oito bem-aventuranças se está a dirigir a uma multidão composta por todo o tipo de pessoas, das mais diversas proveniências (cf. v. 1).
Não é por acaso que Jesus refere a perseguição pela justiça só depois de ter falado do empenho pela construção da paz, ligando assim os dois temas um ao outro. Certamente visados por esta bem-aventurança são “o justo que é pobre” (Sb 2,10), as criancinhas inocentes que foram mandadas matar por Herodes (2,16), bem como os profetas, a que se refere no v. 12, entre eles, de modo particular, João Batista, que “veio no caminho da justiça” (21,32), foi preso (11,2) “e lhe fizeram tudo o que quiseram” (17,12), matando-o por ordem de Herodes Antipas (14,10).
Jesus não ilude os seus ouvintes, nem ninguém, dizendo claramente que quem alinha do lado da justiça, se empenha no restabelecimento da paz entre os homens e se esforça por levar a Boa-nova da salvação a todos, sofrerá perseguições (cf. 13,21; Mc 10,30; Lc 11,49; 21,12; 2Tm 3,12), tal como Ele (cf. 10,24-28; Jo 15,20; 1Ts 2,15), acabando por pagar na própria vida, e mesmo com a própria vida, o preço do bem e da felicidade dos outros.
A promessa é: “porque deles é o Reino dos céus", promessa que repete a do v. 3, formando uma inclusão semítica, indicando que aqui se concluem as bem-aventuranças dirigidas a todos os homens, as quais dão a contemplar, manifestam a presença, mostram a entrada, apontam o caminho e ensinam a viver no Reino dos céus já sobre esta terra.
- v. 11. Bem-aventurados sois, quando, por causa de mim, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem toda a espécie de mal contra vós.
v. 11: Lc 6,22.
A terminar, Jesus acrescenta uma última bem-aventurança, a nona, que é o desdobramento da anterior e a síntese de todas as outras. Nela torna-se patente o que já estava implícito nas bem-aventuranças anteriores: que se supõe já a época pós-pascal, assinalada pelo banho de regeneração, o batismo, e o derramamento do Espírito (cf. 19,28; 3,11).
Nesta última bem-aventurança, que recapitula as bem-aventuranças anteriores, Jesus passa da terceira pessoa do plural, usada até aqui, para a segunda pessoa do plural, dirigindo-se diretamente aos seus discípulos, indicando, deste modo, que todas as bem-aventuranças até agora enunciadas, lhes dizem particularmente respeito.
O tema das perseguições por causa da justiça e da fé já estava presente no AT, sobretudo na vida dos profetas e nos escritos mais recentes, como nos livros dos Macabeus (passim) e no livro da Sabedora (cf. Sb 2,10-20; 3,1-9). É um tema bem presente no livro de Daniel (de quem Mateus é o único autor do NT a mencionar o nome: 24,15), onde, depois de se falar no “Filho do homem”, se fala dos “santos” contra os quais "o chifre mais pequeno" (Antíoco IV Epífanes) “movia guerra, prevalecendo contra eles” (Dn 7,21) e em cujas mãos eles “serão entregues” (Dn 7,25), falando-se depois do “tempo do fim”, que se caracterizará pela perseguição dos sábios, dos justos e do povo de Deus (Dn 8,10; 11,33.35; 12,10).
Jesus adverte desta forma os seus discípulos que o tempo do fim já chegou! Tal como o Messias, seu Mestre (cf. Dn 9,26; Jo 15,20), eles serão flagelados, odiados por todos, até pelos próprios familiares (10,21); serão rejeitados e perseguidos (cf. 10,17-18; Mc 10,30; 13,13; 21,12.16s; At 9,16; 14,22; 2Tm 3,12), por causa do Seu nome (10,22-23; 24,9), vindo alguns mesmo a ser crucificados e mortos (23,34; 24,9-10).
Num mundo construído e organizado a partir do egoísmo, do poder, dos interesses pessoais e dos interesses de fações e de grupos, aqueles que desejam viver verdadeira e coerentemente de acordo com o amor desinteressado de Cristo, serão insultados, perseguidos, ridicularizados e difamados (cf. Is 51,7; At 8,1; 13,50; Rm 8,35; 2Cor 4,9), podendo chegar a pagar com a própria vida o seu empenho, porque os opressores, dando-se conta de que a ação livre e desinteressada dos discípulos ameaça a sua posição, desmascara as suas mentiras e põe a descoberto as suas faltas e manobras injustas, procurarão silenciá-los, rejeitando-os, agredindo-os violentamente e eliminando-os.
- v. 12. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa. Pois foi assim que perseguiram os profetas que vieram antes de vós”.
v. 12: Lc 6,23.
Ao convite do v. 11, Jesus apõe a respetiva promessa: “é grande nos céus a vossa recompensa” (cf. Gn 15,1; 2Cor 4,17; Hb 10,35; cf. Sr 2,8). O verbo está no presente do indicativo ("é") – e não no futuro, como traduzem muitas versões –, dando a entender, por um lado, que, quando Mateus escreve o Evangelho, os cristãos já estão efetivamente a ser perseguidos; e, por outro, que os que são perseguidos por Cristo já recebem aqui na terra a "grande" recompensa que é o próprio Deus (cf. Is 62,11; 49,4) que neles habita (cf. 1Pd 4,14), mas que só Se lhes dará plenamente nos céu, a fim de gozarem com Ele a glória eterna.
As perseguições que os discípulos de Jesus sofrem não são, pois, um castigo, uma derrota ou um desastre, mas um sinal de sucesso, sendo mesmo motivo de uma intensa alegria, sobrenatural (cf. 1Pd 3,14; Ap 19,7; cf. At 5,41; 2Cor 12,10; Fl 1,29; Cl 1,24; Hb 10,34; Tg 1,2), porque atestam que eles fizeram a escolha certa, que os põe do lado de Deus, identificando-os com Jesus.
Os discípulos de Jesus são, desta forma, os continuadores dos profetas do AT, que foram perseguidos (cf. At 7,52; Hb 11,33-38; Tg 5,10s), mas serviram sempre a Deus da forma mais desinteressada, não estando à espera de vantagens ou de recompensas pessoais, mas apenas por amor a Ele e aos homens (cf. 2Rs 5,15s), confiando sempre em Deus e permanecendo junto do povo, sem nada mais querer, e não tendo outra recompensa que a de fazer a vontade de Deus, pondo-se ao serviço da salvação dos homens.
De facto, os profetas são a única categoria de pessoas na Sagrada Escritura que servem a Deus e permanecem junto do povo, sem qualquer recompensa por parte dos homens e sem Deus nunca lhes prometer e, muitas vezes, até sem lhes dar qualquer recompensa. Mesmo a Abraão e aos patriarcas, a David e aos outros justos do AT, Deus sempre lhes prometeu algo, não raro muito grande. Aos profetas, porém, não: a estes, Deus irrompia na sua vida, atravessava-se no seu caminho, chamava-os, impunha-se à sua vontade, mesmo quando eles resistiam, e enviava-os, mandando-os fazer e dizer o que Ele queria, e eles obedeciam, sofrendo muitas vezes as consequências disso.
Os profetas, porém, nunca desistiram: nem de Deus, nem dos homens, a quem eram enviados. O seu serviço e o seu amor a Deus foram gratuitos. É este amor desinteressado, obediência incondicional a Deus, fidelidade irremovível aos homens, que Jesus espera dos seus discípulos, os quais são, em definitivo, o único amor e a única atitude que faz com que eles possam ser, e realmente sejam, bem-aventurados!
A Boa-nova pregada por Jesus abre-se assim no Sermão da Montanha com um impressionante e insistente apelo dirigido a todos os homens à plenitude da alegria e da felicidade, alegria felicidade verdadeiras que vêm de Deus e dele são. Ou seja: abre-se com o anúncio da bem-aventurança eterna, que já podem começar a saborear aqui sobre a terra aqueles que aderem com fé à palavra de Jesus e seguem com confiança o Seu caminho. Caminho este que os leva a partilhar a sua vida e a identificar-se com os últimos dos homens, precisamente com aqueles que o mundo rejeita e que nenhuma religião ou ser humano achariam alguma vez ser possível serem felizes. Mas é precisamente aí, nas situações difíceis em que eles vivem, que desabrocha a verdadeira sabedoria, que irrompe a mais genuína felicidade, porque é aí que Deus está presente, é aí que se encontra Jesus e é por aí que passam os Seus caminhos.
Jesus é a bem-aventurança eterna dos seus discípulos, como já dissera Maria, Sua Mãe, o maior exemplo da vivência das bem-aventuranças depois dele, ao exclamar profeticamente: "o meu espírito exulta de alegria, em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humildade da sua escrava" (Lc 1,47-18).
Ler o texto uma segunda vez... Em silêncio, escutar o que Deus diz no segredo...
2) MEDITAÇÃO… PARTILHA… (Que me diz Deus nesta Palavra?)
a) Que frase me toca mais? b) Que diz à minha vida? c) Oração em silêncio…
d) Partilha e) Que frase reter? f) Como a vou / vamos pôr em prática?
- É possível ser pobre e feliz ao mesmo tempo? Que tipo de felicidade buscam as pessoas do nosso tempo?
- Procure recordar os momentos em que se sentiu feliz na sua vida. A sua visão de felicidade é a mesma de Jesus? Como alcançá-la?
- Com que bem-aventurança se identifica mais? E menos?
- Como viveu Jesus as bem-aventuranças? Como as vivo eu no meu dia-a-dia? De que maneira Maria pode inspirar-me a fazê-lo?
3) ORAÇÃO PESSOAL… (Que me faz esta Palavra dizer a Deus?)
4) CONTEMPLAÇÃO… (Saborear a Palavra em Deus, deixando que ela inflame o coração)
Salmo responsorial Sl 24, 1-6 (R. cf. 6)
Refrão: Esta é a geração dos que procuram a vossa face, Senhor.
Do Senhor é a terra e o que nela existe,
o mundo e quantos nele habitam.
Ele a fundou sobre os mares
e a consolidou sobre as águas. R.
Quem poderá subir à montanha do Senhor?
Quem habitará no seu santuário?
O que tem as mãos inocentes e o coração puro,
o que não invocou o seu nome em vão. R.
Este será abençoado pelo Senhor
e recompensado por Deus, seu Salvador.
Esta é a geração dos que O procuram,
que procuram a face de Deus. R.
Pai-nosso…
Oração conclusiva:
Deus todo-poderoso e eterno, que nos concedeis a graça de honrar, numa única solenidade os méritos de todos os vossos santos, dignai-vos derramar sobre nós, em atenção a tão numerosos intercessores, a desejada abundância da vossa misericórdia. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. T. Amen.
Ave-Maria...
Bênção final. Despedida.
5) AÇÃO... (Caminhar à luz da Palavra, encarnando-a e testemunhando-a na nossa vida)
PB (para sugestões, perguntas ou correções, contactar, p.f.,
Fonte da imagem: https://ocantonaliturgia.pt/sugestoes/101/1-de-Novembro-%7C-Solenidade-de-Todos-os-Santos