Tema: “O puríssimo Coração de Maria, caminho de santidade”
Dia 3 –"Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados” (Mt 5,4)
Meditação. A segunda bem-aventurança é um desdobramento da anterior. Enquanto na primeira se refere a atitude do homem diante de Deus, “ser pobre em espírito” (ou “no Espírito”), nesta destaca-se o seu estado de espírito interior. Ambas se remetem diretamente a Is 61,1-3: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu. Enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres, a curar os de coração despedaçado, a proclamar a liberdade aos cativos e aos prisioneiros, a libertação, a promulgar um ano da graça da parte do Senhor […], a consolar todos os enlutados, a levar aos enlutados de Sião um diadema em vez de cinza, o óleo da alegria em vez de luto, trajes de júbilo em vez de um espírito abatido”.
“O mundo propõe-nos o contrário: o entretenimento, o prazer, a distração, o divertimento. E diz-nos que isto é que torna a vida boa. O mundano ignora, olha para o lado, quando há problemas de doença ou aflições na família ou ao seu redor. O mundo não quer chorar: prefere ignorar as situações dolorosas, cobri-las, escondê-las,… julgando que é possível dissimular a realidade, onde nunca, nunca, pode faltar a cruz” (AE 75).
Nós sabemos que Deus não tem prazer no sofrimento do homem, nem é Ele que nos envia desventuras e tribulações. Mas já no Antigo Testamento não se ignora e os profetas chamavam a atenção para “os que choram”, aqueles que não têm casa para habitar, campos para cultivar, os que são obrigados a servir senhores sem escrúpulos, os que sofrem injustiças, prepotências e humilhações.
Estes são também os que choram porque veem os outros chorar, os que choram por causa dos seus próprios pecados e dos pecados da humanidade, pois sabem que são estes que fazem sobrevir os males sobre a sociedade, sendo os mais pequenos, os mais fracos e desprotegidos os que mais por eles são atingidos.
São ainda os que anunciam a Palavra de Deus, sofrendo a incompreensão alheia, passando por dificuldades, enfrentando adversidades. Mas só os que choram com o mesmo coração de Jesus são capazes de “chorar com os que choram” (Rm 12,15), ou seja, de atingir a verdade, porque pisam o chão nu e cru da realidade.
Jesus também chorou: chorou pela morte de Lázaro (Jo 11,35) e chorou pela ruína de Jerusalém (Lc 19,41).
Jesus promete aos que assim choram, com uma tristeza segundo Deus, que serão consolados por Ele: “porque a tristeza segundo Deus opera o arrependimento que leva à salvação; mas a tristeza do mundo opera a morte” (2Cor 7,10). Estes são capazes depois capazes de consolar os que choram, com a mesma consolação que recebem de Deus (2Cor 1,4).
É na linha desta bem-aventurança que S. Teresinha do Menino Jesus confidencia: “Se às vezes choro algumas lágrimas, a minha alegria é escondê-las bem. Oh, como a dor tem encantos quando com flores a sabemos ocultar. Quero sofrer sem o mostrar, para que Jesus seja consolado. A minha alegria é vê-lo sorrir, quando o meu coração está exilado” (P 5,5).
Maria, durante a sua vida, teve de passar por inúmeras dores: a fuga para o Egito; a perda de Jesus no Templo; o Calvário; o silêncio do sábado santo. O puríssimo, o Imaculado Coração de Maria, é também, como profetizara Simeão, um coração traspassado pela dor. A piedade popular, representa-o traspassado por sete espadas de dor. O sofrimento, porém, mesmo o mais atroz, nunca afastou o seu coração de Deus, nem a fez duvidar do Seu amor de Pai; antes, “esperando contra toda a esperança” (Rm 4,18), ela foi a única que perseverou na fé, tendo merecido receber do seu próprio Filho, ressuscitado e glorioso, a mais abundante consolação.
Maria ensina-nos assim transformar a dor em oração; ela mostra-nos que o sofrimento unido a Cristo produz a esperança. Deus não elimina a dor, mas consola aqueles que sofrem unidos a Ele. Para isso, enviou sobre nós o Espírito Santo Consolador e nos deu a sua Mãe, que continua a interceder pelo povo de Deus que ainda chora e sofre na sua peregrinação rumo à pátria celeste, brilhando para ele “como sinal de esperança segura e de consolação” (LG 68).
Revisão de vida. Sinto-me abandonado por Deus, duvido dele ou revolto-me contra Ele quando chega o sofrimento, a adversidade, a contrariedade? Ou vejo nisso um incentivo a assemelhar-me mais a Jesus e a avançar para Ele?
Ação. Visitar a alguém que está a sofrer, não para me queixar das minhas dores e desabafar os meus problemas, mas para o consolar.
Oração. Obrigado, Pai, porque Tu nunca nos abandonas na dor, mas sempre nos tomas nos teus braços e levas no teu Coração. Tu quiseste que a Mãe do teu Filho estivesse com Ele, junto à cruz: faz que acolhamos este sinal do Teu amor e possamos experimentar a sua consolação. Por Cristo Nosso Senhor.
Maria, a tua dor foi a oferta de ti mesma, juntamente com a de Jesus, pela nossa salvação. As tuas lágrimas transformaram-se num dom para nós. Ajuda-nos a chorar também com aqueles que choram e a consolá-los com o mesmo amor com que tu foste consolada: o amor de teu Filho. Amen.
℣. Maria, Mãe do coração puro, mulher das Bem-aventuranças,
℟. Roga por nós, para que sigamos fielmente o teu Filho.