Nuno Álvares Pereira e os Carmelitas

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A Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, vulgarmente conhecida por Ordem Carmelita, na qual Nuno ingressou adoptando o nome de Frei Nuno de Santa Maria, nasceu oficialmente no Monte Carmelo no século XIII mas já antes, no século XII, cavaleiros cruzados e peregrinos penitentes, juntaram-se aí, junto à fonte de Elias, vivendo uma vida de seguimento de Cristo no espírito do profetas Elias e da Virgem Maria.

Os Carmelitas estabeleceram-se em Portugal em meados do século XIV com um convento em Moura, no Alentejo. Pereira de Sant'Anna, na Crónica dos carmelitas, atribui a fundação do convento de Moura aos cavaleiros de São João de Jerusalém ou da Ordem dos Malteses, por volta de 1251. Como não tinham sacerdotes, estes cavaleiros, vindos do Oriente, trouxeram para Moura os Carmelitas, para que os assistissem espiritualmente. Estabelecido o Carmelo em Moura depressa se tornou notória a fama de santidade e ciência dos frades que habitavam este convento. Isto não passou despercebido a Nuno Álvares Pereira que, nas suas andanças guerreiras por terras alentejanas, já que estava responsável pela defesa da fronteira do Alentejo e conquistara Moura para D. João I, conheceu-os e entrou em contacto com eles. O que deve ter impressionado de modo especial o santo português foi a devoção à Santíssima Virgem e ao Profeta Elias. Refere-nos Pereira de Sant'Anna que Nuno visitava frequentemente o convento de Moura. É de admitir que através destes contactos frequentes e demorados o Condestável de Portugal foi-se imbuindo em profundidade da espiritualidade da Ordem Carmelita, ele que segundo testemunhos dos seus contemporâneos, enquanto no mundo, jejuava e rezava “como um religioso”.

Um segundo momento de ligação de Nuno Álvares Pereira aos Carmelitas prende-se com a construção do Convento de Nossa Senhora do Vencimento (Convento do Carmo de Lisboa). Na  batalha de Valverde ou até de Aljubarrota (os historiadores divergem) D. Nuno teria feito um voto, caso vencesse a batalha, de construir um convento em honra de Nossa Senhora do Vencimento. O voto tinha sido feito num momento difícil. Sentindo-se perdido e sem rumo recorreu piedosamente ao auxílio de Maria Santíssima, prometendo, caso a vitória fosse das tropas portuguesas, levantar-lhe um sumptuoso convento. E assim aconteceu. A construção começou em 16 de Julho de 1389, dia consagrado a Nossa Senhora do Carmo, mas a obra levou trinta e três anos a concluir porque, devido à estrutura do edifício e à topografia do terreno, ruiu três vezes. Por isso, só foi possível inaugurá-lo solenemente em 1422, embora, desde 1397 já estivesse em condições de ser habitado, o que veio a acontecer a partir desta data com a vinda de Carmelitas de Moura que D. Nuno convidara para povoar o novo convento.

O ponto culminante de ligação de D. Nuno aos Carmelitas é alcançado quando fixa residência no convento e, alguns anos depois, professa na Ordem como Irmão Donato. Com os seus bens mandara construir o Convento e quando se quis apartar para servir a Deus repartiu-os pelos seus netos,  companheiros de armas e pelos pobres. Inicialmente Nuno Álvares Pereira constituíra-se padroeiro e administrador perpétuo do Carmo e em Julho de 1422 fixara residência no convento, como hóspede, juntamente com outros companheiros. Há quem opine que a entrega em definitivo do convento aos Carmelitas resulta da constatação por parte do Condestável da conduta exemplar destes religiosos: primeiro quis ver se eram merecedores de serem proprietários do convento. Esta não é a opinião de Balbino Velasco Bayón que entende que sendo Nuno a trazê-los de Moura para Lisboa conhecia-os muito bem. Eis a opinião do historiador Carmelita espanhol: “Penso, antes, que esperou e encontrou nestes anos a ocasião propícia, quando o Carmelo português foi adquirindo plena autonomia e, como província, foi equiparada às demais da Ordem, como veremos. No quadro desta autonomia e estabilidade haveria que interpretar a dita entrega e a aceitação por parte dos Carmelitas do grande convento do Carmo de Lisboa e dos bens com que foi dotado pelo Condestável D. Nuno Álvares Pereira”.

A entrada de D. Nuno no convento que mandara erigir causou em todos um grande espanto e não foi compreendida por muitas pessoas que lhe eram próximas. A admiração foi ainda maior ao saber-se que tinha três propósitos que manifestara ao superior para ingressar na Ordem Carmelita: 1) – que lhe fosse permitido mendigar de porta em porta, por amor de Deus, o seu sustento; 2) – não consentir que o tratassem por outro nome a não ser Nuno de Santa Maria. Tudo o que tinha sido no mundo, ficava fora, às portas do convento; 3) – sair de Portugal, para um lugar desconhecido, e aí morrer, ignorado, sem que ninguém soubesse quem era. Quando o príncipe D. Duarte, que tinha por ele uma admiração filial, teve conhecimento disto foi visitá-lo e pediu-lhe insistentemente que pusesse de lado os três desejos que manifestara ao superior do convento. D. Nuno concordou apenas em não mudar de terra nem mendigar, habitualmente, de porta em porta. Em 15 de Agosto de 1423, enverga o hábito de simples Irmão Donato e prestava juramento de pobreza, castidade e obediência diante de Frei Afonso de Alfama, recém-eleito Superior da nova Província da Ordem do Carmo em Portugal, tomando o nome de Frei Nuno de Santa Maria. O Irmão Donato era o cargo mais humilde do convento dentro da hierarquia da Ordem.

No convento, Frei Nuno de Santa Maria cumpria e excedia a Regra carmelita na oração, na mortificação, no silêncio, no jejum e no serviço. “Conta Pereira de Sant'Anna que, na portaria do convento, gostava de distribuir sopa aos pobres usando uma grande caldeira de cobre que servira, em campanha, para o rancho da tropa” A sua cela era de uma pobreza extrema. Tinha como ornamentos um crucifixo, uma manta muito poída, que só usava no Inverno, e alguns cilícios e disciplinas com que macerava o corpo. Era de uma humildade extrema. Exemplificativo da sua humildade era a maneira como se comportava com Fr. João Gonçalves, que tinha sido seu criado e que agora era sacerdote. Confiaram a Frei Nuno o arranjo da cela do antigo criado. Ele fazia-o com tanto cuidado e humildade como se toda a sua vida tivesse sido criado do próprio criado. Quando Fr. João Gonçalves passava pela portaria onde Fr. Nuno se encontrava muitas vezes exercendo o ofício de porteiro ou atendendo algum pobre, levantava-se prontamente, corria para ele e, de joelhos, beijava-lhe com devoção o escapulário.

Apesar da idade e de proceder de linhagem nobre, não recusava nenhum trabalho por mais duro que fosse. Quando o advertiam para que se resguardasse dos trabalhos mais duros e mais humildes, respondia dizendo que “na casa de Deus tudo é tão ilustre que até os serviços mais baixos têm de ser altos”. A quem lhe recomendava que poupasse as suas já débeis energias, respondia que não entrara para o convento para descansar, mas para trabalhar e que o serviço nada teria de agradável a Deus se não fosse custoso.

O homem habituado a mandar, a definir estratégias, a comandar exércitos era causa de admiração de todos os seus confrades pela obediência generosa e imediata. Uma coisa o preocupava: cumprir escrupulosamente tudo o que a Regra e os superiores lhe ordenavam.

O exercício da caridade por parte de Frei Nuno de Santa Maria não se limitava ao interior do convento ou à portaria do mesmo onde os pobres acorriam em busca da sopa, do pão e das esmolas. Os doentes sempre lhe mereceram uma atenção especial. Visitava frequentemente os da própria comunidade a quem confortava e prestava todos os serviços que pediam ou visse que fossem necessários, como era frequente vê-lo pelas ruas de Lisboa à procura de algum dos seus antigos companheiros de armas que estivesse doente ou de algum dos seus pobres de quem estranhava a ausência da portaria do convento. Quando via que a doença se agravava e a morte estava próxima, chamava algum sacerdote para administrar o sacramento da Santa Unção e, frequentemente, acompanhava o enfermo rezando junto dele algumas preces e jaculatórias, invocando Jesus e Maria.

Se durante toda a sua vida de militar teve uma especial devoção para com o Santíssimo Sacramento e Nossa Senhora, agora, no convento, liberto de outras preocupações, passava longos períodos de tempo em adoração junto do Sacrário e dirigia constantes orações a Nossa Senhora.

O seu amor pela Virgem do Monte Carmelo levou-o a promover o culto mariano, mediante a devoção pelo significado do Escapulário. Com efeito, começou por convidar pessoas do seu conhecimento, tanto nobres como pobres, a reunirem-se para a prática devocional do Escapulário, dando origem à primeira Confraria de Leigos em Lisboa, chamada “Confraria do Bentinho”, origem da futura Ordem Terceira Secular. Foi, portanto, o fundador, do movimento do laicado carmelita.

Foi no Convento do Carmo, com quase setenta e um anos de idade, que faleceu no dia 1 de Abril de 1431. Ao entrar em agonia rogou que lhe lessem o Evangelho da Paixão segundo São João. Na altura em que Cristo, dirigindo-se a Maria e apresentando-lhe João, lhe diz: “Mulher, eis o teu filho!”, Nuno expirou. Também ele se entregava agora definitivamente à Mãe que sempre venerara e de quem sempre se sentira filho dilecto. Era dia de Páscoa! A notícia da morte correu célere por toda a parte e foi grande a mágoa e o pranto de grandes e pequenos. Entre os confrades Carmelitas, o povo de Lisboa e a corte de D. João I não restavam dúvidas quanto às excepcionais virtudes cristãs e à santidade do homem que foi enterrado no convento do Carmo em campa rasa. “O povo fiel que se move pelo sentido de Cristo, depressa começou a ver em Nuno Álvares o Santo e a festejar com cânticos e bailes populares que reflectem esta convicção, o que prova que havia sintonia entre a documentação e a alma das gentes, quando se tratava de venerar o Conde Santo” (Balbino Velasco Bayón) e também a serem-lhe atribuídos, por sua intercessão, milagres e graças.

Manuel Castro, O. Carm.

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