A noite escura

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Na nossa jornada de fé, há momentos em que somos conduzidos ao deserto. Algumas vezes caminhamos pelo deserto seguindo o chamamento de Deus ou encontramo-nos lá por força das circunstâncias. O deserto é árido e pode ser um lugar assustador. O que significa tudo isto? Podemos ser tentados a não caminhar para a frente porque sentimos que não vale a pena. Então Deus envia-nos um mensageiro (cf. 1Rs 19,4-7). Este mensageiro pode vir de todas as formas e tamanhos. Ele, ou ela, encoraja-nos a comer e a beber, pois a jornada é longa. Somos encorajados a comer o pão da vida e a beber da fonte do Carmelo, que é a tradição carmelita, que deu vida a muitas gerações antes de nós. Mas talvez estejamos muito deprimidos para nos darmos conta disto. Então o mensageiro de Deus toca-nos novamente e encoraja-nos a comer e a beber. É um grande desafio reconhecer o que Deus nos diz através da nossa vida diária bem como reconhecer a voz de Deus na voz, ou através da voz, de pessoas insignificantes.


A fé, esperança e amor, três virtudes cristãs essenciais, estão na origem da nossa jornada, sustentadas no que aprendemos com os outros. Ao continuarmos a jornada, as nossas razões humanas para acreditar, para esperar em Deus e para amar como Cristo mandou, começam a esgotar-se. Já não são suficientes. Podemos jogar tudo para o alto, porque a jornada é precária e o fim é incerto ou podemos também rejeitar o mensageiro e ficar exactamente onde estamos. Podemos ainda continuar a jornada dentro da noite (1Rs 19,4-7). Um elemento essencial na nossa jornada em direcção à transformação é a noite escura. Esta noite não é algo de sombrio ou impossível, mas é um convite para que nos libertemos do nosso modo humano e limitado de pensar, amar e agir para que possamos pensar, amar e agir de acordo com os desígnios de Deus (cf. Constituições dos Frades, 17).


S. João da Cruz oferece-nos descrições magistrais acerca dos diversos elementos que acontecem durante a noite e a compõem, e que não é igual para todos. A noite é experimentada pelas pessoas de modos diferentes e é realizada precisamente para ajudar a purificar cada um em particular. A noite escura não é uma punição pelo pecado ou pela infidelidade, mas é um sinal da proximidade de Deus. A noite escura é o trabalho de Deus e leva à completa libertação da pessoa humana. Por isso, ela deve ser acolhida apesar da dor e da confusão que envolve. A noite escura pode ser experimentada não apenas por indivíduos mas também por grupos e sociedades (cf. Lm 3,1-24).


A jornada de transformação geralmente dura muito tempo porque a purificação e a mudança que acontecem no ser humano são profundas. Não se trata apenas de uma mudança de ideias ou de opiniões. Trata-se de uma completa transformação do modo de nos relacionarmos com o mundo que nos rodeia, com as outras pessoas e com Deus. Os índios americanos têm um ditado que diz que temos de caminhar uma milha no sapato do outro antes de compreendê-lo. Jesus advertiu os seus seguidores para não julgarem (Lc 6,37; Rm 14,3-4) e a razão é muito simples: não podemos ver as coisas a partir do ponto de vista de outra pessoa e, portanto, não conhecemos os motivos que estão por trás das suas acções. Contudo, o processo de transformação cristã leva o ser humano em direcção a uma profunda mudança de perspectiva, do seu próprio modo de ver as coisas para o modo de Deus as ver. Isto envolve uma profunda purificação e esvaziamento de tudo o que nos prende para que possamos ser preenchidos por Deus.


Esta jornada contemplativa, tanto ao nível pessoal como comunitário, purifica os nossos corações de modo que tenhamos dentro do coração um espaço real para os outros e possamos ouvir o clamor dos pobres, sem traduzi-lo pelo filtro das nossas próprias necessidades. Então seremos capazes de realizar o desafio formulado pelo Papa João Paulo II: “Homens e mulheres consagrados são enviados a proclamar, através do testemunho das suas vidas, o valor da fraternidade cristã e do poder transformador da Boa Nova, que torna possível ver todas as pessoas como filhos e filhas de Deus e inspira um amor auto-oblativo para todos, especialmente os menores dos nossos irmãos e irmãs” (VC 51).


Joseph Chalmers, O. Carm.

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